e Giulia, mesmo ansiosa, estava verdadeiramente feliz com tudo aquilo. Seu amor por Dante a deixava cega; ela simplesmente não enxergava o problema daquele relacionamento.
Ela sabia que Dante amava Selena, sabia ainda mais que aquele noivado era forçado, uma farsa para que ele assumisse o cargo de CEO. Mas ela não interpretava assim. Para Giulia, era apenas o sonho de se casar com o amor da adolescência finalmente se concretizando.
Minutos depois, Marco chegou. Ao entrar na sala, perguntou se os dois estavam prontos para a foto. Dante e Giulia confirmaram, e logo seguiram para outra sala, onde o fotógrafo e um jornalista aguardavam para fazer algumas perguntas que seriam usadas na matéria.
O clima era desconfortável. Vários funcionários conversavam e riam, dando a sensação de que estavam julgando Dante — quase como se todos achassem suspeito esse relacionamento e a pressa para anunciá-lo à mídia. Dante tentava ignorar, mas era impossível.
Então pediu que retirassem todos da sala e que permanecessem apenas ele, Giulia, o jornalista, o fotógrafo e seu pai.
A entrevista durou uma hora, mas pareceu se arrastar por cinco. Quando terminaram, estavam exaustos e foram para casa juntos.
No carro, Giulia começou a fazer perguntas sobre o futuro:
— Onde vamos comprar nossa casa? Eu gosto da sua, mas acho melhor comprarmos outra, sabe? Energia nova — disse ela com um sorriso largo, enquanto o vento batia em seus cabelos.
Dante ouviu e sentiu o desconforto apertar o peito. Afinal, iam se casar em breve e realmente precisariam pensar em vestido, festa e na nova casa.
— É… precisamos pensar nisso — respondeu.
— Isso! Vou entrar em contato com alguns amigos do meu pai que têm propriedades à venda por aqui.
Ela fez uma pausa, animada.
— E o seu trabalho? - disse ele sem empolgação
— Eu posso trabalhar em qualquer lugar esqueceu? até na china — brincou dando uma leve risada
Os dois seguiram para casa em silêncio, só havia o barulho do vento que entrava pela janela, das buzinas…
Selena e a luta sem fim
Motivada por Enrico, Selena acordou cedo, revigorada, e foi até uma papelaria para comprar alguns materiais de pintura e desenho que estavam faltando. Caminhou pelos corredores usando uma jardineira, o cabelo preso e um lenço amarelo amarrado. Observava os produtos com atenção enquanto pensava no que iria criar; sua mente fluía como um rio. Sentia-se inspirada, leve, motivada — pela primeira vez em muito tempo, realmente em paz consigo mesma.
Era uma chance perfeita para fazer diferente, evoluir. Enrico tinha surgido em sua vida no momento exato; ela precisava de alguém que a deixasse assim, tranquila e feliz.
Depois de escolher tudo, levou o carrinho até o caixa. Pagou, pegou as sacolas e seguiu para a loja para fazer uma visita rápida e ver se estava tudo certo. Assim que entrou no carro, o celular tocou. Era Enrico. Selena atendeu rápido, com um sorriso de orelha a orelha.
Ele desejou bom dia e perguntou como ela estava. Selena respondeu que se sentia bem e que tinha passado na papelaria para comprar alguns materiais. Enrico ficou feliz, contou que estava trabalhando muito e provavelmente ficaria um tempo sem ligar, mas pediu que ela não esquecesse dele. Os dois riram.
Com a voz doce, Selena disse que jamais o esqueceria e que estava ansiosa para que ele voltasse logo. A ligação terminou ali.
Para Selena, era claro como água: Enrico era um amigo. Nada além disso. Ela não queria um relacionamento — não naquele momento pós-caos. O que precisava era de leveza, companhia, amizade.
Mas Enrico estava nitidamente apaixonado. Queria conhecê-la melhor, e na última conversa tinha dito que apresentaria sua mãe para Selena, deixando suas intenções ainda mais evidentes. Sem querer, Selena poderia acabar machucando seu coração.
Selena chegou à loja animada. Passou pela porta de vidro com cuidado para não esbarrar nos manequins enquanto equilibrava as sacolas. Cumprimentou Vittoria, que organizava algumas peças nas araras com o celular na mão.
— Hey, Vittoria! Bom dia! — fala Selena animadíssima.
— Bom dia, amiga. O que é isso? Outro surto? — pergunta, curiosa, insinuando que Selena comprou compulsivamente de novo.
— Jamais! São materiais de papelaria que acabaram, vou precisar pra iniciar o novo projeto.
— Huum… o projeto que o Enrico deu a ideia? — disse em um tom de provocação.
