Animada com o encontro com Enrico, Selena se olhou no espelho enquanto passava batom — um vermelhíssimo da Dior que havia comprado em um dos seus impulsos. Depois de finalizar, pegou sua bolsa e saiu do quarto, indo até a sala mostrar o look para Vittoria, que claramente não ficou muito satisfeita.
— Ainda acho que você deveria usar o vestido — disse Vittoria, analisando Selena dos pés à cabeça.
— Esse look é inspirado na Marilyn Monroe. Por que você tem que ser tão chata?
— Eu só acho que o vestido é mais romântico… ou talvez eu esteja apenas acostumada a te ver de vestido e esteja achando estranho essa mudança do nada.
— Muitas coisas acontecem do “nada”, e esse “nada” sempre vem de cicatrizes.
— Você tá linda — disse Vittória mudando de idéia e abraçando a amiga. — E afinal, é só um passeio. Nada demais.
— Exatamente! — respondeu Selena, olhando o relógio de pulso. — Bom, acho melhor eu ir.
Despediu-se de Vittoria, que estava hospedada em sua casa e pretendia ficar mais tempo até que o vizinho barulhento finalmente se mudasse do prédio.
Selena entrou no carro e seguiu para encontrar Enrico, que a esperaria em uma cafeteria próxima. Ao chegar, estacionou e ao descer logo o viu: Enrico estava sentado com as pernas cruzadas, usando uma camisa branca com um cardigan azul nos ombros levemente amarrado na altura do peito, calça marrom clara e cabelos levemente bagunçados. No braço direito, um relógio cinza luxuoso completava o visual.
Ele se levantou devagar quando a viu se aproximar, com um sorriso doce, admirando sua beleza e seu look básico — impossível não notar a inspiração Marilyn Monroe. Ela estava vestindo uma blusa preta e uma calça branca e salto preto. Seu cabelo estava preso com pequenas mechas soltas. Seu cheiro era levemente de cereja. Assim que ela chegou, ele puxou a cadeira com gentileza para que ela se sentasse.
Os dois trocaram olhares e sorrisos. O clima estava perfeito: folhas caíam das árvores, as luzes alaranjadas deixavam o ambiente com aquele ar de filme antigo, e pela rua, lambretas coloridas passavam tranquilamente, criando um movimento suave, nada barulhento.
— Como está se sentindo? — perguntou Enrico, confortável na cadeira, com os braços apoiados na mesa e o olhar focado nela.
— Eu estou ótima! E você? — respondeu ela, dando um gole no café.
— Estou ótimo também. Depois da festa, fiquei de cama por horas… demorou pra minha cabeça voltar ao normal — disse ele, soltando uma risada elegante.
Selena riu lembrando da cena: Enrico completamente bêbado, cumprimentando todo mundo
Inclusive quem ele já tinha cumprimentado antes. Foi vergonhoso e hilário ao mesmo tempo. Ele arrastava qualquer pessoa para dançar, trombava nos garçons e derrubava bebidas. Depois saía correndo, pegava panos e tentava ajudar os garçons como se fosse parte da equipe. Ele bêbado era uma comédia ambulante. No fim da festa, acabou jogado no chão como um pano inútil. As pessoas passavam por cima dele e ele nem abria os olhos praticamente morto.
— Impossível esquecer você deitado, rodeado de garrafas vazias, enquanto todo mundo ria e literalmente passava por cima de você.
— Pois é… a bebida humilha. Principalmente quando você mistura várias — ele deu uma gargalhada gostosa.
— Então… não quero ser inconveniente, mas tô curioso: o que rolou entre você e o Dante?
Selena ficou pálida. Engoliu o café rápido demais, quase tossindo, e respondeu prontamente, tentando não parecer nervosa:
— Ah… tudo bem. Nós namoramos. Na verdade… não foi nada sério. Foi algo bem rápido, sabe?
— Entendi — disse ele, visivelmente aliviado ao ouvir a resposta.
Os dois continuaram conversando. Enrico perguntou sobre o trabalho dela e se ela pretendia levar a ideia dos relógios adiante. Selena explicou que estava se preparando para isso, já que estava vivendo uma nova fase da vida. Uma fase em que queria experimentar coisas diferentes, coisas que nunca explorou de verdade, já que sempre foi apaixonada pelo vintage — e isso acabava limitando suas experiências.
Enrico contou que sua mãe também era apaixonada por tudo que é vintage, assim como ela, por isso admirava tanto o estilo de Selena. Ela ficou imensamente feliz e disse que gostaria muito de conhecê-la. Ele então afirmou que assim que voltasse de Londres iria organizar esse encontro — e que provavelmente sua mãe iria adorar, além de poder dar ótimas ideias pra ela.
Depois, Enrico convidou Selena para dar uma volta por ali mesmo. Ela aceitou, e os dois começaram a caminhar sobre as folhas secas que caíam das árvores, com a lua cheia iluminando o céu. Selena ria alto das piadas dele sobre alguns idosos que corriam tão devagar que mais pareciam caminhando em câmera lenta. Em meio às risadas, ela, sem perceber, segurou o braço dele — e os dois andavam como um casal.
Após alguns minutos, Enrico parou perto do rio Ádige e mostrou a vista. Selena ficou encantada. Nunca tinha parado para admirar aquele lugar — seu hobby sempre foi ir a cafeterias e restaurantes caros; nunca foi de apreciar a natureza com tanta atenção, embora gostasse.
Enrico então segurou a mão dela enquanto observavam a lua iluminando os dois e disse:
— É normal se perder no caminho.
Selena se sentiu acolhida. Olhou para ele com um sorriso doce e tímido, enquanto o vento bagunçava seus cabelos — que Enrico cuidadosamente ajeitou. Suas mãos eram fortes, com veias aparentes, mas surpreendentemente macias. Ele usava um anel de prata grosso no dedo, com um símbolo e algumas iniciais — herdado do pai, que herdou do avô. Seu cheiro era cítrico e ao mesmo tempo refrescante.
Enrico era um homem tão educado, gentil e atencioso que era impossível não se encantar. Mas, apesar de todas essas boas qualidades, o coração de Selena continuava congelado — como as grandes muralhas de gelo da Antártida.
Selena entrou em seu carro e voltou para casa sentindo o corpo leve, como se tivesse tirado um peso enorme dos ombros. Ligou o som — tocava Lana Del Rey, mas a vibe não bateu. Pulou para Olivia Rodrigo, também não encaixou. Então começou Grace Potter — Something That I Want, e imediatamente ela entrou no clima da música, se sentindo dentro de um filme da Disney. Seguiu o caminho sorrindo sozinha, perdida na própria trilha sonora.
Ao chegar em casa, encontrou Vittoria dormindo no sofá com a TV ainda ligada. Tirou os sapatos devagar para não acordá-la, desligou a TV e foi direto para o quarto. Se jogou na cama do jeito que estava, sem nem pensar em se arrumar — não queria que aquela sensação boa escapasse.
Enquanto encarava o teto, pensou na noite com Enrico. Sorria como uma adolescente que acabou de fazer um amigo novo no primeiro dia de aula. E, no meio desse turbilhão leve e gostoso, acabou adormecendo.
Manhã Seguinte — Mansão de Dante
Dante tomava o café da manhã enquanto revisava alguns documentos, fingindo que o pouco de dignidade que lhe sobrava não estava escorrendo pelos seus dedos. O sol batia nas janelas enormes da mansão, tudo parecia calmo demais pra quem estava desmoronando por dentro.
De repente, Marco apareceu segurando a maleta e sentou à mesa. Ele tinha aquela expressão séria de sempre, vestindo um terno azul escuro, uma gravata com detalhes dourados, mas com um sorriso de canto que deixava Dante imediatamente em alerta.
— Bom dia, pai — disse Dante, firme enquanto organiza os papéis sobre a mesa
— Bom dia, Dante. Está animado?
— Animado? — ele ergueu o olhar.
— Sim. Para anunciar o seu noivado com Giulia — respondeu Marco enquanto passava manteiga no pão, como se estivesse falando de algo banal.
Dante quase engasgou com o desconforto.
— Sim… estou pronto.
Ele tinha esquecido completamente daquele dia. Giulia provavelmente já estava a caminho da empresa, ansiosa pra anunciar o noivado. Só faltava ele… e o pai.
Sem pensar duas vezes, Dante acelerou o café, levantou e saiu rumo à empresa. Marco ficou ali, comendo satisfeito, como se estivesse organizando o mundo exatamente como queria.
Logo em seguida, Caterina desceu as escadas — impecável, como se fosse para um grande evento. Marco ergueu o olhar, analisando cada detalhe dela dos pés à cabeça. Não disse nada. E ela também não.
A guerra silenciosa entre os dois estava longe de acabar. Ela não pretendia perdoá-lo pelo desrespeito, e ele não tinha a menor intenção de pedir desculpas.
Algo pelo qual ele não sentia — apenas ignorava. Marco já pensava seriamente em pedir o divórcio, mas ainda estava receoso sobre se essa era, de fato, a decisão correta depois de tantos anos juntos. Ficava evidente que não existia mais amor entre ele e Caterina. Estavam apenas mantendo as aparências.
Após finalizar seu café, Marco saiu, deixando Caterina sozinha na cozinha.
Giulia chegou à empresa e cumprimentou Dante. Os dois aguardavam Marco na sala. Ambos estavam nervosos — Dante tentando esconder