Ana aprendeu rápido que, naquela casa, agir normalmente era uma forma de sobrevivência.
Na manhã seguinte, acordou antes de Victor.
O sol m*l tocava as cortinas de linho, e o silêncio da cobertura parecia pesado demais para ser natural.
Ela ficou alguns minutos deitada, observando o perfil dele ao seu lado a respiração lenta, o rosto relaxado apenas quando dormia.
Era o único momento em que Victor não parecia no controle absoluto de tudo.
Ela levou a mão ao ventre, com cuidado, quase com culpa.
Ainda é cedo, repetiu para si mesma.
Ninguém precisa saber.
Ainda não.
Levantou-se sem fazer barulho e foi até o banheiro.
O espelho devolveu-lhe um rosto pálido, olhos atentos demais, como se estivesse sempre esperando o pior.
Enjoos leves vieram em ondas curtas, fáceis de disfarçar, por enquanto.
Ana respirou fundo.
— Você consegue — murmurou para o próprio reflexo.
No café da manhã, sentou-se à mesa como sempre.
Pegou a xícara, levou aos lábios, mas o cheiro do café fez seu estômago revirar.
Ela conteve o gesto no último segundo, pousando a xícara com cuidado excessivo.
Victor percebeu.
Ele não precisava olhar diretamente. Sentia mudanças.
— Você não tocou no café — comentou, lendo o jornal como se fosse a coisa mais banal do mundo.
— Não estou com vontade — respondeu rápido demais.
Victor ergueu os olhos lentamente.
— Desde quando?
Ana deu de ombros.
— Desde hoje.
Ele fechou o jornal com calma estudada e apoiou os cotovelos na mesa.
— Você dormiu m*l — disse.
— Está mais quieta. Evita meu olhar. — Uma pausa.
— E agora não consegue lidar com algo que sempre gostou.
Ela sentiu o coração acelerar.
— Está me analisando de novo?
— Sempre — respondeu ele, sem sorrir.
— Você muda de humor quando está escondendo algo.
Ana forçou um meio sorriso.
— Talvez eu só esteja cansada.
Victor levantou-se e caminhou até ela.
Parou atrás de sua cadeira, colocando as mãos no encosto, inclinando-se levemente.
— Cansaço não deixa o corpo tenso desse jeito — murmurou perto de seu ouvido.
— Nem faz você proteger o próprio abdômen sem perceber.
O sangue fugiu do rosto de Ana.
Ela percebeu tarde demais que havia
cruzado os braços, num gesto instintivo.
Desfez-o rápido, mas já era tarde.
Victor afastou-se um pouco, observando-a com atenção silenciosa. Seus olhos escureceram, não de raiva de curiosidade perigosa.
— O que está acontecendo com você, Ana?
Ela levantou-se abruptamente, precisando criar distância.
— Nada que diga respeito aos seus negócios ou às suas guerras — respondeu, mais dura do que pretendia.
Victor não gostou.
Ele se aproximou, passos lentos, dominadores.
— Tudo o que acontece com você me diz respeito.
— Não — ela rebateu.
— Nem tudo.
Victor segurou o queixo dela com dois dedos, obrigando-a a erguer o rosto.
Não havia brutalidade no gesto, apenas posse.
— Você esquece rápido demais quem manda aqui — disse em tom baixo.
— E esquece ainda mais rápido que eu não tolero segredos.
Ana engoliu em seco.
— Então vai ter que aprender — respondeu, surpreendendo até a si mesma.
— Porque este… é meu.
O silêncio que se seguiu foi cortante.
Victor soltou o rosto dela devagar.
Um sorriso lento surgiu em seus lábios, mas não havia humor ali.
— Você está mudando — murmurou.
— E mudanças sempre têm um motivo.
Ele deu as costas e caminhou até o escritório, parando na porta.
— Aproveite enquanto pode — acrescentou, sem olhá-la.
— Porque quando eu descubro a verdade… — virou o rosto apenas o suficiente para que ela visse o brilho em seus olhos, nada fica guardado por muito tempo.
Quando ficou sozinha, Ana sentou-se outra vez, as mãos trêmulas pousadas sobre o ventre.
Ela havia conseguido manter o segredo.
Por enquanto.
Mas Victor estava mais atento do que nunca.
E, naquela casa, segredos não eram apenas perigosos eram convites para a obsessão.