Do alto do morro, ele via tudo.
Gente dançando, gritando, rindo. Os copos se erguendo sob as luzes coloridas, as motos zumbindo entre vielas. Lord estava ali, como sempre — um rei no trono escuro, calado, invisível aos olhos comuns. Mas hoje, seus olhos estavam cravados em uma só pessoa.
Anne.
A ruiva se mexia como quem tenta se encaixar num mundo que não foi feito pra ela. Cada gesto dela era leve demais, limpo demais, inocente demais.
E talvez fosse isso que mais o incomodasse.
Ela não pertencia ali.
E ainda assim, estava ali.
— Tá obcecado, Lord. — A voz atrás dele era doce, arrastada. — Isso não é você.
Ele virou o rosto lentamente. Lara. Corpo feito sob medida pra provocar, vestido justo, salto alto, batom vermelho. Tudo nela gritava desejo.
Mas aos olhos dele… tudo era vazio.
— Quer alguma coisa? — ele perguntou, sem emoção.
Ela sorriu, se aproximando.
— De você, sempre.
Ele a deixou tocá-lo. Deixou as mãos dela deslizarem por seus braços, o beijo quente no pescoço. Ela falava como se soubesse que ele era dela — mas era só ilusão. Lord não pertencia a ninguém. Nunca pertenceu. Nunca foi de ninguém.
E nunca seria.
Minutos depois, estavam no quarto escuro da casa da Lara.
Lara se jogou na cama como se aquilo fosse um prêmio, como se dormir com ele a aproximasse de algo que ela queria há tempos.
Ele a tomou com pressa. Sem carinho, sem palavras doces, sem mentiras. Apenas necessidade. Corpo. Pele. Fuga.
Lara gemeu seu nome como se fosse um grito de vitória.
Mas ele nem respondeu.
Quando terminou, levantou sem olhar pra trás. Acendeu um cigarro. Vestiu a calça com o mesmo tédio com que tiraria o lixo.
— Vai embora já? — a voz dela soou frustrada.
— Era só isso mesmo — ele disse, sem rodeios.
— Você não sente nada por mim, né?
Lord ficou em silêncio por um momento.
Depois soltou a fumaça devagar.
— Eu não sinto nada por ninguém.
Deixou Lara ali, nua e ferida de orgulho. Saiu do quarto como quem não deixa rastro.
Mas quando passou pela varanda, parou por um instante. Olhou para baixo.
E mesmo na escuridão, conseguiu ver a silhueta dela, a ruiva. Anne.
Sozinha na sacada da casa da tia, olhando para o céu.
Frágil. Desencaixada.
Linda.
Errada.
E ele… desejava o errado. Sempre desejou.
Mas essa menina era o tipo de erro que arrasta. Que sangra. Que muda.
Ele cerrou os olhos.
— Maldita hora que você chegou aqui, ruiva...
E voltou a se esconder nas sombras que o protegiam de tudo o que ainda não sabia sentir.
A mansão preta, no topo do Vidigal, parecia mais um mausoléu do que um lar. Luxuosa, moderna, silenciosa demais. Lord gostava assim.
O silêncio, pra ele, era um tipo de armadura.
Sentado à cabeceira da enorme mesa da área gourmet, ele tomava café — preto, forte, sem açúcar. O sol da manhã entrava pelas janelas de vidro, refletindo nas paredes escuras.
Dk chegou cantando alto, sem camisa, com os fones pendurados no pescoço e um pão com mortadela na mão.
— Caraca, esse sol tá de f***r hoje! — disse, abrindo a geladeira.
Lord ergueu uma sobrancelha.
— Você fala demais de manhã, irmão.
— E você fala de menos sempre.
Eles se entreolharam. Era provocação, mas com afeto. Dk era o único que podia brincar assim com ele e sair vivo — talvez porque, no fundo, era o único que Lord realmente amava de verdade.
— Cadê a Maju? — perguntou Lord.
— Na aula. Saiu cedo. Aquele curso lá dela, pedagogia. — Dk deu um sorriso. — Tá toda animada pra dar aula pra criança.
Lord não respondeu. Mas por dentro, algo nele se aquietava ao saber que a irmã estava segura, longe da sujeira que os cercava.
Dona Helena apareceu logo depois, como um fantasma com vassoura. Baixinha, gorda, de cabelos grisalhos presos num coque firme. Tinha 60 e poucos anos, e mesmo depois da morte do pai de Lord, continuou ali. Ele nunca a mandou embora. Nunca teria coragem.
— Vai ficar com essa cara amarrada até quando, Vitor Hugo? — perguntou, sem medo, enquanto varria.
Lord cerrou os olhos.
— Já falei pra não me chamar assim.
— E eu já falei que não sou seu soldado. Te conheço desde que era um fiapo chorando no colo da tua mãe. — Ela ergueu o queixo. — Você era doce, sabia?
— Era fraco — ele respondeu seco.
Helena suspirou. Passou o pano na mesa com força.
— Você só não quer sentir. Porque se sentir, quebra. Igual seu pai.
Ele se levantou sem dizer nada. Caminhou até a varanda da casa. Do alto, o mar parecia tranquilo. Lá embaixo, o mundo se movia, pequeno. Gente vivendo, sonhando... morrendo.
E ali, entre o mar e o morro, ele viu de novo ela.
Anne. Saía com a Gabz, descendo os degraus com cuidado, como se o chão pudesse ceder a qualquer momento.
— Quem é a ruivinha? — Dona Helena apareceu ao lado dele, como quem adivinha.
— Uma menina que caiu aqui.
— E vai ficar?
— Não sei.
Helena olhou para ele de lado, apertando os olhos.
— Você tá olhando pra ela como olhava pra faca do seu pai.
Lord virou devagar.
— Que merda isso quer dizer?
— Que você nunca olhava com medo. Só com vontade de tocar, mesmo sabendo que ia se cortar.
Ele ficou em silêncio.
Helena voltou pra dentro.
Lord continuou olhando a ruiva se afastar. O cabelo dela reluzia no sol, como fogo.
E pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu vontade de tocar algo que talvez não pudesse destruir.
Mas não sabia se tinha conserto o suficiente dentro dele pra isso.