O Toque

1617 Words
Selena piscou, surpresa. — O quê? Não precisa, eu tô bem — disse, recuando um passo. O mordomo — Vicente, como ela ouviria em seguida — voltou-se para ela com um olhar compreensivo, mas firme. — Desculpe, senhorita, intrometer-me na sua situação… mas é necessário averiguar os seus machucados. O seu ombro parece deslocado — disse com calma. — Irei ligar para o doutor Frederico. Ele não vai demorar. Enquanto isso, vamos subir para que a senhorita possa tomar um banho. Antes que ela pudesse protestar, ele estendeu discretamente a mão, num gesto de cortesia. Selena hesitou… mas acabou cedendo. Subiram uma escadaria ampla, coberta por um tapete vinho, ladeada por quadros antigos e lustres que pareciam pertencer a outro século. O corredor do lado direito levava a uma porta imensa — bege, com detalhes ‘vintage’ e puxadores dourados. Ao entrar, Selena ficou sem palavras. O quarto era digno de um museu — cada móvel parecia uma peça de arte, entalhada com precisão e cuidado. As cortinas brancas dançavam com o vento que entrava pela janela aberta. Ela caminhou até a janela e olhou para fora. O jardim lateral se estendia até uma piscina com borda infinita, refletindo as luzes suaves da noite italiana. Por um instante, esqueceu o medo — a beleza do lugar era quase hipnótica. Vicente aproximou-se, segurando um kit de banho nas mãos. — Senhorita, aqui está — disse, colocando-o sobre a cômoda. — Quando estiver pronta, avise para que o médico a examine. Selena apenas assentiu, ainda confusa, tentando entender o que estava a acontecer. — Com licença — completou ele, com um leve aceno de cabeça, antes de sair e fechar a porta com delicadeza. E então, o silêncio. Selena respirou fundo. Estava sozinha — numa casa estranha, com um homem que ela m*l conhecia. Entrou na casa de banho — enorme, do tamanho da sua própria loja. O azulejo claro refletia a luz suave dos lustres, e o cheiro de sabonete e óleos essenciais preenchia o ar. — O que foi que aconteceu hoje? Como cheguei a esse ponto? — murmurou, falando consigo mesma, os olhos fixos no reflexo do espelho. Ela despia-se lentamente, pensando na sua vida. Já tinha saído com vários homens, experimentado a sensação de poder que eles faziam surgir nela. Carros de luxo, vinhos caros, conversas sobre investimentos… tudo isso era um universo fascinante, e por alguns instantes, ela sentia-se parte dele. Mas Selena nunca foi interesseira. Sempre independente, frequentava esses ambientes apenas quando podia pagar algo de próprio bolso — um ingresso para aquele mundo de fantasia. Era como ir a um parque de diversões: sorrisos bobos, uns beijos suaves, conversas leves, drinks sofisticados… nada sério. E ainda assim, alguma coisa daquela noite havia saído do controle. Ou talvez Lorenzo tivesse escondido a sua verdadeira face melhor do que qualquer outro homem antes dele. Ao entrar na banheira e deixou que a água quente cobrisse o seu corpo. Fechou os olhos e, em poucos minutos, acabou a adormecer, exausta, entre os vapores e o silêncio da casa imensa. Um toque suave no ombro a despertou: — Senhora? Senhora? Ela abriu os olhos, ainda sonolenta, e murmurou: — Oi… ah, desculpe-me. Acabei cochilando. A governanta sorriu de leve, sem perder a compostura: — Tudo bem. O doutor chegou. Por favor, vista-se para que ele possa atendê-la. Selena balançou a cabeça em confirmação, suspirou fundo e saiu da banheira, sentindo a água escorrer pelos ombros e um frio suave da noite que entrava pelas janelas da casa de banho. Vestiu o pijama que o mordomo lhe entregara e foi para o quarto. O tecido leve cobria o seu corpo, mas não escondia completamente os contornos que Dante havia observado antes. Ela ainda sentia a adrenalina pulsando, misturada ao cansaço e à confusão da noite. Pouco depois, a governanta entrou para verificar se ela estava pronta. — Senhora, o doutor chegou. O Doutor Frederico entrou com calma, avaliando-a com profissionalismo. Primeiro, examinou o seu ombro, perguntando se sentia dor. Selena fez caretas discretas e confirmou que doía, mas nada insuportável. Em seguida, o médico olhou o corte na perna. Não era profundo, mas exigia curativo. A enfermeira entrou e cuidou do ferimento com delicadeza. — Costelas? — perguntou o doutor, firme. — Não, não dói — respondeu ela. Então ele pediu que levantasse a blusa. Ao ver os hematomas espalhados, o médico franziu levemente a testa. — Muito roxo… tocando dói? — Só ao tocar — Selena respondeu, tentando não demonstrar dor. O doutor respirou fundo, prescreveu antibióticos e anti-inflamatórios, e finalmente se dirigiu ao homem misterioso, Dante. — Está tudo bem — disse, firme —, mas ela precisa ficar em observação para garantir que não haja complicações nas costelas. Ele saiu, acompanhado pelo mordomo, deixando Selena sozinha no quarto. Ela olhou para seus machucados refletidos no espelho