— Obrigado, senhor. Volte sempre. — A atendente da floricultura disse sorridente, e eu apenas assenti antes de sair.
Coloquei o buquê de rosas vermelhas e brancas no banco de trás do carro. Dei partida e segui para o destino que eu nunca desejava visitar, mas que, ao longo dos anos, nunca deixei de frequentar. Estacionei, peguei o buquê e, colocando meus óculos escuros, caminhei devagar até o túmulo de minha esposa.
Kim Ah-ri
Mãe e esposa
Companheira e amiga
“Minha primavera em meio ao inverno, sempre te amarei.
Com todo amor para minha Saem”
1990 – 2016
Suspirei, olhando fixo para a lápide que Si-Woo havia mandado fazer. As palavras eram minhas; eu as havia escrito no último cartão que mandei com o buquê para ela no hospital, no mesmo dia de seu falecimento.
— Olá, querida. Eu me atrasei um pouco porque tive uma reunião chata hoje e, sinceramente, quase mandei tudo pelos ares. — Ri, tirando os óculos escuros. — Trouxe esse buquê para você, é o seu preferido. Espero que goste. — Coloquei o buquê no túmulo e pus as mãos nos bolsos.
Apesar dos anos que se passaram, eu ainda sentia a mesma sensação ao olhar para aquele lugar. O cheiro da terra molhada ainda estava no meu nariz, mesmo que hoje fosse um dia ensolarado.
— As meninas estão crescendo, e confesso que isso me assusta um pouco. Elas eram tão pequenas e, de repente, em um piscar de olhos, estão se tornando adultas. Bem, Nari ainda é pequena, mas às vezes ela diz que está grandinha demais para que eu a acompanhe até o banheiro. — Ri, lembrando da cara que ela fez quando me disse isso pela primeira vez.
Olhei ao redor e aquele lugar cheio de túmulos gritava um silêncio ensurdecedor. Meu coração doeu ao lembrar que minha esposa também era uma moradora ali. Nossa casa ainda era a mesma, mas não era mais a mesma sem ela. Sem seu sorriso, sem sua voz no fim do dia quando eu chegava em casa, sem suas reclamações corriqueiras sobre como eu deixava a toalha em cima da cama.
— Sabe, agora eu não deixo a toalha na cama. — Confessei, sentindo a brisa fria passar por ali. — E antes que me esqueça, é seu aniversário semana que vem, não é mesmo? Eu não esqueci, amor. Vou levar as meninas para um almoço no seu restaurante preferido. — Sorri minimamente e coloquei os óculos.
Olhei para o céu quando senti uma gota molhar meu rosto e o tempo começava a ficar nublado novamente.
— Engraçado como chove tanto no final do outono. Bem, já vou, querida. Até mais. Eu te amo.
Dei as costas ao túmulo e fui devagar pelo caminho de pedregulhos que dava acesso ao estacionamento. Entrei no carro e apertei o volante, tentando afastar a angústia que se apoderava de mim toda vez que chegava aquele dia.
— Está tudo bem...
— Eu sei... — Fechei os olhos.
— Eu te amo...
— Eu te amo também …— Sussurrei, dando partida.
...
— Cheguei! — Gritei ao notar o silêncio em minha casa.
Estranhei e fui até a cozinha. Lá estava Yang-mi, assistindo novamente ao programa de culinária do Brasil enquanto colocava várias coisas na batedeira.
— Não cansa disso não? — Indaguei, encostado ao parapeito da porta.
— Ui! — Ela se espantou, virando o rosto por cima do ombro. — Senhor Jun, boa noite. Como foi o trabalho hoje? — Perguntou, sorridente, voltando a atenção ao que estava fazendo.
— Boa noite. — Respondi, me aproximando do balcão e me sentando no banco da ilha. — Razoável, mas, como sempre, exaustivo. — Arregacei as mangas da blusa social branca.
