O som do cavaquinho ecoava pelos becos do Vidigal como um chamado impossível de ignorar. Era sábado, e o pagode no bar do Gordo já fazia parte da alma do morro. As luzes penduradas entre os postes improvisados tremeluziam, colorindo rostos suados, copos erguidos e sorrisos fáceis.
— Confia em mim, Anne — disse Gabz, puxando a prima pela mão. — Hoje você vai ver o que é vida de verdade.
Anne hesitou. Usava um vestido leve, simples, mas se sentia deslocada entre tantos olhares. O bar estava lotado. O cheiro de cerveja, churrasco e perfume doce pairava no ar. Risos altos se misturavam ao ritmo gostoso que fazia o chão vibrar.
— Tô me sentindo meio... fora do lugar — confessou.
— Relaxa, ninguém liga — Gabz piscou. — E olha, aproveita, porque a Maju tá vindo aí com o boy dela... o escondido. — Riu. — Hoje é dia de todo mundo viver perigosamente.
Anne riu, meio sem jeito.
Então o tempo parou de novo.
Ela o sentiu antes de vê-lo. Era como uma mudança na temperatura do ar.
Lord chegou em silêncio.
A multidão pareceu se abrir ao redor dele, como se o morro inteiro respeitasse sua presença. Usava uma camisa preta aberta nos botões de cima, revelando parte das tatuagens e o colar de corrente prateada. Os olhos cinzentos varreram o ambiente até pararem nela.
Anne gelou.
— Ele veio aqui? — sussurrou.
Gabz engoliu em seco.
— Ele nunca aparece em pagode. Nunca. — Depois, sorriu nervosa. — Quer dizer, até agora.
Dk surgiu logo atrás, distribuindo sorrisos e abraços. Quando viu Gabz, acenou com entusiasmo.
— Oi, minha princesa! — Dk jogou charme. — Trouxe a ruivinha contigo hoje? Quero apresentar ela pros manos.
Anne tentou sorrir, mas o olhar de Lord já estava sobre ela, pesado, firme.
E então ele veio.
Parou a poucos passos.
— Tá gostando da festa, ruiva? — perguntou, a voz rouca, arrastada. Como se cada palavra fosse medida.
Anne piscou, surpresa. Era a primeira vez que ouvia ele falar.
— Tô... sim.
Ele sorriu de leve, sem humor.
— Não parece. Tá com medo de mim?
Ela engoliu em seco.
— Eu não te conheço.
— E é por isso que tem medo? Ou por tudo que ouviu?
Ela não respondeu.
Lord se aproximou um pouco mais. Estava perto demais agora. O som do pagode seguia, mas para Anne, o mundo tinha se calado.
— Fica tranquila — ele murmurou. — Se eu quisesse te assustar... já teria feito isso.
E então, como se aquilo fosse suficiente por hoje, ele se virou e foi embora, sumindo no meio da multidão.
Anne ficou ali, o coração batendo tão forte que doía.
Gabz apareceu ao seu lado com os olhos arregalados.
— Menina... ele falou com você. Isso não é normal.
Anne sabia disso.
Mas o pior era: aquilo a fazia querer ouvir mais.
O pagode seguia animado, com a batucada ecoando pelas paredes do morro. Anne tentava disfarçar o turbilhão que sentia por dentro — o olhar dele ainda cravado em sua memória, como uma marca invisível.
Ela respirou fundo.
— Vou ao banheiro, já volto — disse a Gabz, tentando soar casual.
— Quer que vá com você?
— Não, tá tranquilo.
O bar do Gordo era pequeno, e o banheiro ficava num corredor apertado, entre caixas empilhadas e um ventilador barulhento. A luz piscava. As paredes de azulejo estavam um pouco úmidas, e o cheiro de cigarro misturava-se ao perfume doce de alguma mulher que passara por ali.
Anne trancou a porta, lavou o rosto com água fria e se encarou no espelho trincado.
— É só um cara — murmurou para si mesma. — Um cara perigoso, sim... mas ainda assim, um homem.
Quando abriu a porta, não esperava por ele.
Mas ele estava ali.
Lord.
Encostado na parede do corredor, braços cruzados, como se estivesse esperando por ela o tempo todo. A pouca luz refletia nas tatuagens do pescoço, e o sorriso — se é que aquilo era um sorriso — era sombrio.
