La Mamma

2034 Words
A caminho da casa de Dante, o silêncio tomava conta do carro. A estrada era perfeita, e o vento entrava pela janela, levantando os cabelos de Selena. — Você está bem? — perguntou Dante, nervoso. — Sim, estou bem. Já você... não parece nada bem. — Estou ansioso e com receio de que tudo dê errado. Meus pais são espertos, e minha mãe... ela percebe tudo. — Fique tranquilo, vai dar certo. — Como está tão segura disso? — Porque confio no meu taco. Sua mãe é uma mulher difícil? — Não diria difícil... acho que ela é mais... espirituosa? — Espirituosa? Foi essa a palavra que você achou que se encaixaria? — disse Selena, rindo. — Se sua mãe é difícil, eu sei lidar com pessoas difíceis. Meus pais são difíceis. — Os dois? — Sim! São controladores e conservadores. Não sabem lidar com uma filha que é bem resolvida, ativa sexualmente e solteira! Acham que, com 22, eu já deveria estar casada e com filhos. — Uau! Eu não esperava por isso. Após essa conversa estranha, os dois chegam à mansão. O carro se aproxima; os seguranças estão de prontidão na frente, e logo o mordomo aparece na porta gigante. Dante desce do carro, seguido por Selena. O mordomo, Vicente, se aproxima e avisa: — Senhor, sua mãe está aqui com seu pai. — Estou sabendo, Vicente. — Ela me pediu para falar com o Camillo para preparar um jantar especial. — Estou sabendo, Vicente — repetiu Dante, demonstrando incômodo com a presença repentina da mãe. — Vicente, presta atenção. Você precisa ficar atento. Minha mãe não pode saber que esse relacionamento é falso. Precisamos estar em sintonia, entendeu? — Naturalmente, signore — disse Vicente em italiano. Dante se vira para Selena e pergunta se ela está pronta. Selena balança a cabeça, ergue os ombros e assume o papel da dama da sedução. Os dois dão as mãos e entram. Ao abrir a porta, Dante se depara com a mãe vindo em sua direção, alegre, segurando uma tigela de legumes. — Filhinho! Dá um abraço na mamma! Ai, que saudade, meu amor! — disse ela, abraçando-o forte. Em seguida, olha para Selena dos pés à cabeça, surpresa com a beleza dela e desacreditada que aquela fosse mesmo a namorada de Dante. Vai em sua direção para se apresentar: — Olá, querida! Prazer, Caterina, mãe do Dante — disse, estendendo a mão. — Prazer, Caterina. Selena! — Selena? Que nome bonito! Não tem uma cantora com esse nome? Ela faleceu há muitos anos... era maravilhosa! Tinha um remelexo incrível! Queria muito ir a um show dela, mas, infelizmente, ela morreu... Dante, pálido com a situação, a interrompeu, puxando-a para o lado: — Mamma, isso faz muito tempo... deixa isso pra lá. Vamos pra mesa. — Meu filho, seu pai está na cozinha com o Camillo! Vamos lá conhecer seu sogro, ele tá doido pra te conhecer! — disse Caterina com um sorriso falso e forçado. — Marco!!! O Dante chegou! — gritou alto pela casa, como uma verdadeira mãe italiana raiz. Marco aparece com um sorriso de orelha a orelha. Ele tem um amor imenso por Dante. Dizem que os pais não têm filhos preferidos, mas Marco certamente tem um carinho especial por ele. Vê em Dante o reflexo de si mesmo quando jovem — na aparência e na persistência. É um homem focado e determinado. Não é à toa que deu a Dante uma segunda chance na empresa da família. Os pais de Dante nunca tiveram tempo suficiente para os filhos — viviam trabalhando —, mas sempre os amaram muito. A vida de CEO não é nada fácil. Desde que assumiu a empresa, a rotina virou um caos: reuniões, papeladas, contratos... Agora, Marco quer encontrar um sucessor para poder descansar. — Meu filho, quanto tempo! Estava morrendo de saudade! — disse Marco, abraçando-o forte. Dante retribuiu o abraço com emoção, como se fizesse décadas que não se viam. Na verdade, fazia um ano, mas ele já tinha se acostumado. Depois do longo abraço, Dante se vira para Selena e a apresenta: — Pai, essa é a