— Mas eu tenho algo para animá-lo. Veja. — Yang-mi pegou uma travessa no balcão ao lado e colocou-a à minha frente.
— O que é isso? — Encarei o recipiente com uma espécie de farofa.
— Se chama 'cuca'. — Arqueei uma sobrancelha. — E é de banana. Prove. — Ela cortou um pedaço, colocando em um pratinho e me servindo.
— Não sei não... — Olhei para a senhorinha de olhos redondos e escuros.
— Ora, o senhor adora banana.
— Tá bem... Me dá um garfo, por favor. — Peguei o garfo, tirando um pedaço do bolo com farofa e, com certo receio, coloquei na boca, degustando um sabor que, incrivelmente, era muito bom.
— E aí?
— Nossa! Isso está muito bom! — Exclamei, devorando o pedaço.
— Eu sabia que iria gostar. — Yang-mi disse, sorridente, voltando ao seu afazer.
— Onde estão as meninas? — Perguntei, me servindo de outro pedaço.
— Nari está na brinquedoteca e Choon-Hee no quarto fazendo as tarefas.
— Certo. E como foi a primeira aula com a tutora? — Estava curioso.
— Ah, sim. Elas acertaram os detalhes para amanhã.
— Humm... Yang? O que achou da tal senhorita Oliveira? — Não queria ter que perguntar sobre isso, mas a curiosidade falou mais alto. Além disso, sempre gostei da opinião de Yang-mi.
— Bem, ela é uma ótima garota, gentil e educada. Gostei muito dela.
— Certo. — Me levantei. — Estava muito bom, realmente. Meus parabéns. Vou subir e tomar um banho. Me chame para o jantar às 21, por favor.
— Pode deixar, senhor.
---
Enquanto a água quente escorria pelo meu corpo e o vapor começava a preencher o banheiro, meus pensamentos se voltaram para a nova tutora das meninas, Sophie Oliveira. Não pude evitar pensar .
“Será que ela é realmente tão boa quanto Yang-mi diz?” Pensei, esfregando o sabonete sobre a pele. “O que fez ela se destacar entre as outras candidatas?”
Eu sabia que precisava de alguém que não só ensinasse, mas que também se conectasse com as meninas de maneira significativa. Choon-Hee e Nari são muito diferentes uma da outra, e encontrar alguém que pudesse lidar com essas diferenças e ainda assim manter a autoridade seria um desafio. Pense se ela conseguiria ganhar a confiança e o respeito das meninas. Mais importante, eu me perguntava se ela conseguiria preencher um pouco do vazio deixado pela ausência de Ah-ri.
Soltei um riso frustrado.
Porém , meus pensamentos vagaram por uma vertente diferente e não pude deixar de pensar na sua aparência e no comportamento que ela demonstrou. Ela parecia tão tímida e um pouco nervosa, a maneira como ela se encolheu ao meu redor, como se estivesse constantemente subjugada à minha presença. Havia algo de vulnerável em sua postura, algo que a fazia parecer pequena e quase deslocada. O jeito como ela desviava o olhar e o tom de voz hesitante me fizeram questionar se ela conseguiria se afirmar como uma autoridade diante das meninas.
“Preciso avaliar se essa timidez é apenas uma primeira impressão ou se ela pode se tornar um problema. As meninas precisam de alguém que seja ao mesmo tempo gentil e firme, que saiba impor limites sem abrir mão da empatia.Yang-mi gostou dela, e isso é um bom sinal. Se Yang-mi, que conhece as meninas tão bem, está confiante, talvez eu também deva confiar.”
O calor da água parecia aliviar a tensão em meus ombros, mas a dúvida permanecia. “Vou ficar atento à forma como Sophie se comporta e interage com as meninas nos próximos dias. É fundamental garantir que ela seja a pessoa certa para esse papel.”
Finalizei o banho com uma sensação de determinação. Era crucial que o ambiente em casa fosse o melhor possível para o crescimento e a felicidade das meninas. E eu garantiria isso ,mas do que nunca .