Namoro sério

1734 Words
A tensão anda engolindo todo mundo. Dante tá dividido entre dever e desejo, carregando a culpa de ter deixado Selena ir e o peso de sustentar o papel de namorado perfeito pra Giulia — tudo para salvar o império da família. Selena, por outro lado, tá quebrada e furiosa, mas ainda completamente mexida por Dante, mesmo tentando fingir que superou. Giulia sente o cheiro da rivalidade no ar e começa a se mover como uma predadora silenciosa, desconfiada, elegante e perigosa. E Caterina… essa aí tá jogando o próprio jogo, tentando manter a família sob controle enquanto empurra seus planos sem medir consequências. Marco? Um homem cansado, vendo tudo ruir, mas mantendo a pose. É aquela fase da história onde todo mundo sente, mente e observa — e ninguém tem coragem de admitir o óbvio. O sol ainda tá ali, mas já dá sinais de que vai deixar o turno. A luz quente bate no jardim da casa, aquele jardim enorme que sempre parece calmo demais pra quantidade de drama que rola dentro daquelas paredes. Dante está sentado numa cadeira de madeira ao lado do pai (Marco) veste uma camisa clara, óculos de leitura e parece tranquilo, com as pernas cruzadas enquanto segura um livro grosso. Dante mexe no relógio, inquieto, claramente com a cabeça longe dali — em outra pessoa. Caterina surge como quem não quer nada, com aquele andar decidido e o sorriso treinado. — Meninos… — diz ela, cheia de doçura. — Precisamos falar sobre o jantar com o Salvatore, que pretendo fazer amanhã. Dante não responde. Só passa a mão no rosto e solta um suspiro pesado. Marco continua lendo, nem ergue o olhar. — Ele sente falta da família — insiste Caterina, com aquela voz doce que ela usa quando quer manipular alguém. — E eu acho que todos concordam que jantares em família deveriam ser tradição, não? Marco vira a página do livro devagar, sem pressa, como se a fala dela fosse barulho de vento. Na sua cabeça pensava: ‘’ Como o Salvatore está tão interessado na Família se ele só pensa nele? A bagunça e caos que ele já fez, é um favor para todos ele se manter distante e só cumprir com sua responsabilidade através do seu cargo na empresa, isso já é o suficiente.’’ Dante continua em silêncio, encarando o chão. A falta de resposta deixa Caterina desconfortável. Ela franze a testa, força um sorriso e repete com um toque de irritação escondida: — Então… o jantar está marcado, para amanhã!? Marco finalmente levanta os olhos por cima dos óculos, sem paciência nenhuma. — Tá bom, Caterina. — diz ele, seco. — Agora me deixa ler meu livro. Caterina fecha um sorriso falso, mas animadíssima por dentro. — Ótimo! Vai ser maravilhoso. — diz enquanto se vira e sai praticamente flutuando. Marco volta pro livro. Dante fica ali, quieto, olhando pro nada como se não nada na sua vida fizesse sentido. Marco fecha o livro devagar, coloca o marcador entre as páginas e vira o rosto para Dante daquele jeito direto que sempre deixa o filho meio travado. — E aí… como tá esse namoro com a Giulia? — pergunta, sem rodeios. Dante respira fundo, ajusta a postura na cadeira, mas a voz sai controlada: — Tá… fluindo. A gente ainda tá se conhecendo. Marco solta um riso curto, quase irônico. — “Se conhecendo”? Vocês já se conhecem, Dante. Não precisam enrolar tanto pra oficializar. Dante olha pro pai de lado, desconfortável. — Eu tô tentando, pai. Marco fecha o livro por completo e o coloca na mesa ao lado, encarando o filho com firmeza. — Tentar não adianta nada. Tentar só atrasa o processo. Dante aperta o maxilar. — E onde o senhor quer chegar com isso? Marco cruza os braços. — Você e Giulia precisam oficializar esse relacionamento. O tempo está correndo, Dante. Você já enrolou demais, a anos. Eu preciso ver isso acontecer e logo. Dante engole seco. O peso da obrigação cai igual concreto nas costas. Marco se inclina um pouco pra frente, firme: — Chame a Giulia pro jantar de amanhã. Silêncio. Dante só olha pro chão, sentindo o estômago virar, ouvir o nome de Giulia e casamento era como ouvir ‘’ como terra com vomito’’. Por fora ele banca o filho exemplar, o herdeiro tranquilo… mas por dentro? Um turbilhão. Ele sabe que o pai tá empurrando ele pra esse “caminho certo”, e Giulia é justamente a escolha perfeita: bonita, educada, família alinhada à deles. Tudo certinho, tudo previsível. Só que o problema é: Dante não sente nada profundo por ela. Gosta? Gosta. Mas não aquele fogo, aquele frio na barriga que bagunça o eixo. E desde que Selena apareceu na vida dele — daquele jeitinho que só ela tem, meio ferida, mas forte, seu cheiro e estilo vintage — Dante não conseguiu mais ignorar a comparação. Com Selena os dias parecem mais vivos, reais e humanos. Só que Selena também é caos, é ferida aberta, é tudo que ‘’O Dante o Herdeiro ‘’ deveria