SOPHIE
Depois que o senhor Min saiu, fiquei aguardando Choon-Hee na biblioteca.
Aquela casa era realmente muito grande. A biblioteca, com tantas opções de livros impecavelmente arrumados por gênero e ordem alfabética, era impressionante. Dedilhei alguns na prateleira de romances estrangeiros e um me chamou a atenção.
“Orgulho e Preconceito”
Peguei o livro e a sinopse era atrativa. Um romance que tem como fundo uma sociedade burguesa da Inglaterra do início do século XIX, onde há sempre um preconceito sobre classes e casamentos com dotes.
— É o meu preferido.
A voz de Choon-Hee me deu um susto.
— Oh, desculpe, não a vi entrar. — Olhei para a menina parada junto à porta, me encarando com um ar sério.
Ela não respondeu.
— Me parece uma história muito boa. — Fechei o livro.
— Você sempre costuma mexer nas coisas sem permissão? — Ela me perguntou.
— Desculpe… eu não entendi. — Fiquei perdida.
— Vou ser mais clara. Eu não estou aqui para conversarmos e em nenhum momento quero ficar aqui e escutar você falando e falando. — O ar angelical se misturava a uma aura arrogante.
— Olha… — Coloquei o livro novamente no lugar e a encarei. — Eu fui contratada para ser sua tutora e sei muito bem o que tenho que fazer aqui.
— Exatamente, você foi contratada pelo meu pai, então resolva com ele no fim.
Arregalei os olhos um tanto confusa e incrédula com o que estava ouvindo.
— Choon…
— Não temos i********e para que me chame pelo nome, senhorita Oliveira.
— Ah, sim, claro. — Sorri sem graça. — Senhorita Min, eu acho que estamos nos entendendo errado. Eu só preciso de duas horas por dia para lhe ensinar e eu vou embora; apenas quero fazer meu trabalho.
— Acho que você não entendeu. Eu tenho outras coisas para fazer e não vou ficar aqui. Então, até mais, senhorita Oliveira. Foi um prazer.
Antes que eu pudesse protestar ou processar o que tinha acontecido, ela saiu, me deixando confusa. Peguei minha bolsa e fui até a cozinha.
— Oi, querida, como estão as aulas? — Perguntou Yang-mi, sorridente.
— Bem… meio que… — Fiquei na dúvida se deveria ou não contar o que havia acontecido. — A gente repassou os horários e organizou tudo para amanhã. — Eu menti apertando a alça da minha bolsa.
— E onde está Choon?
— Ah… ela disse que tinha dever de casa e foi para o quarto.
— Sério? Que estranho, essa menina odeia estudar.
Não queria estar mentindo, mas achei melhor tentar conversar novamente com Choon-Hee.
— Está com fome?
— Talvez um pouco.
— Então sente que eu vou te servir a melhor lasanha que você já provou. — Disse, eufórica.
— Nossa! Você está fazendo curso de culinária? — Perguntei, sorrindo, enquanto me sentava no banco da ilha.
— Sim. — Ela riu. — Como sabe?
— Fala sério.
— Estou falando. Achei um cursinho online de comidas tradicionais do Brasil e todos estão adorando. — Disse, colocando um prato com um pedaço de lasanha.
— Nossa… hum… esse aroma. — Aspirei o cheiro delicioso.
— Espero que goste. — Falou, colocando um copo com suco de laranja à minha frente.
Yang-mi começou a cozinhar e uma questão surgiu na minha mente novamente.
— Yang-mi?
— Sim, querida?!
— Bem, a senhora Min não está em casa?
Yang-mi parou de mexer a panela, pegou um pano para limpar as mãos e se virou para mim. Seus olhos não estavam mais alegres, mas sim com uma expressão de tristeza.
— Sophie, minha querida… — Ela se aproximou da bancada e sentou-se à minha frente. — Sabe, a senhora Ah-ri não está mais aqui.
— Estão separados? — Indaguei.
— Não… A senhora Ah-ri faleceu…
— Oh! — Peguei na mão de Yang-mi. — Me perdoe pela intromissão e indelicadeza.
— Não foi nada.
