Permaneceu em silêncio por alguns segundos. A proposta soava absurda, mas o gesto dele — e o risco que correu por ela — ecoava na sua mente. Fingir ser sua namorada não parecia um preço tão alto a pagar.
Virou-se devagar, observando o reflexo da cidade na janela antes de encarar Dante.
— Aceito a proposta — disse. — Não quero ficar em dívida com você. Mas quero deixar algo claro: eu imponho os meus limites, e não vou aceitar ser colocada numa posição desfavorável.
Dante arqueou um leve sorriso, tocando o queixo com a ponta dos dedos.
— Tudo bem — respondeu num tom baixo, provocante. — Prometo não fazer nada que te deixe desconfortável.
O silêncio seguinte foi carregado de algo impossível de definir. Os olhares se encontraram e se prenderam, como se o tempo tivesse parado ali. A tensão entre eles pulsava no ar — quente, viva, perigosa.
Era irracional, mas real. Um vínculo inexplicável os prendia, e ambos sabiam que seria apenas questão de tempo até que essa proximidade explodisse em algo que nenhum dos dois conseguiria controlar.
Dante se aproximou
— Acho que esse será o acordo mais interessante da sua vida, Selena.
Ela sentiu o coração disparar, o corpo responder antes mesmo da mente decidir.
E naquele instante, entre o medo e o desejo, teve certeza de uma coisa — brincar com Dante seria tudo, menos seguro.
Ele então tirou o celular do bolso, quebrando o feitiço no ar.
— Ricardo, traga o carro — ordenou, sem desviar o olhar dela.
Então desceram para a frente da casa e em poucos minutos depois, o motorista estacionou diante da entrada. Dante abriu a porta, mantendo o olhar firme e insinuante.
— Vou levar-te para casa
Selena respirou fundo, tentando recuperar o controle. Entrou no carro com o coração acelerado, sabendo que aquele acordo estava prestes a mudar tudo — inclusive ela mesma.
Os dois seguiram a estrada rumo à casa de Selena em silêncio. Cada quilômetro parecia pesar, como se a energia entre eles estivesse a interferir no raciocínio.
Quase uma hora depois, chegaram ao destino.
— Obrigada pela carona, eu não queria incomodar — disse Selena, tentando soar casual.
— Imagina, não foi incômodo algum. Durma bem esta noite — respondeu Dante, a voz carregada de uma sedução velada, como se algo estivesse passando pela mente dele.
— Com certeza irei, até demais — retrucou Selena, estendendo a mão para abrir a porta do carro.
Num segundo, Dante a surpreendeu, puxando-a para perto e colando os seus lábios aos dela num beijo profundo, cheio de desejo. Selena retribuiu sem hesitar, envolvida pela intensidade do momento.
Ele segurou o seu rosto com firmeza, como se não quisesse deixá-la ir, os olhos cravados nos dela.
— Por que você retribuiu? — perguntou, a respiração pesada.
— Porque eu quis! — respondeu Selena, confiante. — Não é só você que sente desejo.
— Então você me deseja? — ele provocou, um meio sorriso surgindo nos lábios.
— Sim. Isso é estranho pra você? Uma mulher não pode assumir que se sente atraída? — respondeu ela, desafiadora.
Dante afastou levemente a testa da dela, estudando-a.
— Não foi isso que quis dizer… mas raramente as mulheres demonstram com facilidade. Geralmente querem provar que são difíceis.
— Difícil não me define— Selena replicou, o olhar intenso. — E eu não brinco com jogos.
Selena respirou fundo, tentando controlar a mistura de desejo e excitação que Dante despertava nela.
— Obrigada por me trazer até aqui, Dante — disse, forçando um sorriso contido.
— Não precisa agradecer — respondeu ele, com aquele olhar intenso que parecia atravessar a alma dela. — Boa noite, Selena.
Ela retribuiu o olhar por um instante, sentindo o coração disparar, e então abriu a porta do carro. Antes de sair, ele segurou levemente a sua mão, passando calor e intenção com um toque sutil.
— Até amanhã — disse ele, quase num sussurro, deixando a promessa flutuar no ar.
Selena sorriu, soltou a mão e entrou em casa. Fechou a porta atrás de si e encostou-se por um instante, o corpo ainda formigando com a proximidade que acabara de ter.
Após uma noite longa e cheia de conflitos, Selena finalmente descansará em seu pequeno refúgio. O quarto cheirava a velas aromáticas com notas vintage — baunilha, âmbar e rosas secas.
Usava uma camisola de seda bege com rendas delicadas, deitada em sua cama enquanto olhava para o teto, o pensamento girando sem freio.
O acordo com um homem desconhecido parecia um delírio. Era como se tivesse perdido o controle da própria vida — e, de um jeito estranho, isso a excitava.
A adrenalina, o perigo, o amor pelo desconhecido... tudo isso a fazia sentir viva.
Quando a lembrança do toque de Dante surgiu em sua mente, o olhar intenso, o hálito próximo à sua boca… Selena mordeu os lábios e deslizou a mão sobre a própria coxa, sentindo o tecido frio da seda subir.
Mas logo sua mente gritou:
“Não posso me apegar a esse sentimento. Homens são descartáveis. No máximo… se apaixonam.’’
