Doce e Amargo

1972 Words
Após um dia longo, Selena se preparava para fechar sua loja — mais cedo que o habitual, às duas horas — para se arrumar para o encontro. Sua amiga e funcionária Vittoria não pôde ir trabalhar naquele dia, pois havia adoecido. Enquanto organizava algumas coisas atrás do balcão, Selena ouviu a porta abrir e respondeu: — Só um momento, já vou atender! Ao se levantar, deu de cara com dois homens engravatados a encarando. Um deles permanecia na porta, impedindo qualquer pessoa de entrar. Assustada, segurando um vestido cor de vinho nas mãos, ela perguntou: — Quem são vocês? Os homens, com expressão séria e fria, responderam sem mover um músculo do rosto: — Um recado pra você. O Pássaro marcou uma reunião hoje. Você vem com a gente. Selena ergueu o rosto, tentando não demonstrar insegurança, embora sua mão tremesse. Engoliu seco e respondeu: — Não poderei comparecer a essa reunião. Já tenho compromisso. — Não é um pedido — disse o homem, incisivo. — A reunião já está marcada. — Pois avise ao Pássaro faminto e deselegante que eu não irei. Já tenho um compromisso — respondeu Selena firme, irritada, jogando o vestido sobre o balcão e encarando o homem nos olhos. Nesse momento, o sujeito que estava na porta avisou: — Temos visita. O capanga ajustou o terno, virou-se e saiu discretamente. Selena, ainda ofegante, viu sua amiga Vittoria entrar na loja. — Quem eram aqueles homens? — perguntou ela com um sorriso. — Selena, você é uma conquistadora, hein? Mas logo percebeu que a amiga estava nervosa. — O que foi, amiga? Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? Selena respondeu: — Você não me mandou mensagem dizendo que estava doente? — Ai, amiga… ainda não tá vendo minha voz? — respondeu Vittoria— Mesmo doente não consigo ficar parada, só me sinto bem aqui na loja. É só uma gripezinha, nada demais. — Tá bom. Olha, eu vou ter que ir. Fecha pra mim? Quando eu estiver livre, te conto tudo! — disse Selena, apressada, pegando o vestido vinho na mão. Naquele momento, Selena enfrentava algo que nunca tinha vivido: um homem obcecado por ela, disposto a tudo para possui-la. Uma simples decisão — aceitar um convite para jantar — havia transformado sua vida num verdadeiro filme de ação. Ela ainda não sabia, mas essa história com Lorenzo estava longe de acabar… e muito mais profunda do que poderia imaginar. De volta em casa, Selena começou a se arrumar. Já eram 15h, e ela odiava chegar atrasada em encontros. Afinal, uma mulher elegante e refinada como ela jamais poderia cometer tal “feiura”. De acordo com o Manual da Elegância dos anos 60, uma mulher que se atrasa não é digna de viver no luxo — afinal, homens ricos precisam de pontualidade em tudo, devido à rotina agitada. Selena não concordava com tudo no manual, mas acatava esse mandamento como um fato, pois odiava atrasos. Era aquela velha frase: “Não faça com os outros o que não quer que façam com você.” Após um banho relaxante, ela vestiu o lindo vestido cor de vinho e iniciou seu ritual de cuidados com a pele, seguindo cada etapa com calma, deixando-a macia e luminosa. Em seguida, fez uma maquiagem leve: uma camada fina de base, blush suave, cílios naturalmente longos e um gloss que realçava seus lábios, mantendo um ar natural e sofisticado. Chegou a hora do sapato. Dentro do closet, Selena analisou cada par: mais baixo? mais alto? salto fino? mais grosso? Seus olhos pararam no Alexandre Birman Gia 100 Black, que havia comprado recentemente por impulso. — É esse — murmurou. Calçou, virou-se para o espelho e se admirou com um leve sorriso. Respirou fundo e, já pronta, pegou o celular para chamar o táxi. Mas, antes que pudesse tocar na tela, o aparelho vibrou. Uma