Selena. A minha namorada. — Uau! Selena, você é incrivelmente linda — disse Marco, brincando —, com todo respeito, claro. Imagina como serão os filhos de vocês... vão ser lindos! Inclusive, já faz dois anos que vocês estão namorando? — Um ano e seis meses, eu acho — respondeu Dante, nervoso. — É... já tá na hora de casar, não acham? — Não, pai. Estamos indo com calma. — Calma? Um ano e seis meses? Eu e sua mãe nos casamos com oito meses de namoro! Tá na hora de oficializar! Selena ficou branca, e Dante, mais ainda, sem saber o que dizer. — Estamos vendo a possibilidade. Queremos que seja um casamento lindo. É o meu sonho — e acredito que o do Dante também. Não queremos fazer de qualquer jeito. — Aaaah, aí sim! Então já conversaram sobre isso? — Claro que já, pai — respondeu Dante, quase engasgando. — Então tá ótimo! Está sério mesmo, caramba, meu filho, você me surpreendeu. Bora pra mesa! Enquanto o pai de Dante ia para a mesa, Caterina, que observava tudo da porta, olhava para Selena com desconfiança — como se soubesse de algo, mas não pudesse provar. Dante pega alguns pratos no balcão e vai ajudar o pai, enquanto Selena fica na cozinha para levar o restante. Nesse instante, Caterina se aproxima e começa a fazer perguntas: — Então, como vocês se conheceram? — Ah, nos conhecemos em uma cafeteria — disse Selena, pensando rápido, mas mantendo a calma. — Qual cafeteria? — Caffè Fiorenza. O Dante sempre frequentava. Uma amiga me levou pra conhecer. Chegando lá, ele me viu e puxou conversa. Foi assim que nos conhecemos. — Hum... interessante — respondeu Caterina, analisando. — Então, Selena, você parece ser uma jovem legal, mas não sei se está no padrão do Dante. Ele sempre namorou meninas de um nível muito elevado. — Acredito que o Dante não procura uma mulher rica. Ele procura uma esposa que o ame e seja sua melhor amiga. Caterina deu uma gargalhada irônica: — Vamos ver se está mesmo no padrão do Dante. Pelo que vi, você não o conhece tão bem assim. Boa sorte! Selena ficou com a pulga atrás da orelha, tentando entender o que ela quis dizer com aquilo. Respirou fundo e levou a bandeja até a mesa. Todos se sentaram, quando Caterina interrompeu: — Ah, o Sal ainda não chegou. Deve estar no trânsito. Vamos aguardar mais um pouco. Dante olhou surpreso para o pai, que também pareceu confuso. — Como assim? O Salvatore vem jantar? — Sim, meu bem. Eu não avisei? — Não, não avisou — disse Dante, indignado. — É, não avisou mesmo, Caterina! E como assim você deixa pra avisar em cima da hora? — Meu bem, eu esqueci... foi tanta coisa pra fazer que acabei esquecendo. Selena apenas observava de longe. Parecia claro que Caterina não tinha gostado dela. E a intuição de Selena dizia que aquela mulher não era tão inocente quanto parecia. Como ela pode dizer que eu não estou à altura de Dante? Pareço miserável por acaso? — pensou, irritada. A mãe de Dante sempre foi carinhosa com os dois filhos, mas todos percebiam que ela se identificava mais com Salvatore do que com Dante. Já Marco se via mais em Dante. Essa diferença criou uma rivalidade sutil entre os irmãos, que, já adultos, não conseguiam se unir. Caterina queria que Salvatore assumisse a empresa — nunca disse abertamente, mas suas atitudes deixavam claro. Marco pretendia se aposentar em breve, e ela faria o que fosse preciso para colocar seu filho preferido no comando. Após alguns minutos esperando à mesa de jantar, a porta se abre. Salvatore surge ao lado da esposa, Mila — uma mulher de beleza impecável, olhar altivo e origem nobre. Filha de uma das famílias mais ricas da Itália, ela parecia feita sob medida para o mundo dos que nunca precisaram pedir nada. Salvatore caminha com passos firmes, o blazer perfeitamente ajustado, o perfume caro dominando o ambiente. Segura a mão da esposa com leveza e exibe um sorriso de canto — aquele tipo de sorriso