Na manhã seguinte, revigorada — como se a noite anterior não tivesse sido aterrorizante.
Em sua casa, enquanto o sol entrava pela janela do quarto, ela espreguiçou-se e foi direto para o banho quente.
sua casa de banho é enorme, mas não se compara ao do seu amigo/namorado de mentirinha desconhecido. Selena despiu-se e ligou o chuveiro, em seguida pegou o seu shampoo caro da Itallian. Massageava seus cabelos com cuidado como se fizesse carinho num gato de rua.
Após terminar o seu banho, caminhou até o closet, procurando um vestido leve, porém não tão básico. Acabou a escolher um modelo cor de pêssego com um decote lindo. Enquanto o vestia, não conseguia parar de pensar em Dante. Sua mente se recusava a focar em outra coisa — parecia que a noite passada ainda a deixava em transe.
Respirou fundo e foi até a cozinha preparar o seu café o mais rápido possível. Após o café da manhã saudável, pegou a bolsa e se preparou para ir trabalhar.
Ao abrir a porta, levou um susto: havia uma pequena caixa no chão. Curiosa, abaixou-se e a abriu.
O choque foi instantâneo. Dentro da caixa, havia um pássaro morto — e um bilhete.
“Nosso assunto ainda não acabou.”
O corpo de Selena gelou. Ela desceu as escadas às pressas, sentindo náusea, e jogou a caixa no lixo em frente ao prédio.
Em sua cabeça, só um nome fazia sentido: Lorenzo.
Tomado pela raiva e pela obsessão, ele agora era um problema real — ferido no ego, disposto a qualquer coisa para ter Selena de volta em seus braços.
Selena, com o coração acelerado e o medo crescendo, chamou um táxi e foi direto para sua loja. Precisava trabalhar, mas, no fundo sabia: teria que fazer o possível para se manter longe de Lorenzo.
Ao chegar em sua Loja passa um café rápido ansiosa, pensando nos últimos acontecimentos, ao mesmo tempo, tentando compreender o que se passa na cabeça de Lorenzo, como um encontro pode levar a esse caos? Na Mesa o bilhete amarrotado que ela relê pela terceira vez, como se pudesse extrair algum sentido daquilo. A lembrança da caixa deixada em sua porta ainda a persegue
Lorenzo havia cruzado a linha. E ela sabia que ignorar seria o mesmo que provocar.
Toca o colar no pescoço, nervosa. A loja, antes seu refúgio, agora parece um palco iluminado demais. Qualquer sombra a faz estremecer. Ainda assim, mantém o rosto erguido — como se o medo não tivesse espaço ali.
Tenta distrair a mente observando um manequim com um vestido de seda azul-marinho. É um dos seus preferidos, inspirado nas noites frias da Toscana. Lembra de Dante quando o criou.
O nome dele vem como um sussurro que ela tenta abafar.
Desde aquele encontro, nada parece ter voltado ao normal. Ele desestabilizou-a de um jeito que Lorenzo jamais conseguiria — e isso a irrita.
“Não posso me envolver”, pensa, apertando a xícara com força.
Mas é impossível negar o quanto ele a intriga. Há algo em Dante que mistura perigo e ternura, como se ele carregasse segredos que poderiam tanto salvá-la quanto destruí-la.
Do lado de fora, a rua se move, indiferente. Dentro da loja, Selena sente que o tempo parou — entre o medo do passado e o fascínio do que ainda pode acontecer.
O celular vibra sobre o balcão, interrompendo o fluxo dos pensamentos.
Selena encara o nome na tela e respira fundo antes de atender.
— Dante?
A voz dele chega calma e grave
— Espero não estar ligando em um péssimo momento.
— Depende do motivo — responde, girando a caneta entre os dedos.
— Quero te ver. Precisamos nos conhecer melhor... agora que o nosso acordo é oficial.
Ela se inclinou na cadeira, desconfiada.
— Conhecer melhor? Não acha que está tudo acontecendo rápido demais?
Do outro lado, uma risada baixa.
— Rápido? Selena, já faz um ano que meus pais acreditam que tenho uma namorada. E adivinha? Eles querem conhecê-la neste fim de semana.
Selena quase derruba a caneta.
— Um ano?! — repete, incrédula. — Você mentiu por tanto tempo assim?
— “Adiei a verdade”, soa melhor — ele rebate, com aquela confiança irritante. — E agora, ou a gente convence eles de que somos um casal, ou eu estou oficialmente morto na próxima ceia de família.
Ela fecha os olhos por um instante, tentando processar. Tudo o que queria era um dia tranquilo, longe de bilhetes e pássaros mortos. E agora, um jantar com os pais de um homem que m*l conhece.
— Certo, senhor drama — suspira. — Onde e quando?
— Hoje às quatro, na Caffè Fiorenza. Peça um cappuccino assim que chegar, é uma delícia
— E se eu não for?
— Bom, você que sabe, como eu disse, não vou te forçar a nada
Antes que ela responda, ele desliga.
Selena encara a tela apagada, sem saber se ri ou se grita.
No fundo, algo nela — contra toda lógica — quer ir.