evitar. Ele sabe que não pode tê-la… e tenta matar esse sentimento antes que cresça. Mas não consegue por mais que tente, o conflito interno o deixa vulnerável, como um filhote de Girafa abandonado pela mãe rodeado por animais feroz indo em sua direção, prontos para se saborear. Marco dá uma ajeitada nos óculos: — Giulia é uma moça bonita, de família como a nossa. Não tem por que ter medo. Casamento não é o fim do mundo como muitos dizem. Ouvir o pai falar de casamento? É como se empurrasse ele pra dentro de uma caixa fechada, sufocante. Ele sente o peso da tradição batendo no peito e o medo absurdo de ficar preso numa vida que não escolheu. Dante trava. Literalmente. O ar prende no meio do peito. Ele olha pro pai, confuso: — Casar? Pai… a gente acabou de começar a se conhecer direito. Nem oficializamos nada ainda. Para ser oficializado precisamos expor na mídia. Marco franze o cenho como se Dante tivesse dito a coisa mais óbvia do universo: — Você é mais inteligente que isso, filho. Sabe que, pra conseguir a empresa, não basta namorar. Você vai ter que se casar, sabe disso. Por isso precisa ir mais rápido. Já conversamos sobre isso. Dante respira fundo, a voz quase falhando: — E o senhor quer exatamente agora? Marco dá um meio sorriso de quem já decidiu tudo por ele: — Chame-a para o jantar de amanhã. Acabou o tempo de enrolação Paradão no jardim como se o chão tivesse sumido debaixo dele. A conversa acabou, mas ficou ecoando na cabeça dele igual sirene. Aquilo que ele enrolou por anos — decidir quem ele é, o que quer, o que sente — agora estava esmagando o peito dele de um jeito absurdo. A ficha caiu com violência. : “ não tem mais pra onde correr.” Ele sempre achou que namoro de fachada era só isso: fachada. Um acordo silencioso, bom pra imagem, bom pra empresa, bom pra manter a família satisfeita. Nunca passou pela cabeça dele que ia se apaixonar no meio dessa bagunça. E menos ainda que seria por alguém completamente fora daquele mundinho perfeito que o pai quer Só de lembrar dela, Dante sente aquele impacto de novo — o olhar, o toque, o jeito dela existir como se fosse um choque de realidade no peito dele. Ela apareceu como quem não devia nada pra ninguém… e de repente virou tudo que bagunça o senso de direção dele. Agora ele se vê nessa encruzilhada totalmente insana: Um namoro de fachada que virou sentimento. Outro namoro de fachada que não sente absolutamente nada. A responsabilidade de uma empresa. A pressão de uma família inteira. E um coração dividido, confuso, perdido — prestes a arrebentar alguém no processo. Essa história não vai acabar sem dor. Os corações vão quebrar. Lágrimas vão rolar. E talvez a pior parte é que nem ele sabe qual caminho dói menos. Ele só sente que tá prestes a explodir. Num estado mental caótico, decide seguir a “lógica” que o pai dele empurrou goela abaixo. Se já tá tudo bagunçado mesmo, ele tenta se convencer de que o melhor é entrar no personagem e fazer o que “precisa ser feito”. Ele respira fundo, pega o celular com a mão meio trêmula e pensa: “Vai. Só vai. Entra no modo automático.” Ele liga. — Giulia? — A voz dele saiu firme, mas por dentro ele tá um furacão que ninguém vê. Do outro lado, Giulia atende com aquela empolgação quase juvenil que ele até tenta achar bonita, mas só sente como mais peso nas costas. — Dante! O que foi? Aconteceu alguma coisa? Ele engole seco. — Não… nada assim. Eu… queria te convidar pro jantar de amanhã aqui em casa. Silêncio de UM segundo. E aí: — Sério?! Meu Deus, claro! — e ela ri baixinho, encantada — Eu senti que você ainda estava meio distante, por isso não te liguei hoje. Mas isso é muito bom Dante fecha os olhos por um instante, já sentindo a culpa subir como fumaça. — E… se você quiser, hoje à noite a gente pode dar uma volta. Comer alguma coisa. Conversar. Sei lá… colocar tudo em dia. Giulia quase pula do outro lado da linha. — Eu adoraria! Pode vir me buscar às oito? estou na loja do meu pai, próximo da sua casa, você sabe onde fica — Posso — ele responde num tom neutro, quase robótico. — Às oito eu tô aí. — Perfeito! — diz ela, sorridente — Vou me arrumar direitinho. Eles desligam. Dante deixa o celular cair no sofá, apoia o rosto nas mãos e solta um suspiro pesado. No fundo ele se sente um covarde, enrolou a família por anos, queria o cargo mais alto na empresa, mas não queria se casar. Só depois de ter visto Selena pela primeira vez que ele sentiu que ela seria perfeita pra ele, uma pena não ter dado certo. Ele falhou duas vezes, não pode falhar mais, decepcionar o seu pai era o que ele menos queria. Olhar para ele e ver o olhar de desgosto, era seu maior medo. Ele precisa provar que tem valor, que não é só o filho mais novo e covarde.
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