ligação. Ela atendeu no impulso. — Oi. Do outro lado, uma voz carregada de ironia: — Oi, princesa. Não veio à nossa reunião… Fiquei preocupado. Aconteceu alguma coisa? — disse Lorenzo. Selena respirou fundo e respondeu, firme: — O que você quer, Lorenzo? Não acha que essa sua obsessão já passou dos limites? — Obsessão? — ele riu. — Jamais. Sou um homem sério, cumpro meus deveres. Ao contrário de algumas pessoas... — Eu não te devo nada, Lorenzo! — retrucou, com raiva. — E vou avisar pela última vez: ou você me deixa em paz, ou eu vou à polícia! desligou o telefone furiosa — e saiu decidida para o encontro com Dante. Chegando no Caffè Fiorenza, elegante e confiante. Do outro lado do salão, Dante já a esperava. Sentado à mesa, ele a observa em silêncio, analisando cada detalhe como se o tempo tivesse desacelerado. Primeiro, seus cabelos castanhos ondulados, que dançam com o vento. Depois, o rosto angelical, sereno e encantador. Em seguida, o pescoço delicado, com uma pequena pinta no lado esquerdo — a mesma que ele lembrava de ter visto antes. Seu olhar desce até o decote sutil, depois para a cintura curvilínea, marcada por uma confiança natural capaz de deixar qualquer homem sem ar. Por fim, observa suas pernas, que se movem com a graça de uma modelo da Victoria’s Secret, sustentadas por um salto impecável que completava o look com perfeição. Selena se aproxima da mesa com um sorriso delicado, irradiando charme sem esforço. Dante, com a postura segura e olhar de sedutor experiente, levanta-se para cumprimentá-la. — Me desculpe pelo atraso — diz ela, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha. Ele sorri, mantendo o olhar firme nos olhos dela. — Que atraso? — responde com calma. — Acabei de chegar. Confortavelmente instalados na cafeteria, Dante pediu dois cafés e duas tortas de limão — queria que Selena experimentasse a especialidade da casa. Ele frequentava aquele lugar desde sempre; sua mãe costumava levá-lo ali nas folgas de domingo. O Caffè Fiorenza era um ambiente acolhedor e cheio de charme: espaço aberto, com um jardim amplo cercado por pés de limão-siciliano. As portas verde-escuras contrastavam com as paredes brancas, e as mesas redondas, em estilo retrô, ficavam dispostas sobre um gramado impecavelmente cuidado. O céu, azul e iluminado, completava a cena perfeita. Enquanto esperavam o pedido, Selena decidiu puxar assunto: — Fala um pouco sobre você. Como você é? Dante sorriu de leve, pensativo. — Bom... sou reservado. Trabalho na empresa dos meus pais, quase não tenho tempo livre. E quando tenho, faço isso — venho à cafeteria, vou ao cinema, fico em casa. Nada muito interessante acontece. Selena arqueou as sobrancelhas. — Nossa, imaginei que você tivesse uma vida bem mais agitada. — Entrei na empresa aos dezenove. Tive pouco tempo pra curtir — respondeu, com um leve toque de melancolia. — Nunca namorou? — perguntou ela, curiosa. Dante riu de canto. — Já. Tive uma namorada aos quatorze anos. Achei que fosse o amor da minha vida, mas não era. Terminamos, e nunca mais a vi. Depois namorei outra garota, uma brasileira — Bárbara. Durou três meses. Aí teve a Angelina, americana, cinco meses… e a Giulia, um mês. Depois disso, mais ninguém. Selena o lho fixo e soltou, com sarcasmo: — Você tentou, tentou… e desistiu? — É. Namorar não é pra mim. Ninguém me leva a sério — Percebi — respondeu ela, com ironia disfarçada num meio sorriso. Dante retribuiu o olhar provocante. — Agora é sua vez. Me conta sobre você. — Sou estilista, formada. Meus pais moram na Irlanda. Tenho três irmãos — uma irmã e dois irmãos. Não somos muito próximos. Tive dois namorados na adolescência e… é isso. Minha vida também não é lá tão interessante. — Duvido — provocou Dante, sorrindo. — Eu te conheci na casa de um estranho toda bagunçada. Vai me dizer que sua vida é só isso? Conta outra. Selena riu. — Saio com homens pra me divertir. Gosto de sentir que tenho controle sobre a minha vida. Gosto de vinhos caros, de conhecer lugares novos acompanhada… só isso. Mas, sinceramente, ultimamente tenho sentido uma vontade imensa de mudar esse repertório. Dante a observou com atenção. — Então você é tipo uma acompanhante de luxo? Sai com homens pra beber vinho caro? - Dante falou provocando selena — Não é bem assim. É mais como… amizades. A gente conversa, bebe, e depois vai pra casa. — Resumindo: acompanhante — disse ele, em tom provocante. — Não sou acompanhante — rebateu Selena, firme. — Eu pago o que consumo. São apenas encontros com desconhecidos. Nada demais. Você tá exagerando. — Tá bom. Se você vê assim… — respondeu ele, tranquilo. — O que quer dizer com isso? — perguntou ela, visivelmente incomodada. — Só acho que esses homens não veem a situação da mesma forma que você. A maioria já tem algo em mente quando te chama pra sair. Mesmo que pague sua conta, eles esperam alguma coisa. Só por você aceitar, já acham que têm chance. Selena respirou fundo. — Entendo seu ponto. Mas eu sou uma mulher livre. Tenho o direito de sair pra jantar com quem quiser — e ninguém tem o direito de me forçar a nada. Então não vejo da mesma forma que você… nem como “os outros homens”. Dante a olhou com seriedade. — Tudo bem. Mas depois do último encontro… é bom ficar de olho. — disse ele, em tom preocupado. O garçom chegou com o pedido. O aroma da torta de limão tomou o ar, e Selena sorriu ao provar um pedaço generoso. O café, quente e encorpado, soltava uma fumaça suave que subia lentamente. Dante a observava, hipnotizado. Havia algo naquele momento que parecia familiar, quase nostálgico. Como ela pode ser tão linda? — pensou. E por que sinto que já a conheço há anos, se só a vi uma vez? — Você não vai comer? — perguntou Selena, entre uma mordida e outra. — Claro que vou — respondeu ele, sorrindo. — Eu amo esse bolo. Os dois terminam de comer enquanto o céu começa a escurecer. O ambiente está tranquilo, com uma música suave tocando ao fundo. Outras pessoas conversam, riem, aproveitam o momento — um dia calmo e perfeito. De repente, o celular de Dante vibra. É uma ligação inesperada: sua mãe. Ao ver o nome na tela, ele trava por um instante, mas precisa atender. — Só um momento... é a minha mãe — diz, respirando fundo. — Ciao, mamma. — Dante? Onde você está? Cheguei na sua casa com seu pai, e o mordomo disse que você saiu. — Não lembro de ter me avisado que viriam hoje... — Meu filho, te avisei semana passada que viria esta semana. Iríamos chegar na sexta, mas como seu pai é ansioso, quisemos vir hoje. Está tudo bem? — Sim, mamma, quero dizer... não tem problema. Eu já estou indo. — Ótimo. E avise a sua namorada. Eu e seu pai estamos ansiosos para conhecê-la. Já pedi ao Camillo que prepare um jantar maravilhoso. — Mamma, eu não sei se ela estará disponível hoje... — Sem essa, Dante! Já esperamos demais. Chame-a para vir jantar — disse a mãe, incisiva, porém com carinho. — Certo, mamma. Até mais. — Dante desliga. Selena, com os olhos arregalados, pergunta: — O que houve? — Minha mãe está na minha casa com meu pai... e quer te conhecer. Hoje! — O quê?! — diz Selena, surpresa. Mas logo se recompõe e fala, serena: — Tudo bem. Então vamos logo. — Você vai mesmo? — Claro! Não foi esse o nosso acordo? Uma hora isso teria que acontecer — e, no seu caso, parece que essa hora é agora. Vamos! Dante respira fundo, ainda atordoado, e pede a conta ao garçom.
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