— Eu… eu apenas…
— Não se preocupe, é normal fazer perguntas sobre o que se tem dúvidas. — Respondeu, pegando minha mão.
…
JUN-HO
14:30
Depois da longa reunião com os sócios da futura franquia no Brasil, eu estava exausto.
Praticamente me joguei na cadeira, tirei os óculos e apertei meus olhos que ardiam. Estava novamente passando noites em claro trabalhando e, por mais que eu negasse, sabia o porquê.
— Toc, toc! — Si-Woo colocou a cabeça para dentro da sala.
— Desaprendeu a bater?
— Posso entrar?
— Desde quando você pediu? — Retruquei de bom humor.
— Ah, sabe como é. Às vezes não quero correr o risco de levar uma mordida na canela.
O olhei sério, porque eu estava a um passo de jogá-lo pela janela.
— As pessoas se acidentam por aí, sabia, Hope? — Disse, ligando o notebook.
— Você sabe que me ama. — Si-Woo sentou à minha frente, cruzando as pernas. — O que foi essa reunião? Achei que você ia voar no pescoço do tal Rogério.
— Ainda bem que só você percebeu. Eu realmente iria fazer isso.
— As apostas iam rolar. — Ele falou, rindo.
— E com certeza você sairia ganhando.
Si-Woo riu alto.
— Você com esse ar de vovô rabugento ia ser demais contra um armário de um metro e oitenta com cara de 007 de quinta.
Agora eu ri.
— Meu Deus! Min Jun-Ho ainda sabe rir.
— Calado.
— Ah, soube que a Eun-jin veio aqui hoje.
— E daí? — Continuei assinando os documentos.
— E daí que ela não só veio aqui, mas veio ver você.
Olhei de cima da tela do computador para Si-Woo, que tinha um sorrisinho sacana. Abaixei a tela e me debrucei na cadeira.
— Eu a expulsei daqui. Só não foi a ponta-pés porque não bato em mulheres.
— Jun-Ho! Como pôde? O que acha que o Nam vai pensar sobre isso? — Si-Woo fez uma cara estranha e engraçada.
— Para de ser medroso. Você sabe muito bem que o Nam sabe como é a irmã sobre mim e como sou também. — Fiz minha melhor cara de desdém possível.
— Mas sinceramente eu não entendo por que você a trata assim, ainda mais que vocês eram melhores amigos na infância. Bem, o papo está bom, mas ainda tenho algumas papeladas e processos para encaminhar. — Mudou de assunto, olhando o relógio de pulso.
Si-Woo saiu antes que eu pudesse falar algo sobre o assunto e fechou a porta e minha mente vagou até aquela memória.
Flashback On
Fazia dois anos desde que nos tornamos amigos; era o último ano escolar e seria o tão falado baile de debutantes.
— E aí, Jun? — Eun-jin chegou passando seu braço esquerdo pelo meu pescoço.
— Oi, Eun. — Respondi, tentando sair do seu aperto.
— O que está fazendo? — Ela sentou na carteira ao lado da minha, puxando a folha à qual eu escrevia.
— Me dá isso aqui, sua xereta feiosa. — Levantei, puxando a folha de sua mão e voltando ao meu lugar.
— Qual é, seu nanico m*l-humorado.
— Sabe que não gosto que pegue nas minhas coisas assim. — Falei, colocando a folha dentro do livro de matemática.
— É… tá bom. — Ela deu de ombros, lixando as unhas.
Peguei meu celular.
— E aí? Vai para o baile?
— Não sei. Talvez. — Dei de ombros.
— Hum… e se for, vai chamar quem?
Aquela pergunta tinha uma resposta e ela acabou de responder minha mensagem de texto.
— Jun? Jun-ho!! — Eun-jin me beliscou.
— Aiiii! O que você quer?— Perguntei massageando o braço.
— Nossa, Jun… você parece que não quer mais conversar comigo.
— Não é isso… — Passei a mão no cabelo, fechando o celular. — Desculpa, eu só estou ocupado esses dias por conta das provas da faculdade. — Me virei para encará-la.
