O mar do Rio parecia ainda mais azul naquela manhã.
Anne desceu a trilha que levava à praia pequena no canto do Vidigal com os pés afundando na areia fina, os olhos brilhando sob o sol e o cabelo ruivo voando com a brisa salgada. Pela primeira vez desde que chegou, ela se sentia… leve.
Quase livre.
— Vai ficar só olhando ou vai entrar, princesa? — gritou Gabz, já de biquíni, pulando com o corpo bronzeado entre as ondas rasas.
Anne riu, envergonhada, ajeitando o biquíni branco de babados que Gabz emprestou. O tecido claro contrastava com sua pele alva, e ela se sentia meio exposta, mas... viva.
— Tá gelada?
— Vem descobrir! — Gabz lançou um jato d’água com o pé.
Anne correu, gritando e rindo ao mesmo tempo. A água bateu em suas pernas como um choque bom. Gritou de novo. Gabz gargalhou.
As duas entraram até a cintura, e logo estavam mergulhando, girando, se jogando no mar como duas crianças. Era a primeira vez em muito tempo que Anne ria daquele jeito. Um riso puro, sem medo, sem peso.
Depois de um tempo, elas se sentaram na areia molhada, respirando fundo, os corpos molhados brilhando sob o sol da manhã.
— Isso aqui é vida — disse Gabz, olhando pro horizonte.
— Eu não lembrava como era me sentir assim — confessou Anne, os olhos verdes presos no vai e vem das ondas. — Livre.
Gabz sorriu e olhou pra amiga com carinho.
— Você é diferente, sabia?
— Diferente como?
— Sei lá… parece que veio de um mundo que não é o nosso. Aqui, a gente cresce com medo nas costas. Você tem um brilho meio… fora do lugar.
Anne ficou em silêncio, tocando a areia com os dedos.
— Às vezes eu queria pertencer.
— Cuidado com o que deseja. O morro cobra caro quando você tenta ser parte dele.
As duas se entreolharam por um momento, sérias. Depois Gabz levantou, limpando a areia das pernas.
— Bora comprar um açaí? Tenho um lugar que é tudo!
Anne assentiu, rindo outra vez. Caminharam de volta pela areia, despreocupadas.
Lá no alto do morro, em uma varanda escura, Lord via tudo.Mandou um vapor seguir a ruiva.
O vapor tirava fotos da cena e mandava para o Chefe que recebia e olhava como se visse um quadro que não combinava com as paredes da sua vida.
A ruiva rindo, girando na água, correndo…
Parecia feita de luz.
Mas ele sabia: até a luz, quando entra na favela, se apaga um pouco de cada vez.
E ele ia ser o eclipse.
O açaí escorria pela colher enquanto Anne ria das histórias que Gabz contava, sentadas num dos banquinhos de plástico na calçada perto da praia.
O vento estava mais quente agora, e o sol já se inclinava para o oeste, dourando tudo.
— Aquele menino que passou de moto, com o moletom amarelo? Já me pediu em namoro umas três vezes — Gabz contava, fazendo caretas. — E nem sabe meu nome direito!
Anne gargalhou.
— Você atrai olhares por onde passa, Gabz.
— E você acha que não? Você devia ver como o povo comenta quando você passa. Tem cara que tá até inventando apelido. “A ruivinha do morro.”
Anne corou, desconcertada.
Gabz deu um sorriso cúmplice, mas antes que pudesse continuar, uma voz grossa surgiu por trás:
— E aí, Gabz? Vai apresentar a amiga ou vai ficar de fofoquinha?
As duas se viraram.
Martelin.
Moreno, olhos puxados e intensos, cabelo cortado baixo, camisa regata que mostrava os braços definidos e tatuados. Tinha um jeito de andar relaxado, mas com uma tensão constante no olhar — como quem tá sempre pronto pra reagir.
Anne sentiu o corpo travar sem saber por quê.
Gabz forçou um sorriso.
— Essa é a Anne, Martelin. A sobrinha da Vera.
Martelin estendeu a mão, o sorriso cortês.
— Prazer, princesa. Já ouvi falar de você. Difícil não ouvir.
Anne apertou a mão dele com hesitação. A pele dele era quente. O olhar demorou um pouco demais no rosto dela.
— O prazer é meu… — disse baixo.
— Tá gostando daqui?
— Tô tentando me adaptar.
— Vai conseguir. — Ele piscou devagar. — É só saber quem são os certos pra andar perto.
Gabz franziu o cenho discretamente.
— A gente já tava indo, Martelin. Tchau, viu?
Martelin manteve o sorriso, mas o olhar apertou.
— Demorou. Se cuida, ruivinha.
Anne virou o rosto ao sentir o arrepio subir pelas costas.
Não era o que ele disse — era como ele disse. Como se soubesse de algo que ela não.
Quando se afastaram, Gabz falou baixo, mas firme:
— Nunca fica muito perto desse cara. Ele é… complicado.
— Ele é perigoso?
Gabz hesitou.
— Só… escuta o que eu tô dizendo, tá?
Anne assentiu. O gosto do açaí já tinha sumido da boca.
No fundo, ela sabia. Alguns sorrisos são só fachada. E alguns encontros mudam tudo, mesmo que você não entenda na hora.