da cômoda, sentindo o peso da dor e do medo misturados. — Você está bem? — a voz de Dante quebrou o silêncio. — Sim — respondeu, mas o coração ainda batendo acelerado. Ele soltou um suspiro de alívio, um leve sorriso surgindo nos lábios. — Que bom… Selena começou a se afastar, respirando fundo. — Bom, agora que você viu que estou bem… já posso ir pra casa. Dante franziu a sobrancelha, mas o sorriso persistiu. — Você não acha que eu mereço uma explicação? — Explicação? De quê, exatamente? — Selena recostou-se, cruzando os braços, tentando manter distância. Ele aproximou-se, sentando-se na poltrona ao lado da cama, olhando-a com intensidade. — Você estava numa rua deserta num bairro de elite, machucada, cercada por seguranças. Um homem estranho pediu carona, e você entrou no carro sem nem me conhecer. Isso significa… que estava em apuros. Eu acho que mereço uma explicação. Selena respirou fundo, tentando controlar o nervosismo e a raiva contida. — Olha… eu entendo que você esteja confuso, mas isso é um assunto meu. Não acho que precise explicar. Foi só um m*l-entendido. Dante inclinou-se levemente, os olhos fixos nos dela, e falou com firmeza: — m*l-entendido? Qual m*l-entendido é esse que deixa o seu braço roxo, sua perna cortada, e alguém segurando você com tanta força? Selena engoliu seco, sentindo o peso da verdade e do medo ao mesmo tempo. Não podia simplesmente fingir que nada tinha acontecido. Mas também não queria ceder totalmente àquele homem misterioso, tão envolvente quanto perigoso. — Foi só um m*l-entendido — Selena afirmou, tentando manter a voz firme. Dante a encarou em silêncio por alguns segundos, olhos fixos, avaliando cada expressão, cada hesitação. Então, finalmente, falou, direto: — Você é uma acompanhante? Selena surpresa, o coração disparando. Sem pensar, respondeu rapidamente: — Não! Claro que não! Ele arqueou uma sobrancelha, o olhar fixo nela, como se tentasse ler a alma dela. — Então você estava na casa de um homem rico… levou uma surra… e não é uma acompanhante. Hum… difícil de acreditar. Selena sentiu o frio da situação, mas respirou fundo, tentando não demonstrar pânico. — Não levei uma surra! Eu conheci ele na minha loja — disse, acelerando a fala — ele me convidou para sair, parecia ser um homem bacana, como outros que já conheci. Mas… infelizmente não era. Só isso! Foi isso que aconteceu! Dante permaneceu em silêncio por um instante, olhos semicerrados, observando-a com atenção. Então soltou um leve suspiro, um sorriso sensual surgindo nos lábios. — Agora chegamos a algum lugar — disse, a voz baixa, carregada de charme e autoridade —. Selena permaneceu imóvel, ainda apreensiva, mas sentindo algo estranho no peito: um frio misturado à curiosidade. Ele não era apenas perigoso; havia algo nele que despertava interesse, mesmo em meio ao medo. Olhou para os lábios dele, sentindo uma sensação estranha… mas boa. Não sabia se cedia ao desejo ou se se protegia. Era mais forte que ela: aquela energia intensa, tão próxima, fazia a suas pernas tremerem, o coração disparar. O seu vício por homens poderosos sempre a fazia sentir-se dominante e viva. Aquela sensação a transformava. Olhando nos olhos do homem misterioso, Selena disse, tentando manter a compostura: — Você não me disse o seu nome. Ele estudou-a, como se escaneasse cada centímetro do seu corpo, com um sorriso de leve provocação. — Está interessada em mim? — Não — respondeu Selena, suspirando, cada vez mais próxima da sua boca. Ele sorriu, inclinando-se um pouco. — Deixe-me apresentar. Prazer… Dante. Segurou a mão dela e deu-lhe um beijo leve. Um choque percorreu todo o corpo de Selena, como se tivesse colocado o dedo numa tomada. — Dante… é um nome forte e bonito — disse ela, a voz quase falhando. A energia do momento a tomou, transformando-a na sua versão mais sensual e audaciosa. Ela deslizou a mão pelo ombro dele, provocante. — O que posso fazer para lhe agradecer por hoje? Dante a encarou, analisando cada gesto, cada reação. — Pensei que não fosse perguntar — disse, segurando-a pela cintura, a outra mão acariciando suavemente o seu cabelo. — Seja minha namorada. Selena arregalou os olhos, afastando-se ligeiramente, surpresa. — Ser sua namorada? Eu nem te conheço! Que tipo de forma de agradecimento é essa? Dante sorriu maliciosamente, o olhar brilhando com diversão. — Não é uma namorada de verdade. Preciso fingir que tenho uma namorada para os meus pais. Eles precisam acreditar que sou sério e quero construir uma família. Só assim conseguirei assumir a empresa. Caso contrário… passarão tudo para o meu irmão mais velho, que é ambicioso e só pensa em si próprio. Selena sentiu o impacto da revelação, mas também uma estranha sensação de poder. Ele precisava dela — ainda que fosse por conveniência — e aquilo… mexia com algo dentro dela.
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