— É isso mesmo. Ele me ligou hoje cedo, tá trabalhando muito — disse Selena enquanto olhava os vestidos que Vittoria arrumava.
Vittoria sorri com o que Selena acabara de falar, imaginando que Enrico está interessado na amiga — mas ela não percebe.
Vittoria volta a olhar o celular e, ao rolar a tela, leva um susto que deixa Selena curiosa. Enquanto ajusta um vestido e nota a reação da amiga, Selena pergunta o que houve, imaginando que seria algo bobo que Vittoria estava exagerando. Vittoria olha meio pálida para Selena, evitando dar a notícia, então coloca o celular contra o peito, segurando com as duas mãos.
Selena fica ainda mais curiosa e, com um sorriso achando que é besteira, tenta pegar o celular de Vittoria.
— O que foi, Vittoria? Me dá esse celular, eu quero ver também! — diz enquanto tenta alcançar o aparelho.
— Espera, Selena, eu vou mostrar. — diz Vittoria, segurando firme o celular.
Vittoria respira fundo, pega o celular e mostra para Selena. A notícia era a seguinte:
“Filho do dono da maior vinícola italiana irá se casar com a filha de Arthuro Médici, proprietário de diversas empresas ao redor do mundo. Os noivos são Dante Moretti e Giulia Médici.
Os jovens, de 26 e 25 anos, estão envolvidos romanticamente desde 2024, mas esse amor vem de muitos anos, pois eram amigos de infância. De uma amizade nasceu o amor.
O casal pretende, após o casamento, ter um filho. Giulia deseja ter cinco filhos, porém Dante afirma que dois seriam o suficiente para completar a família.”
Antes de terminar a leitura, Selena devolve o celular para Vittoria, que a encara com um olhar profundo e preocupado.
Nervosa, Selena pega suas sacolas e leva para o depósito da loja. Com os olhos marejados, ela entra na sala segurando as lágrimas — insistindo para que não desçam, para que não borrem sua maquiagem, para que não a façam desmoronar, para que não tirem sua dignidade… o restinho que ainda sobra.
Amar Dante fazia Selena se sentir exposta, vulnerável, como se estivesse pelada andando na rua enquanto todos ao redor olham, julgam e riem da sua cara.
Ela não se permite cair.
Não se permite chorar.
Limpa o rosto e engole a dor, respirando fundo.
— Não vou derramar uma lágrima por esse… moleque! — sussurrou.
Ela o via como um moleque que não era capaz de tomar as rédeas da própria vida. Selena sempre foi uma mulher forte; antes mesmo de se tornar mulher, já era uma adolescente determinada. Estudou e correu atrás sozinha do que queria. Seus pais não a ajudaram em nada do que ela conquistou — muito pelo contrário. Tudo que eles queriam era que ela fosse uma “mulher santa”, que se casasse aos 19 anos e construísse uma família. Mas ela nunca se viu nesse cenário; nunca quis isso. Seu foco era estudar e trabalhar. Só depois disso pretendia ter uma família, sem pressão.
Seus pais não aceitaram e, por muito tempo, tentaram prendê-la. Repugnavam as roupas que usava, o jeito de falar, as amizades da faculdade. Tudo que ela fazia era motivo de julgamento, mesmo sendo coisas normais. Seus pais eram extremamente conservadores.
Então, após uma discussão, Selena resolveu ir embora para nunca mais voltar. E, desde então, fazem 10 anos que não vê seus pais. Desde o dia em que saiu de casa, colocou na cabeça que ninguém iria fazê-la se sentir pequena, que ninguém iria impedi-la de voar. Que ninguém tinha o poder de lhe dizer o que deveria fazer. Mas, desde o dia em que conheceu Dante e Lorenzo, parecia que esse pesadelo tinha voltado a atormentá-la. Parecia coisa do universo, como um teste. Sua cabeça estava confusa, seus sentimentos ainda mais. Mas lá no fundo existia algo — ou alguém — que deixava tudo mais leve: Enrico.
Então Selena organizou seus materiais nas prateleiras do depósito — prateleiras que pediu para um velho marceneiro fazer, deixando tudo bem organizado. Colocou tudo em seus devidos lugares: os pincéis, os lápis, os papéis… as pastas, tudo. Ela iria passar muito tempo ali, desenhando sem parar, até criar uma coleção perfeita, sem pensar ainda em quem iria fabricar esses relógios. Talvez Enrico a ajudasse, já que entendia do negócio. A ideia era começar; o resto ela pensaria depois. E enquanto a Dante, ela forçava seu cérebro a esquecê-lo, ele precisava esquecê-lo, pois agora mais do que nunca, eles estão distantes um do outro. Todas as chances que eles tinham de dar certo, foram pro ralo, a uns dias atrás Selena ainda tinha esperança de que as coisas mudasse. Foi engano