Anne parou, o coração saltando na garganta.
— Você me seguiu?
— Eu tava aqui antes — respondeu, com calma. — Você que veio até mim.
Ela não sabia se voltava ou se passava direto. Mas o corpo não obedecia.
— Por quê?
— Você me intriga, ruiva.
Anne franziu o cenho.
— Por quê?
Ele deu um passo em sua direção. Depois outro. Até que os dois estavam a poucos centímetros de distância. Ela podia sentir o cheiro dele — algo entre couro, fumaça e perigo.
— Porque você é o tipo de garota que não sobrevive num lugar como esse. — Ele passou a língua pelos lábios devagar. — Mas mesmo assim, tá aqui. E isso... me faz querer entender.
Anne se obrigou a manter o olhar firme.
— Talvez eu seja mais forte do que pareço.
Lord sorriu, e foi um sorriso real, ainda que sombrio.
— Ou talvez só seja burra demais pra correr.
Ela sentiu o sangue ferver com a provocação.
— Eu não sou burra.
— Então por que não tá correndo agora?
O silêncio entre eles pesou.
Anne não sabia responder. E talvez ele não quisesse uma resposta.
Ele inclinou o rosto, aproximando-se perigosamente do ouvido dela.
— Você tem cheiro de coisa errada — murmurou. — E eu sou péssimo em resistir ao que é errado.
Antes que ela pudesse reagir, ele se afastou, deixando o corredor com passos lentos, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Anne ficou ali. Parada. Tonta.
E pela primeira vez, ela soube que estava envolvida demais com alguém que poderia destruí-la.
Anne voltou para o pagode como quem retorna de uma tempestade. A música ainda tocava, os risos ainda enchiam o ar, mas nada parecia igual. Cada rosto era borrado, cada som abafado. Tudo que ela conseguia ouvir era a voz dele, ainda vibrando dentro dela como um eco:
> “Você tem cheiro de coisa errada.”
Gabz foi a primeira a notar.
— Tá pálida. — Ela estreitou os olhos. — O banheiro tava tão r**m assim?
Anne forçou um sorriso.
— Só... meio abafado. Me deu um enjoo. Acho que é o calor.
Gabz não pareceu convencida.
— Sei. E o Lord, né? Sumiu de novo.
Dk se aproximou com duas garrafas de água. Estava sorridente como sempre, mas os olhos escaneavam o ambiente com atenção. Ele ofereceu uma das garrafas à Anne.
— Bebe, ruivinha. Cerveja aqui é traiçoeira se você não tá acostumada.
Ela aceitou em silêncio, bebendo devagar.
Dk continuou encarando-a.
— Tu tá bem mesmo?
Anne apenas assentiu, evitando os olhos dele.
Mas Dk era mais observador do que parecia.
— Cuidado onde pisa, tá? — murmurou com um meio sorriso, abaixando o tom. — Aqui no morro, até o vento tem olho e boca.
Anne arregalou os olhos por um segundo. Dk percebeu. Mas não insistiu.
Gabz puxou Anne pela cintura e tentou distrair com brincadeiras, com piadas sobre casais escondidos e os amores impossíveis do morro. Mas Anne só ria por fora. Por dentro, era como se algo tivesse sido aberto — e agora não dava mais pra fechar.
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Mais tarde, quando o pagode começava a esfriar e os grupos se dispersavam pelas vielas, Dk e Gabz se encontraram na frente do restaurante da tia Vera, com Anne subindo na frente, em silêncio.
— Tu sentiu também, né? — Gabz perguntou.
Dk cruzou os braços e olhou para o alto do morro, onde a mansão preta reluzia como um farol de sombra.
— Lord olhou pra ela hoje. Olhou mesmo. Não é comum.
— E ela tá... diferente. Meio aérea.
— Ele fez alguma coisa? — A voz de Dk agora soava mais dura.
— Não sei. Mas ela parece marcada.
Dk bufou, incomodado.
— Se ele tiver encostado nela, o bicho vai pegar. Ela é novata, inocente. Não merece isso.
Gabz suspirou.
— No morro, Dk... ninguém escolhe quem vai marcar a gente.
Eles ficaram ali, em silêncio, assistindo Anne desaparecer pela escadaria estreita — e torcendo, no fundo, pra que ela não estivesse indo longe demais.