Capítulo 2 – Pagode no Morro

1361 Words
O som do cavaquinho ecoava pelos becos do Vidigal como um chamado impossível de ignorar. Era sábado, e o pagode no bar do Gordo já fazia parte da alma do morro. As luzes penduradas entre os postes improvisados tremeluziam, colorindo rostos suados, copos erguidos e sorrisos fáceis. — Confia em mim, Anne — disse Gabz, puxando a prima pela mão. — Hoje você vai ver o que é vida de verdade. Anne hesitou. Usava um vestido leve, simples, mas se sentia deslocada entre tantos olhares. O bar estava lotado. O cheiro de cerveja, churrasco e perfume doce pairava no ar. Risos altos se misturavam ao ritmo gostoso que fazia o chão vibrar. — Tô me sentindo meio... fora do lugar — confessou. — Relaxa, ninguém liga — Gabz piscou. — E olha, aproveita, porque a Maju tá vindo aí com o boy dela... o escondido. — Riu. — Hoje é dia de todo mundo viver perigosamente. Anne riu, meio sem jeito. Então o tempo parou de novo. Ela o sentiu antes de vê-lo. Era como uma mudança na temperatura do ar. Lord chegou em silêncio. A multidão pareceu se abrir ao redor dele, como se o morro inteiro respeitasse sua presença. Usava uma camisa preta aberta nos botões de cima, revelando parte das tatuagens e o colar de corrente prateada. Os olhos cinzentos varreram o ambiente até pararem nela. Anne gelou. — Ele veio aqui? — sussurrou. Gabz engoliu em seco. — Ele nunca aparece em pagode. Nunca. — Depois, sorriu nervosa. — Quer dizer, até agora. Dk surgiu logo atrás, distribuindo sorrisos e abraços. Quando viu Gabz, acenou com entusiasmo. — Oi, minha princesa! — Dk jogou charme. — Trouxe a ruivinha contigo hoje? Quero apresentar ela pros manos. Anne tentou sorrir, mas o olhar de Lord já estava sobre ela, pesado, firme. E então ele veio. Parou a poucos passos. — Tá gostando da festa, ruiva? — perguntou, a voz rouca, arrastada. Como se cada palavra fosse medida. Anne piscou, surpresa. Era a primeira vez que ouvia ele falar. — Tô... sim. Ele sorriu de leve, sem humor. — Não parece. Tá com medo de mim? Ela engoliu em seco. — Eu não te conheço. — E é por isso que tem medo? Ou por tudo que ouviu? Ela não respondeu. Lord se aproximou um pouco mais. Estava perto demais agora. O som do pagode seguia, mas para Anne, o mundo tinha se calado. — Fica tranquila — ele murmurou. — Se eu quisesse te assustar... já teria feito isso. E então, como se aquilo fosse suficiente por hoje, ele se virou e foi embora, sumindo no meio da multidão. Anne ficou ali, o coração batendo tão forte que doía. Gabz apareceu ao seu lado com os olhos arregalados. — Menina... ele falou com você. Isso não é normal. Anne sabia disso. Mas o pior era: aquilo a fazia querer ouvir mais. O pagode seguia animado, com a batucada ecoando pelas paredes do morro. Anne tentava disfarçar o turbilhão que sentia por dentro — o olhar dele ainda cravado em sua memória, como uma marca invisível. Ela respirou fundo. — Vou ao banheiro, já volto — disse a Gabz, tentando soar casual. — Quer que vá com você? — Não, tá tranquilo. O bar do Gordo era pequeno, e o banheiro ficava num corredor apertado, entre caixas empilhadas e um ventilador barulhento. A luz piscava. As paredes de azulejo estavam um pouco úmidas, e o cheiro de cigarro misturava-se ao perfume doce de alguma mulher que passara por ali. Anne trancou a porta, lavou o rosto com água fria e se encarou no espelho trincado. — É só um cara — murmurou para si mesma. — Um cara perigoso, sim... mas ainda assim, um homem. Quando abriu a porta, não esperava por ele. Mas ele estava ali. Lord. Encostado na parede do corredor, braços cruzados, como se estivesse esperando por ela o tempo todo. A pouca luz refletia nas tatuagens do pescoço, e o sorriso — se é que aquilo era um sorriso — era