Capítulo 5 – Dono do Morro, Dono do Jogo

1051 Words
O som do funk vazava baixo pelas caixas da mansão, mas Lord não ouvia nada. Estava na varanda, a camisa jogada no chão, uma garrafa de uísque pela metade na mão e os olhos fixos na tela do celular. O vídeo durava menos de dez segundos: Anne rindo na calçada com Gabz… e depois, Martelin se aproximando. Tocando nela. Falando demais. Tocando. O sangue dele fervia. Os dedos, que seguravam o copo, tremiam levemente. Dk entrou na varanda sem bater, como sempre fazia. — A Maju chegou. Disse que a Anne foi dormir mais cedo. Tava meio quieta… Não teve tempo de continuar. O som do vidro estilhaçando contra a parede o fez recuar um passo. Dk arregalou os olhos. — Que p***a é essa, mano? Lord não respondeu de imediato. Passou a mão pelo rosto, depois pegou o celular e jogou no colo do irmão. — Olha isso. Dk assistiu em silêncio. Engoliu seco. — É só o Martelin, pô. Não fez nada demais. Lord o encarou com olhos cinzentos e gelados. — Ele encostou nela. — E daí? Ele é só um vapor. Ela nem sabe quem ele é… — E ele sabe muito bem quem ela é. E quem eu sou. A tensão no ar ficou espessa. Dk cruzou os braços. — Você tá levando isso a sério demais. Ela é só uma menina nova no morro. — Ela é minha. As palavras saíram duras, definitivas. Dk franziu a testa. — Sua? Desde quando? Lord se aproximou, parando a poucos centímetros do irmão. — Desde o momento em que olhei pra ela e senti que, se alguém encostasse de novo, eu ia matar. O silêncio que seguiu foi mais pesado do que qualquer som. Dk respirou fundo, desviando o olhar. — Tá bom… eu vou dar um toque no Martelin. — Não. — Lord pegou a camisa do chão e vestiu com calma. — Eu mesmo vou resolver. E saiu. No corredor, Dona Helena observava de longe, sem dizer uma palavra. Mas seus olhos diziam tudo: Ela conhecia aquele olhar. Era o mesmo que o pai dele tinha antes de matar alguém. A viela atrás do bar do Neto estava quase deserta. O chão úmido, a luz fraca do poste piscando, e o cheiro de cerveja barata no ar. Martelin encostado na parede, tragava o cigarro como quem sabia que tava devendo. Mas não sabia quanto. O som dos passos firmes vindo da esquerda não o assustou. Ainda. Lord surgiu como uma sombra viva, com a camisa preta colada ao corpo tatuado, o rosto fechado e o olhar cinza cortando como navalha. — Fiquei sabendo que você andou se engraçando com uma ruivinha — disse, sem rodeios. Martelin manteve o ar de confiança, mesmo sentindo o coração acelerar. — Tava só sendo educado, patrão. A mina é novata… tava perdida ali com a Gabz. — Perdida ela não tava. Mas tu vai estar se continuar cruzando o caminho dela. Martelin riu baixo, nervoso. — Tá com ciúme da novinha, é? Foi rápido. Um soco seco no estômago, tão preciso que Martelin se curvou sem conseguir respirar. Antes que pudesse se recompor, Lord o prensou contra a parede, o antebraço esmagando seu pescoço. — Eu não repito aviso. — A voz dele era baixa, mas cheia de veneno. — Você fala com ela de novo, olha pra ela de novo, e eu te deixo em pedaços. Você quer virar exemplo, Martelin? Martelin tossiu, tentando respirar. O medo agora estava estampado nos olhos dele. — Tranquilo, Lord… foi m*l… não vai acontecer de novo… Lord o soltou com nojo, como se tivesse tocado em algo sujo demais. Virou as costas, limpando o sangue que manchou o punho da camisa. — Você devia se perguntar por que ela mexe comigo. Porque quando eu descubro a resposta, pode ser tarde demais pra todo mundo. E desapareceu na escuridão do beco, como um presságio. Martelin caiu de joelhos, tremendo. Pensando que merda acabou de acontecer. A partir daquela noite, todo mundo no morro sabia: a ruivinha tinha dono. Mesmo que ela ainda não soubesse disso. A casa da Vera já estava quieta, o restaurante fechado, e o morro começava a se calar sob o céu estrelado. Maju saiu sorrateira, descendo pela lateral até os fundos do quintal, onde havia um portãozinho escondido. Abriu devagar e viu ele ali, encostado na árvore, capuz na cabeça, olhar perdido. — Você tá atrasado — ela sussurrou, cruzando os braços. Martelin olhou pra ela, e Maju sentiu o estômago revirar. Ele estava diferente. Os olhos, sempre atrevidos e vivos, estavam vazios. O maxilar tenso. O cigarro entre os dedos queimando até a metade sem ele perceber. — Tá tudo bem? — ela perguntou, se aproximando. Ele hesitou. Queria dizer sim. Fingir. Mas quando ela pousou a mão em seu peito, ele afastou. — Não encosta. Maju arregalou os olhos, ferida. — O que aconteceu? — Eu só… preciso ficar longe de você por uns dias. — Como assim? Por quê? Martelin passou a mão no rosto, cansado. — Só confia em mim, Ju. Não pergunta. Ela segurou o queixo dele com firmeza, irritada agora. — Isso tem a ver com o que tão falando por aí? Que o Lord tá bolado com alguém por causa da nova? A tal da Anne? Ele não respondeu. E o silêncio dele disse tudo. — Meu Deus, Martelin… o que você fez? — Nada! — Ele se exaltou, mas logo abaixou a voz. — Eu juro. Só falei com a menina. Fui educado. Só isso. Mas teu irmão... ele me ameaçou. Me destruiu com um olhar. Como se eu fosse lixo. Maju sentiu o peito apertar. Era sempre assim. O morro era território de guerra — e o amor, uma bomba-relógio. — A gente não pode continuar se escondendo — sussurrou ela. — Meu irmão vai descobrir de qualquer jeito. Martelin a encarou, os olhos vermelhos. — Se ele descobrir, eu não vejo o amanhã, Ju. Um silêncio amargo se instalou entre eles. Ela encostou a cabeça no peito dele, mesmo assim. Mesmo machucada. Mesmo com medo. Porque o amor que sentia por ele era mais forte que a prudência. E mesmo sabendo que estavam cercados por sombras, os dois ficaram ali… abraçados por um instante que parecia roubado do mundo.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD