O som do funk vazava baixo pelas caixas da mansão, mas Lord não ouvia nada.
Estava na varanda, a camisa jogada no chão, uma garrafa de uísque pela metade na mão e os olhos fixos na tela do celular.
O vídeo durava menos de dez segundos: Anne rindo na calçada com Gabz… e depois, Martelin se aproximando. Tocando nela. Falando demais.
Tocando.
O sangue dele fervia. Os dedos, que seguravam o copo, tremiam levemente.
Dk entrou na varanda sem bater, como sempre fazia.
— A Maju chegou. Disse que a Anne foi dormir mais cedo. Tava meio quieta…
Não teve tempo de continuar.
O som do vidro estilhaçando contra a parede o fez recuar um passo.
Dk arregalou os olhos.
— Que p***a é essa, mano?
Lord não respondeu de imediato. Passou a mão pelo rosto, depois pegou o celular e jogou no colo do irmão.
— Olha isso.
Dk assistiu em silêncio. Engoliu seco.
— É só o Martelin, pô. Não fez nada demais.
Lord o encarou com olhos cinzentos e gelados.
— Ele encostou nela.
— E daí? Ele é só um vapor. Ela nem sabe quem ele é…
— E ele sabe muito bem quem ela é. E quem eu sou.
A tensão no ar ficou espessa. Dk cruzou os braços.
— Você tá levando isso a sério demais. Ela é só uma menina nova no morro.
— Ela é minha.
As palavras saíram duras, definitivas.
Dk franziu a testa.
— Sua? Desde quando?
Lord se aproximou, parando a poucos centímetros do irmão.
— Desde o momento em que olhei pra ela e senti que, se alguém encostasse de novo, eu ia matar.
O silêncio que seguiu foi mais pesado do que qualquer som.
Dk respirou fundo, desviando o olhar.
— Tá bom… eu vou dar um toque no Martelin.
— Não. — Lord pegou a camisa do chão e vestiu com calma. — Eu mesmo vou resolver.
E saiu.
No corredor, Dona Helena observava de longe, sem dizer uma palavra. Mas seus olhos diziam tudo:
Ela conhecia aquele olhar.
Era o mesmo que o pai dele tinha antes de matar alguém.
A viela atrás do bar do Neto estava quase deserta. O chão úmido, a luz fraca do poste piscando, e o cheiro de cerveja barata no ar.
Martelin encostado na parede, tragava o cigarro como quem sabia que tava devendo.
Mas não sabia quanto.
O som dos passos firmes vindo da esquerda não o assustou. Ainda.
Lord surgiu como uma sombra viva, com a camisa preta colada ao corpo tatuado, o rosto fechado e o olhar cinza cortando como navalha.
— Fiquei sabendo que você andou se engraçando com uma ruivinha — disse, sem rodeios.
Martelin manteve o ar de confiança, mesmo sentindo o coração acelerar.
— Tava só sendo educado, patrão. A mina é novata… tava perdida ali com a Gabz.
— Perdida ela não tava. Mas tu vai estar se continuar cruzando o caminho dela.
Martelin riu baixo, nervoso.
— Tá com ciúme da novinha, é?
Foi rápido.
Um soco seco no estômago, tão preciso que Martelin se curvou sem conseguir respirar.
Antes que pudesse se recompor, Lord o prensou contra a parede, o antebraço esmagando seu pescoço.
— Eu não repito aviso. — A voz dele era baixa, mas cheia de veneno. — Você fala com ela de novo, olha pra ela de novo, e eu te deixo em pedaços.
Você quer virar exemplo, Martelin?
Martelin tossiu, tentando respirar. O medo agora estava estampado nos olhos dele.
— Tranquilo, Lord… foi m*l… não vai acontecer de novo…
Lord o soltou com nojo, como se tivesse tocado em algo sujo demais.
Virou as costas, limpando o sangue que manchou o punho da camisa.
— Você devia se perguntar por que ela mexe comigo. Porque quando eu descubro a resposta, pode ser tarde demais pra todo mundo.
E desapareceu na escuridão do beco, como um presságio.
Martelin caiu de joelhos, tremendo.
Pensando que merda acabou de acontecer.
A partir daquela noite, todo mundo no morro sabia: a ruivinha tinha dono.
Mesmo que ela ainda não soubesse disso.
A casa da Vera já estava quieta, o restaurante fechado, e o morro começava a se calar sob o céu estrelado.
Maju saiu sorrateira, descendo pela lateral até os fundos do quintal, onde havia um portãozinho escondido.
Abriu devagar e viu ele ali, encostado na árvore, capuz na cabeça, olhar perdido.
— Você tá atrasado — ela sussurrou, cruzando os braços.
Martelin olhou pra ela, e Maju sentiu o estômago revirar.
Ele estava diferente. Os olhos, sempre atrevidos e vivos, estavam vazios. O maxilar tenso. O cigarro entre os dedos queimando até a metade sem ele perceber.
— Tá tudo bem? — ela perguntou, se aproximando.
Ele hesitou. Queria dizer sim. Fingir. Mas quando ela pousou a mão em seu peito, ele afastou.
— Não encosta.
Maju arregalou os olhos, ferida.
— O que aconteceu?
— Eu só… preciso ficar longe de você por uns dias.
— Como assim? Por quê?
Martelin passou a mão no rosto, cansado.
— Só confia em mim, Ju. Não pergunta.
Ela segurou o queixo dele com firmeza, irritada agora.
— Isso tem a ver com o que tão falando por aí? Que o Lord tá bolado com alguém por causa da nova?
A tal da Anne?
Ele não respondeu. E o silêncio dele disse tudo.
— Meu Deus, Martelin… o que você fez?
— Nada! — Ele se exaltou, mas logo abaixou a voz. — Eu juro. Só falei com a menina. Fui educado. Só isso. Mas teu irmão... ele me ameaçou. Me destruiu com um olhar. Como se eu fosse lixo.
Maju sentiu o peito apertar.
Era sempre assim. O morro era território de guerra — e o amor, uma bomba-relógio.
— A gente não pode continuar se escondendo — sussurrou ela. — Meu irmão vai descobrir de qualquer jeito.
Martelin a encarou, os olhos vermelhos.
— Se ele descobrir, eu não vejo o amanhã, Ju.
Um silêncio amargo se instalou entre eles.
Ela encostou a cabeça no peito dele, mesmo assim. Mesmo machucada. Mesmo com medo. Porque o amor que sentia por ele era mais forte que a prudência.
E mesmo sabendo que estavam cercados por sombras, os dois ficaram ali… abraçados por um instante que parecia roubado do mundo.