O Pedido

2166 Words
— Não faço ideia! — Ele olhou espantado. — Tudo bem. Caso dê errado, poderá vir aqui trocar — disse ela com um sorriso sincero. — Tudo bem. Após comprar o anel, Dante foi até a casa do pai de Giulia, Arthuro, onde ela estava passando suas férias. Ao chegar lá, foi atendido por um segurança que o impediu de entrar. Dante avisou que era o namorado de Giulia, porém o segurança não o deixou passar, pois não lhe havia sido informado que Giulia tinha um namorado nem que ele tinha permissão para entrar. O segurança, então, comunicou-se com a central para checar com Arthuro ou Giulia e pedir a permissão. Uma foto de Dante foi enviada e, após aguardar quase dez minutos, ele teve a aprovação para entrar. Ao entrar na casa, foi surpreendido pelo mordomo Donatello, que informou que a senhorita Giulia estava no andar de cima e que ele poderia subir. Contudo, Arthuro apareceu na hora e pediu que o mordomo se retirasse. Ficaram a sós. Dante demonstrava total desconforto. — Então, Dante, me diga quais são as suas intenções com minha filha — disse ele, sério, com um olhar furioso. — Boa tarde, Arthuro, eu... Arthur deu uma grande risada na hora, enquanto pegava seu charuto. — Eu sei, filho, você é jovem... está confuso. Isso acontece. Aconteceu o mesmo com seu pai. A diferença é que ele foi forçado, e você sempre teve a opção de escolher com quem se casar. Por que não fez? Dante permaneceu calado, sem conseguir formular uma palavra sequer. — Não machuque minha filha, Dante. Você ainda não é pai, mas quando for, entenderá que nenhum pai que ama seu filho quer vê-lo sofrer por um merda! — disse Arthuro, com sangue nos olhos, enquanto encarava Dante. — Não irei — disse Dante em um tom seco. — Acho bom... Arthuro saiu logo em seguida, deixando Dante sozinho. Ele subiu até o quarto de Giulia. Chegando lá, bateu na porta e ela gritou, dizendo para entrar. Ela estava em sua escrivaninha, em frente ao computador, com vários papéis ao redor. Com o cabelo bem penteado, sem nenhum frizz, argolas douradas e um colar com uma minipedra de diamante. Ela olhou surpresa ao vê-lo entrando, revirou os olhos e continuou a digitar com força nas teclas do computador. — Como você está? — disse Dante, mostrando preocupação. — Estou bem! O que faz aqui? Eu não te dei permissão. — Seu pai deu. Giulia bufou de raiva e continuou digitando sem parar. Na sua cabeça, passavam-se as cenas da noite anterior. Estava dominada pelo rancor, não queria perdoar Dante por nada nesse mundo, mesmo o amando. — O que aconteceu ontem foi um m*l-entendido. — m*l-entendido? — Ela bateu na mesa com força. — Giulia, veja bem. O nosso relacionamento é de fachada; esses sentimentos necessariamente não precisam existir — disse Dante, tentando fazer Giulia entender a situação. — Entendo. Era esse o objetivo, mas eu te amo, Dante! Eu sempre te amei! Estar com você é um sonho — disse Giulia, indo em sua direção. Dante olhou para Giulia assustado. Nunca imaginou que ela fosse tão apaixonada por ele, mesmo ela dando todos os sinais possíveis. Giulia sempre tinha ciúmes das namoradas de Dante (ele nunca as levava para casa, mas ela as conhecia, pois estudavam juntos). Sempre que estavam a sós, ela se aproximava muito e tentava seduzi-lo. Preocupava-se quando ele se machucava, como quando começou a lutar Muay Thai. Dante nunca percebeu, mas ela sempre esteve ali. — Eu não fazia ideia. Se eu soubesse... — Se você soubesse o quê? Não estaria namorando comigo? — Não é isso, Giulia. Não escolhemos alguém que nos ama para um namoro de fachada. Eu nunca quis te machucar — disse Dante, segurando as mãos dela. — A gente ainda pode fazer isso dar certo, Dante, se você me amar... — Eu não a amo, Giulia. Eu amo a Selena! Ela soltou as mãos de Dante. Seus olhos se encheram de lágrimas. Ela levou a mão ao rosto e virou de costas para ele. Em seguida, mandou-o embora. Ele insistiu em ficar, em consolá-la. Mas ela não parava de chorar, e ele sentia que não podia ir embora e deixá-la ali daquele jeito. Dante não podia sair dali sem pedir a mão de Giulia em casamento; ele precisava estar