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O clube estava mais cheio do que o habitual naquela noite.
A música pulsava com força, os corpos se moviam em uma coreografia de sombras e desejos.
Ana caminhava pelo salão com a sensação incômoda de estar sendo observada não pelos clientes, mas por um par de olhos específicos.
Victor.
Ele ainda não havia se aproximado, mas Ana sentia sua presença como um peso invisível sobre os ombros.
Desde o “contrato silencioso”, tudo parecia diferente. As pessoas a cumprimentavam com mais cautela.
Os funcionários a observavam com respeito contido. Ela não era mais apenas uma visitante.
Era então que um homem se aproximou.
Alto, sorriso fácil, olhar curioso demais.
— Você é nova por aqui? — perguntou, inclinando-se para falar perto do ouvido dela por causa da música.
— Não lembro de ter te visto antes.
Ana respondeu por educação, mantendo certa distância.
— Não exatamente.
O homem sorriu, confiante.
— Sou Daniel. Posso te pagar um drink?
Antes que Ana pudesse recusar, o ambiente mudou.
Ela sentiu primeiro aquela pressão no ar, aquela sensação de que algo estava prestes a acontecer.
Quando levantou os olhos, viu Victor descendo do mezanino.
Os passos eram calmos, o rosto era impassível. Mas o olhar aquele olhar era puro aviso.
Victor parou ao lado dela, ignorando completamente o homem.
Sua mão pousou na cintura de Ana com firmeza, possessiva, como se aquele gesto fosse a coisa mais natural do mundo.
— Ela não bebe com estranhos. — disse, sem elevar a voz.
Daniel piscou, confuso.
— Desculpa, eu não sabia.
Victor finalmente o encarou. O silêncio que se seguiu foi pesado, opressor.
— Agora sabe.
Não houve ameaça direta. Não foi necessário. O homem murmurou um pedido de desculpas e se afastou rapidamente, como se tivesse acabado de escapar de algo muito pior.
Ana ficou imóvel, o coração disparado.
— Você não precisava fazer isso. — ela disse, tentando manter a calma.
Victor não tirou a mão de sua cintura. Pelo contrário, aproximou-se mais, o corpo dela encaixado ao dele de forma clara demais para qualquer observador.
— Precisava, sim. — respondeu em tom baixo. — Eu não tolero invasões.
Ela se virou para encará-lo.
— Eu não sou um objeto.
Os olhos de Victor escureceram, mas sua voz permaneceu controlada.
— Nunca disse que era. — Ele inclinou-se levemente.
— Mas você é minha responsabilidade. E o que é meu não fica disponível.
Ana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquilo deveria irritá-la. Parte dela se sentia sufocada.
Mas outra parte a mais perigosa sentia-se protegida, Desejada, Escolhida.
— Isso é ciúme? — ela provocou, quase num sussurro.
Victor sorriu de canto, um sorriso lento e escuro.
— Isso é território.
Ele a conduziu suavemente para fora do salão, para um corredor mais silencioso.
Ali, longe dos olhares curiosos, ele segurou o rosto dela entre as mãos, firme, exigindo sua atenção total.
— Você precisa entender uma coisa, Ana. — disse com calma intensa.
— Enquanto estiver ao meu lado, ninguém se aproxima sem a minha permissão.
Não por desconfiança mas porque eu decidi que você é minha.
Ela respirava com dificuldade.
— E se eu não gostar disso?
Victor apoiou a testa na dela, a voz baixa, carregada de verdade.
— Então lute. Mas saiba que eu não recuo quando escolho algo.
Quando ele se afastou, deixou para trás um silêncio pesado e uma certeza impossível de ignorar:
Aquela noite não foi apenas sobre ciúme.
Foi uma declaração pública.
Victor Moretti havia marcado território.
E todos, inclusive Ana, entenderam o recado.
Ana sabia que estava sendo observada.
Não era paranoia. Era instinto aquele mesmo que sempre a guiara em investigações perigosas.
