O clube pulsava como um organismo vivo naquela noite.
As luzes rubras cortavam a penumbra, refletindo nos copos de cristal e na pele suada dos corpos que se moviam ao ritmo da música grave.
O Dono da Noite estava mais cheio do que o habitual, mas havia algo diferente no ar uma tensão invisível, um pressentimento que fazia os seguranças manterem as mãos mais próximas das armas.
Ana sentiu isso no instante em que entrou.
Victor caminhava à frente dela, imponente, o terno escuro moldando-se ao corpo como uma armadura.
Ele não segurava sua mão, mas o simples fato de ela estar ali, ao seu lado, já era uma declaração silenciosa de posse.
Todos sabiam.
Ela era dele.
— Fique perto de mim — disse ele, sem virar o rosto.
— Esta noite não é segura.
O aviso fez o estômago de Ana se contrair.
— Quando é? — murmurou ela.
Victor não respondeu.
Apenas conduziu-a até o camarote reservado, de onde tinha visão completa do salão.
Seus olhos varreram o ambiente com precisão letal, atentos a detalhes que passavam despercebidos para qualquer outra pessoa.
Foi então que Ana o viu.
Enzo Salvatore.
Ele não parecia um homem perigoso à primeira vista.
Elegante, sorriso fácil, um ar quase descontraído demais para aquele território.
Usava um terno claro, destoando propositalmente do ambiente escuro como alguém que não temia ser visto.
— Quem é ele? — perguntou Ana, sentindo o corpo de Victor ficar rígido.
Victor demorou alguns segundos para responder.
— Um erro que ainda respira.
Os olhos de Enzo encontraram os de Victor do outro lado do salão.
O sorriso dele se ampliou lentamente, carregado de provocação.
Ele ergueu o copo em um brinde silencioso.
Desafio.
— Ele não deveria estar aqui — continuou Victor, a voz baixa e controlada demais.
— Este clube não é território neutro.
Ana percebeu o quanto aquilo era grave pelo simples fato de Victor não demonstrar raiva.
Ele estava, calculando.
Enzo aproximou-se do camarote com passos tranquilos, como se tivesse sido convidado.
Dois seguranças se moveram para barrá-lo, mas Victor fez um gesto sutil.
Deixou passar.
— Moretti — disse Enzo, com falsa cordialidade.
— Sempre tão seletivo com as visitas.
— Você tem cinco segundos para dizer o que quer — respondeu Victor.
— Depois disso, não respondo pelo que acontece.
Enzo riu, um som leve demais para o peso daquele encontro.
Seu olhar deslizou até Ana, demorando-se mais do que deveria.
— Então esta é a mulher que anda ocupando seu tempo — comentou.
— Bonita. — Um sorriso enviesado.
— E parece vulnerável.
O ar ficou pesado.
Victor colocou a mão na cintura de Ana, puxando-a para mais perto, num gesto possessivo e deliberado.
— Não olhe para ela — disse, a voz baixa, mortal.
— Nem pense nela.
Enzo ergueu as mãos, fingindo rendição.
— Calma. Vim apenas trazer um aviso.
— Avisos não atravessam minhas portas — rebateu Victor.
— Ameaças, sim.
O sorriso de Enzo endureceu por um segundo.
— As coisas estão mudando, Moretti. Seus aliados estão inquietos. Seus inimigos, famintos. — Ele inclinou a cabeça, olhando novamente para Ana.
— E pessoas próximas a você… costumam pagar o preço primeiro.
Ana sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.
Victor aproximou-se de Enzo, ficando a centímetros de seu rosto.
— Se você chegar perto dela — murmurou — eu não vou te matar rápido.
Vou fazer questão de que todos saibam quem foi o t**o que achou que podia me provocar.
Enzo sustentou o olhar por alguns segundos, depois deu um passo para trás.
— Considere isso apenas… um lembrete. — Virou-se para Ana uma última vez.
— Tenha cuidado com os homens que dizem proteger. Às vezes, são eles que colocam você na linha de fogo.
Ele se afastou, misturando-se à multidão, como se nunca tivesse estado ali.
O silêncio que ficou era ensurdecedor.
Victor segurou o rosto de Ana com firmeza, obrigando-a a olhá-lo.
— Você ouviu o que ele disse — afirmou. — E esqueça.
— Ele te ameaçou — respondeu ela, a voz baixa.
— A mim.
— Todos me ameaçam — disse Victor, sem emoção.
— Mas poucos têm coragem de tentar.
Ele a puxou para um abraço duro, protetor, quase sufocante.
— A partir de agora — completou
— você não dá um passo sem que eu saiba. Não fala com estranhos. Não fica sozinha. — Seus olhos queimavam de intensidade.
— Se Enzo Salvatore acha que pode usar você para me atingir, está declarando guerra.
Ana apoiou a testa no peito dele, sentindo o coração de Victor bater firme, implacável.
Naquele momento, ela entendeu algo terrível.
Victor não era apenas um homem perigoso.
Ele era um homem cercado por monstros.
E ela...
Ela estava exatamente no centro daquele campo de batalha.