no controle da situação. O egoísmo de Dante o consumia. Tudo de r**m estava o consumindo desde que decidira brigar pela empresa: já não se reconhecia, a confiança estava indo por água abaixo, tudo! — Giulia, por favor, me escute — tentou se aproximar. — Saia, Dante, vá embora — disse ela, segurando a barriga e enxugando as lágrimas. — Vá embora, e eu não quero te ver nunca mais! — Podemos fazer isso dar certo. — O que poderá dar certo? O nosso relacionamento de fachada? Nunca vai dar certo, Dante, como sua mãe disse... — Como assim? O que minha mãe disse? — Nada! Apenas vá. — Não! Eu sei que isso pode dar certo, podemos fazer isso acontecer. Nos casamos e vamos morar juntos. Teremos tempo para fazer nosso amor florescer — disse Dante, tentando acalmar Giulia e tentando convencê-la. — Como assim? Casar? — Giulia ficou surpresa, enxugou as lágrimas e se voltou para Dante. — Sim — disse, tirando a aliança do bolso. — Meu Deus, Dante! Você está louco? — Não! Eu sei que não amo você, mas você é incrível, é talentosa, uma boa filha para o seu pai, que o ama… e uma boa namorada. Podemos tentar. — E se você nunca me amar? — Disse Giulia, segurando as lágrimas.— Eu sempre irei te respeitar. Isso eu prometo agora mesmo, antes de colocar a aliança no seu dedo. Dante pegou o anel, preparando-se para colocá-lo no dedo de Giulia, enquanto ela esboçava um sorriso misturado com as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. — Você promete me respeitar? — Prometo! Cada dia de nossas vidas, a partir de hoje. — Eu aceito! — disse Giulia, sorrindo abertamente. Dante colocou o anel no dedo dela e, em seguida, os dois se abraçaram. O vento que entrava pela janela sacudiu as cortinas. O sol refletiu no rosto dos dois, e eles se olharam como se estivessem apaixonados. A expressão de Dante era neutra, já a de Giulia era como se estivesse realizando seu sonho de conhecer a Disney. — O que fazemos agora? — Infelizmente, eu preciso passar na empresa. Faltei hoje cedo. Amanhã, anunciamos o noivado e podemos passar a tarde juntos, o que acha? — Perfeito — disse ela, dando um beijo em Dante. — Eu tenho que ir — disse ele, soltando-se de seus braços. — Tudo bem. Dante saiu dali como se estivesse flutuando, incapaz de sentir o próprio corpo. Tudo à sua volta parecia girar… O mordomo tentou falar com ele, mas Dante não conseguiu distinguir uma única palavra. Apenas deixou a casa, caminhando em direção ao carro. O zumbido em sua cabeça ficou ainda mais intenso, deixando-o ainda mais inquieto. Ele tentou respirar fundo várias vezes, afrouxou a gravata, pegou sua garrafinha e tomou um gole de água. Quando finalmente se sentiu minimamente relaxado, seguiu rumo à empresa, preparado para dar a notícia ao pai. Em outro canto da cidade, no fim de tarde, Selena relaxava em casa ao lado de sua amiga Vittoria. As duas já haviam se recuperado da ressaca e estavam confortavelmente no sofá da sala, assistindo TV. Vittoria, curiosa, perguntou o que tinha acontecido na noite anterior entre ela e Dante. Selena, desconfortável, ignorou a pergunta, pegando a pipoca que a amiga havia feito. Vittoria, nada satisfeita, insistiu. — O que aconteceu? Conta, Selena. Eu vi ele te puxando pelo braço — disse Vittoria, aproximando o balde de pipoca. — Ai, Vi… sério isso? Vamos só assistir a série em paz. — Não! Conta! — disse ela, dando um tapinha leve no braço de Selena. — Tá, ele… me deu um beijo, mas… — O quê? Como assim? A namorada dele tava na festa! — interrompeu Vittoria, chocada. — Eu também pensei nisso. Ele disse que o relacionamento deles é só fachada. Disse também que me amava. Eu só respondi que isso não era justo com a Giulia e que não tinha como dar certo entre a gente. — Meu Deus! Esse homem é louco… — Pois é! — Não! Quero dizer… ele é louco por você! Selena, desde aquele lance com o Lorenzo que ele tá na sua. Você que não percebeu, sua tonta! — Não sei… Eu achava que ele só queria me usar pra conseguir a empresa. Fiquei com medo de parecer emocionada e ele jogar isso na minha cara. Sei lá… foi uma confusão total. — E agora? O que vocês vão fazer? — perguntou