que mistura charme e veneno. — Boa noite, família... — disse, com a voz arrastada e confiante. Dante se remexe na cadeira, o desconforto escorrendo pelo olhar. Marco o observa em silêncio, como se pressentisse o que viria. Selena mantém a expressão neutra — mas por dentro, sente a vibração pesada que atravessa o ar. Salvatore se aproxima da mãe para cumprimentá-la. Caterina, radiante, se levanta num pulo, como se tivesse acabado de ver um deus. Abraça o filho com devoção e logo envolve Mila nos braços, como se fosse a filha que sempre quis ter. — Como vai, Salvatore? Quanto tempo... — disse Dante, levantando-se para cumprimentá-lo. — Grandioso, Dante! Quanto tempo, irmãozinho... O trabalho consome todo o meu tempo. Você sabe como é, não é? Sou um homem de negócios — respondeu Salvatore, com o sarcasmo escorrendo na voz. — Eu sei... Olá, Mila, como vai? — Muito bem, Dante. — Ela lança um sorriso gelado. — Não vai nos apresentar sua parceira? — pergunta, com um olhar que percorre Selena dos pés à cabeça, repleto de desprezo disfarçado de curiosidade. Selena percebe o tom e se levanta. Seus movimentos são suaves, porém firmes; ela exala confiança e elegância em cada passo. — Perdoe minha indelicadeza. Prazer, Selena — diz, estendendo a mão. — Prazer, Mila. Esposa do Salvatore — responde a outra, quase em desafio. — O prazer é meu, Mila — completa Selena, olhando-a nos olhos antes de se virar para o cunhado. Dante envolve a cintura de Selena com o braço e faz as apresentações. — Essa é a Selena, minha namorada. E, Selena, esse é meu irmão, Salvatore. — Prazer, Selena. — Ele sorri, estreitando o olhar. — Estou impressionado. O grande Dante resolveu crescer! Mas, pra assumir a empresa, vai precisar de muito mais que isso, você sabe... — diz, em tom arrogante, saboreando o desconforto que causa. Dante dá uma risada seca. — Sal, não vamos estragar o jantar. Vamos respeitar nossos pais, que estão na mesa — responde, tocando o ombro do irmão. O gesto é educado, mas carrega uma provocação silenciosa. Todos se sentam. O clima é denso, quase palpável. Marco observa em silêncio, tentando manter o controle da situação. Ele conhece bem a relação tensa entre os filhos — e entende, mais do que ninguém, o papel da esposa nesse jogo. Caterina sempre teve um talento especial para colocar lenha na fogueira, e ao chamar Salvatore para um jantar na casa de Dante sem aviso, ela passou do limite. Mas por que justo agora, quando Marco está prestes a se aposentar? O jantar segue num silêncio cortante. Talheres tilintam contra os pratos, o som ecoando como pequenas agressões. Dante segura a taça de vinho, observando Selena à distância, e ela o encara de volta — um olhar que diz tudo sem precisar de palavras. Caterina, por outro lado, encara Selena como quem disseca uma inimiga. Mila, do outro lado da mesa, compete com ela em silêncio — cada gesto, cada piscada, é um duelo de poder e sutileza. Quando o jantar termina, os funcionários entram para retirar os pratos. Todos vestidos de preto e branco, andam em fileiras silenciosas, com posturas tão rígidas que parecem robôs programados para obedecer. Salvatore recosta na cadeira, os olhos vagando pela sala. Analisa cada detalhe da casa do irmão — o mobiliário, os quadros, a iluminação perfeita — tudo com um olhar de inveja contida. Por mais que tivessem as mesmas oportunidades, no fundo, ele sempre sentiu que Dante era o preferido do destino. Salvatore sempre foi assim. Quando criança, queria os brinquedos do irmão. Depois, quis vencer no mesmo esporte, ser o melhor aluno, tocar o mesmo instrumento. Sempre à sombra, sempre competindo. Quando entrou na empresa do pai, finalmente sentiu que tinha vencido — mas o velho vazio nunca foi embora. Ele não queria apenas ser melhor que Dante. Ele queria ser Dante.
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