Desde a noite em que Victor marcou território, algo havia mudado.
O mundo ao redor parecia mais silencioso e atento demais.
Ainda assim, ela não recuou.
Se havia aprendido algo sobre Victor Moretti, era que o poder dele se alimentava do silêncio dos outros.
E Ana nunca foi boa em ficar calada.
Nos dias seguintes, ela voltou a cavar. Nomes antigos, empresas de fachada, registros apagados.
Passou horas em arquivos públicos, conversou com fontes que aceitavam falar apenas sob anonimato.
As peças não se encaixavam, por acaso alguém as organizava com precisão cirúrgica.
Victor não aparecia diretamente.
Nunca.
Mas estava em tudo.
Um contrato cancelado de última hora.
Um informante que desistiu de falar.
Um servidor que “caiu” exatamente quando ela acessava dados sensíveis.
Era como investigar um fantasma poderoso demais para deixar rastros.
E então o aviso veio.
Ana saiu de um prédio comercial no centro da cidade quando percebeu que não estava sozinha.
Um carro escuro estacionado do outro lado da rua ligou os faróis lentamente. Não a seguiu. Esperou.
Seu telefone vibrou. Número desconhecido.
Atenda.
O coração dela disparou, mas ela atendeu.
— Você está indo longe demais.
A voz não era de Victor. Era masculina, fria, treinada para não demonstrar emoção.
— Quem é você? — Ana perguntou, mantendo a calma com esforço.
— Alguém que está tentando te manter viva.
O carro desligou os faróis e se afastou devagar, como se nunca tivesse estado ali.
— Se isso é uma ameaça.
— Não. — a voz a interrompeu. — É um aviso. O primeiro.
Ana sentiu um arrepio percorrer o corpo.
— Você está mexendo em coisas que não entende. — continuou o homem.
— E Victor Moretti já está sendo paciente demais.
O nome dele soou como um golpe direto no peito.
— Diga a ele que não vou parar.
Houve um breve silêncio do outro lado da linha.
— Ele sabe que você diria isso.
A ligação caiu.
Naquela mesma noite, Ana foi ao clube. Não por curiosidade. Por confronto.
Victor a esperava no mezanino, como se sempre soubesse quando ela viria.
Estava tranquilo demais, segurando um copo de uísque, o olhar fixo na pista de dança.
— Recebeu o recado. — Ele disse, sem se virar.
Ana sentiu o sangue ferver.
— Você mandou me ameaçar.
Victor finalmente a encarou. O olhar não era de raiva. Era algo mais perigoso, decepção contida.
— Eu mandei te proteger.
— Isso não é proteção. É intimidação.
Ele se aproximou lentamente, cada passo medido.
— Proteção e intimidação usam a mesma linguagem no meu mundo.
Ana cruzou os braços, desafiadora.
— Você acha que isso vai me fazer parar?
Victor parou diante dela, tão perto que ela podia sentir o calor do corpo dele.
— Não. — Ele respondeu com honestidade brutal.
— Mas vai te fazer pensar duas vezes antes de continuar.
— Então esse foi o primeiro aviso?
Os olhos dele escureceram.
— Sim.
— E o segundo?
Victor segurou o rosto dela com firmeza, obrigando-a a encará-lo. O toque não era violento, era absoluto.
— O segundo aviso não virá em palavras. — Ele murmurou.
— E eu não quero chegar a esse ponto.
Ana sentiu o medo subir, real e cru. Mas, misturado a ele, havia algo ainda mais perturbador, ela acreditava que Victor estava dizendo a verdade.
— Então me diga para parar olhando nos meus olhos. — ela desafiou.
Victor a encarou por longos segundos. Quando falou, sua voz saiu baixa, intensa.
— Pare.
Ela não respondeu.
E naquele silêncio, ambos souberam:
Ana não iria parar.
E Victor, se fosse necessário, não hesitaria.
O jogo havia mudado.
O primeiro aviso foi dado.