Vittoria, curiosa. — Nada, Vittoria! Ele tá namorando a Giulia, e ponto. O que eu vou fazer? Atrapalhar o lance deles? Sem contar que a Giulia realmente parece gostar dele. Eu jamais vou me envolver com alguém comprometido. Jamais! — É, amiga… faz sentido — disse Vittoria, mais murcha que a pipoca que levou à boca em seguida. As duas continuaram assistindo à série na sala escura, embora a tensão tivesse tomado o ambiente. Selena pensava no que dissera a Dante; Vittoria, por outro lado, lamentava a possibilidade daquele romance ter dado certo — se não fosse a burrice dos dois. Minutos depois, o telefone de Selena começou a tocar. As duas se olharam, tentando adivinhar de quem era o celular que insistia em tocar e quem teria coragem de se levantar para buscar. Após alguns segundos, Selena suspirou, desistindo da preguiça, e levantou para pegar o aparelho, que carregava na cozinha. Ao ver o nome na tela — Enrico — atendeu imediatamente. Enrico, com sua voz doce e elegante, lhe deu boa tarde. Selena, com um sorriso leve e um toque de ansiedade, retribuiu. Ele pediu desculpas pela festa, dizendo que estava muito bêbado e m*l lembrava o que havia acontecido. Selena, educadamente, pediu que ele não se preocupasse, já que ela também não lembrava de muita coisa. Os dois riram, Enrico então convida Selena para um passeio pela Itália antes de viajar para Londres, onde passará uma semana a trabalho. Selena, sem pensar duas vezes, aceita, e os dois marcam o encontro para aquela noite, às 19h. Eles se despedem e a chamada é finalizada. Vittoria, que estava atrás de Selena como um espírito obsessor, pergunta, dando um susto enorme nela: — Quem é? — AII, Vittoria! Que susto! Tá maluca? — disse Selena, pulando assustada e levando as mãos ao peito. — É o Enrico? — Vittoria perguntou com uma cara maliciosa, piscando o olho. — É ele — riu Selena. — Me convidou pra um passeio hoje. — É ISSO AÍ! Amiga, bola pra frente! — comemorou Vittoria, jogando pipocas em Selena como se estivesse numa festa. As duas riram, e Vittoria segurou o braço de Selena, arrastando-a até o quarto para escolher a roupa perfeita para o encontro. Ao entrarem, Selena soltou o braço da amiga e disse que usaria algo básico, nada extravagante. Vittoria, incrédula, abriu a porta do armário onde ficavam os melhores vestidos dela. Mas Selena logo a interrompeu, recusando todos: iria com uma calça preta de corte reto, uma blusa bege, um sobretudo e uma faixa no cabelo, além da sapatilha icônica que havia comprado. Vittoria ficou boquiaberta, segurando um vestido preto tomara que caia. Sem acreditar, ergueu o vestido e garantiu que aquele era a melhor opção. Selena recusou de novo, dizendo que estava cansada de vestidos. Precisava usar algo diferente ou iria explodir. Saiu do closet e se jogou na cama, enquanto Vittoria a observava de longe. Selena estava cansada de tudo. Cansada de repetir as mesmas escolhas, de vestir sempre as mesmas roupas… cansada de se interessar pelos mesmos tipos de homens. Seu corpo implorava por algo novo — estava no limite, quase surtando. Sair com Enrico era algo que ela queria, sim, mas não queria seguir o mesmo ritmo acelerado que teve com Dante. Aquela ferida ainda estava aberta. Qualquer toque faria arder. Seu objetivo era sair com Enrico apenas como amigos; sua mente não ousava ir além, apesar do receio de que ele talvez estivesse pensando outra coisa. Enfrentar essa dor, para ela, era como atravessar uma ponte pegando fogo: sufocante e doloroso. Porque o que sentia por Dante era algo que nunca havia sentido por homem nenhum. O cheiro dele, o toque dele… era como ser tocada por um anjo, algo de outro mundo, impossível de explicar para alguém. Selena ainda estava lidando com o fim do relacionamento que nem existiu, ou existiu? o que determina que existiu de fato? A noite que passaram juntos, seus corpos quentes, o beijo profundo? o sentimento? Era confuso, talvez por isso precisasse tanto de algo diferente, pois precisava resetar sua mente, expandir os horizontes iria lhe fazer bem.
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