CAPÍTULO 24

654 Words
Ana aprendeu rápido que, naquela casa, agir normalmente era uma forma de sobrevivência. Na manhã seguinte, acordou antes de Victor. O sol m*l tocava as cortinas de linho, e o silêncio da cobertura parecia pesado demais para ser natural. Ela ficou alguns minutos deitada, observando o perfil dele ao seu lado a respiração lenta, o rosto relaxado apenas quando dormia. Era o único momento em que Victor não parecia no controle absoluto de tudo. Ela levou a mão ao ventre, com cuidado, quase com culpa. Ainda é cedo, repetiu para si mesma. Ninguém precisa saber. Ainda não. Levantou-se sem fazer barulho e foi até o banheiro. O espelho devolveu-lhe um rosto pálido, olhos atentos demais, como se estivesse sempre esperando o pior. Enjoos leves vieram em ondas curtas, fáceis de disfarçar, por enquanto. Ana respirou fundo. — Você consegue — murmurou para o próprio reflexo. No café da manhã, sentou-se à mesa como sempre. Pegou a xícara, levou aos lábios, mas o cheiro do café fez seu estômago revirar. Ela conteve o gesto no último segundo, pousando a xícara com cuidado excessivo. Victor percebeu. Ele não precisava olhar diretamente. Sentia mudanças. — Você não tocou no café — comentou, lendo o jornal como se fosse a coisa mais banal do mundo. — Não estou com vontade — respondeu rápido demais. Victor ergueu os olhos lentamente. — Desde quando? Ana deu de ombros. — Desde hoje. Ele fechou o jornal com calma estudada e apoiou os cotovelos na mesa. — Você dormiu m*l — disse. — Está mais quieta. Evita meu olhar. — Uma pausa. — E agora não consegue lidar com algo que sempre gostou. Ela sentiu o coração acelerar. — Está me analisando de novo? — Sempre — respondeu ele, sem sorrir. — Você muda de humor quando está escondendo algo. Ana forçou um meio sorriso. — Talvez eu só esteja cansada. Victor levantou-se e caminhou até ela. Parou atrás de sua cadeira, colocando as mãos no encosto, inclinando-se levemente. — Cansaço não deixa o corpo tenso desse jeito — murmurou perto de seu ouvido. — Nem faz você proteger o próprio abdômen sem perceber. O sangue fugiu do rosto de Ana. Ela percebeu tarde demais que havia cruzado os braços, num gesto instintivo. Desfez-o rápido, mas já era tarde. Victor afastou-se um pouco, observando-a com atenção silenciosa. Seus olhos escureceram, não de raiva de curiosidade perigosa. — O que está acontecendo com você, Ana? Ela levantou-se abruptamente, precisando criar distância. — Nada que diga respeito aos seus negócios ou às suas guerras — respondeu, mais dura do que pretendia. Victor não gostou. Ele se aproximou, passos lentos, dominadores. — Tudo o que acontece com você me diz respeito. — Não — ela rebateu. — Nem tudo. Victor segurou o queixo dela com dois dedos, obrigando-a a erguer o rosto. Não havia brutalidade no gesto, apenas posse. — Você esquece rápido demais quem manda aqui — disse em tom baixo. — E esquece ainda mais rápido que eu não tolero segredos. Ana engoliu em seco. — Então vai ter que aprender — respondeu, surpreendendo até a si mesma. — Porque este… é meu. O silêncio que se seguiu foi cortante. Victor soltou o rosto dela devagar. Um sorriso lento surgiu em seus lábios, mas não havia humor ali. — Você está mudando — murmurou. — E mudanças sempre têm um motivo. Ele deu as costas e caminhou até o escritório, parando na porta. — Aproveite enquanto pode — acrescentou, sem olhá-la. — Porque quando eu descubro a verdade… — virou o rosto apenas o suficiente para que ela visse o brilho em seus olhos, nada fica guardado por muito tempo. Quando ficou sozinha, Ana sentou-se outra vez, as mãos trêmulas pousadas sobre o ventre. Ela havia conseguido manter o segredo. Por enquanto. Mas Victor estava mais atento do que nunca. E, naquela casa, segredos não eram apenas perigosos eram convites para a obsessão.
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