sombrio. Anne parou, o coração saltando na garganta. — Você me seguiu? — Eu tava aqui antes — respondeu, com calma. — Você que veio até mim. Ela não sabia se voltava ou se passava direto. Mas o corpo não obedecia. — Por quê? — Você me intriga, ruiva. Anne franziu o cenho. — Por quê? Ele deu um passo em sua direção. Depois outro. Até que os dois estavam a poucos centímetros de distância. Ela podia sentir o cheiro dele — algo entre couro, fumaça e perigo. — Porque você é o tipo de garota que não sobrevive num lugar como esse. — Ele passou a língua pelos lábios devagar. — Mas mesmo assim, tá aqui. E isso... me faz querer entender. Anne se obrigou a manter o olhar firme. — Talvez eu seja mais forte do que pareço. Lord sorriu, e foi um sorriso real, ainda que sombrio. — Ou talvez só seja burra demais pra correr. Ela sentiu o sangue ferver com a provocação. — Eu não sou burra. — Então por que não tá correndo agora? O silêncio entre eles pesou. Anne não sabia responder. E talvez ele não quisesse uma resposta. Ele inclinou o rosto, aproximando-se perigosamente do ouvido dela. — Você tem cheiro de coisa errada — murmurou. — E eu sou péssimo em resistir ao que é errado. Antes que ela pudesse reagir, ele se afastou, deixando o corredor com passos lentos, como se tivesse todo o tempo do mundo. Anne ficou ali. Parada. Tonta. E pela primeira vez, ela soube que estava envolvida demais com alguém que poderia destruí-la. Anne voltou para o pagode como quem retorna de uma tempestade. A música ainda tocava, os risos ainda enchiam o ar, mas nada parecia igual. Cada rosto era borrado, cada som abafado. Tudo que ela conseguia ouvir era a voz dele, ainda vibrando dentro dela como um eco: > “Você tem cheiro de coisa errada.” Gabz foi a primeira a notar. — Tá pálida. — Ela estreitou os olhos. — O banheiro tava tão r**m assim? Anne forçou um sorriso. — Só... meio abafado. Me deu um enjoo. Acho que é o calor. Gabz não pareceu convencida. — Sei. E o Lord, né? Sumiu de novo. Dk se aproximou com duas garrafas de água. Estava sorridente como sempre, mas os olhos escaneavam o ambiente com atenção. Ele ofereceu uma das garrafas à Anne. — Bebe, ruivinha. Cerveja aqui é traiçoeira se você não tá acostumada. Ela aceitou em silêncio, bebendo devagar. Dk continuou encarando-a. — Tu tá bem mesmo? Anne apenas assentiu, evitando os olhos dele. Mas Dk era mais observador do que parecia. — Cuidado onde pisa, tá? — murmurou com um meio sorriso, abaixando o tom. — Aqui no morro, até o vento tem olho e boca. Anne arregalou os olhos por um segundo. Dk percebeu. Mas não insistiu. Gabz puxou Anne pela cintura e tentou distrair com brincadeiras, com piadas sobre casais escondidos e os amores impossíveis do morro. Mas Anne só ria por fora. Por dentro, era como se algo tivesse sido aberto — e agora não dava mais pra fechar. --- Mais tarde, quando o pagode começava a esfriar e os grupos se dispersavam pelas vielas, Dk e Gabz se encontraram na frente do restaurante da tia Vera, com Anne subindo na frente, em silêncio. — Tu sentiu também, né? — Gabz perguntou. Dk cruzou os braços e olhou para o alto do morro, onde a mansão preta reluzia como um farol de sombra. — Lord olhou pra ela hoje. Olhou mesmo. Não é comum. — E ela tá... diferente. Meio aérea. — Ele fez alguma coisa? — A voz de Dk agora soava mais dura. — Não sei. Mas ela parece marcada. Dk bufou, incomodado. — Se ele tiver encostado nela, o bicho vai pegar. Ela é novata, inocente. Não merece isso. Gabz suspirou. — No morro, Dk... ninguém escolhe quem vai marcar a gente. Eles ficaram ali, em silêncio, assistindo Anne desaparecer pela escadaria estreita — e torcendo, no fundo, pra que ela não estivesse indo longe demais.
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