— Tá… Tem razão. Essas provas também estão me deixando louca. — Ela me olhou com olhos tristes e baixos. — Hoje é sexta, dia do videogame lá em casa, então eu vou passar na mercearia do senhor Kim e…
— Jun-Ho?! Vem, temos que repassar as estratégias do último jogo. — Um cara do time de futebol veio me chamar.
— Fica para a próxima ,Eun. — Me levantei e saí da sala .
…
Uma semana antes do baile…
— Espera! Ah-ri, por favor, espera! — Larguei minha bicicleta na calçada e fui atrás de Ah-ri.
— Me deixa, Jun-Ho. — Ela disse de uma maneira irritada.
— Não. Você vai me dizer o que eu fiz. — A puxei pelo braço, virando-a para mim.
— Eu já falei, agora, se você não quer entender, eu não tenho culpa. — Seus olhos tinham uma raiva que eu não conseguia decifrar ou saber de onde vinha.
— Você apenas disse que não quer ir ao baile comigo e, depois disso, não fala comigo há quatro dias. Então, sim, eu não entendi.
— Me solta, você está machucando meu braço.
Minha respiração estava desregulada e eu me sentia tonto e perdido.
— Desculpa… eu… não foi minha intenção. — Soltei seu braço; ela o puxou, alisando-o. — Eu… apenas não estou entendendo o que aconteceu. — Disse, angustiado.
— Como pôde? — Sua voz saiu embargada.
Ah-ri estava de cabeça baixa e algumas lágrimas desciam, molhando a sua sapatilha da escola. Meu coração ficou apertado por não saber o que eu fiz para magoá-la assim.
— Ah-ri… Por favor, me diga, porque sinceramente eu não sei. — Falei, baixo e aflito, quase numa súplica, olhando-a.
Ah-ri fungou, enxugando as lágrimas e puxando a mochila, tirou o celular de dentro da bolsa. Então, ela me mostrou uma foto minha dormindo sem camisa e Eun-jin deitada de sutiã sobre mim.
— O… o quê? — Peguei o celular da sua mão, olhando a foto de perto, sem acreditar no que via. — Ah-ri, eu… eu não fiz isso… — Olhei-a desesperado.
— Como não? — Ela pegou o celular da minha mão, voltando à fúria. — Esse é você, não é? E sua amiga, não é mesmo?
— Sim, é, mas eu não fiz isso! Por que não acredita em mim?
— Essa não é a questão. Essa foto é real.
— Meu amor por você é real! — Gritei.
Ah-ri me olhou com olhos espantados. Meu peito subia e descia de forma irregular, meu coração acelerou.
— Eu vou provar para você que eu nunca fiz ou faria uma coisa dessas.
Peguei minha bicicleta e saí às pressas, indo até a casa de Eun-jin. Toquei a campainha ao chegar e bati na porta.
— Meu Deus! Já vai! — A voz de Eun-jin fez minha raiva subir a mil. — Ah, oi, Jun. — Ela disse, sorridente, ao abrir a porta.
— Sua mentirosa! — Esbravejei, empurrando-a pelos ombros.
— O que? Tá maluco? O que deu em você? — Ela indagou, com ar de espanto, quando cambaleou para trás.
— Você, como pôde? Eu não sei o que está tentando fazer, mas eu te garanto que você não vai conseguir. Eu não gosto de você; é da Ah-ri que eu gosto, e nada vai mudar isso. Nem suas baixarias vão mudar isso, me fazer gostar ou ver você como algo que não seja minha amiga… aliás, nem isso mais. A partir de hoje, não somos mais amigos, apenas conhecidos por ambas as nossas famílias.
Me virei para ir embora, indo até o jardim e pegando minha bicicleta.
— Espera, Jun! — Eun-jin veio atrás de mim, me pegando pelo braço.
Eu puxei com brusquidão, me soltando e montando na bicicleta.
— Jun-Ho, por favor! Eu não sei o que eu fiz, mas se eu fiz algo, me perdoa! — Ela disse, chorando, puxando minha camisa.
— Saí!!! — Soltei sua mão do agarro e a empurrei novamente, fazendo-a cair no gramado.
Flashback Off
— Vaca nojenta. — Balbuciei ao levantar, pegando meu sobretudo.
Precisava comprar flores.