O dia amanheceu com o cheiro salgado da brisa invadindo o quarto. Anne se espreguiçou lentamente, ainda com o corpo leve do dia anterior na praia.
Por um momento, se sentiu bem. Tranquila.
Mas bastou descer as escadas para perceber: o clima tinha mudado.
Gabz estava no restaurante, limpando as mesas com mais força que o normal. Vera falava baixo no telefone. E quando viu Anne, cortou a ligação na hora.
— Bom dia… — Anne disse, tentando sorrir.
Gabz olhou, hesitou. Depois sorriu de volta — mas era um sorriso diferente. Não era o mesmo de sempre. Tinha um peso ali.
— Dormiu bem?
— Dormi… mas… tá tudo bem?
— Tá. — Mentira m*l contada. — Só correria mesmo.
Anne foi até o balcão, pegou um copo d’água. Sentiu dois olhares no fundo do salão. Dois homens de boné, sentados em silêncio, observando ela discretamente.
Tentou ignorar, mas o desconforto ficou preso na garganta.
Mais tarde, ao subir o morro com Gabz, mais gente parava pra olhar.
Uns com respeito. Outros com algo que parecia… medo.
E então, na esquina da barbearia, passou por um grupo de rapazes.
Um deles sussurrou:
— A mina do Lord…
O sangue gelou.
Anne parou.
— O que ele disse?
Gabz agarrou o braço dela e apertou.
— Não escuta isso, Anne. Bora andar.
— A mina do Lord? O que isso quer dizer?
Gabz fechou os olhos, respirou fundo.
— Quer dizer que você precisa ter cuidado. Tem coisa acontecendo que… você ainda não entende.
— Então me explica! — Anne soltou o braço, a voz tremendo. — Porque eu tô me sentindo cercada. Como se todo mundo soubesse de algo menos eu.
Gabz hesitou. Depois passou a mão no cabelo, nervosa.
— Lembra daquele dia que o Martelin falou com você?
— Lembro. E?
— Foi o suficiente pra virar assunto no morro inteiro.
E parece que o Lord… não gostou. Tipo, não gostou mesmo.
Anne piscou, confusa.
— Mas… por quê?
Gabz a olhou nos olhos.
— Porque ele é o dono do morro, Anne. E você… você é a única coisa que ele não entende.
E quando o Lord não entende algo, ele controla.
A casa de Vera estava em silêncio quando Anne voltou. Subiu direto para o quarto, o coração acelerado, a cabeça cheia demais para fingir normalidade.
Estava sentada na cama, mexendo distraidamente na alça do vestido, quando a porta se abriu devagar.
Eva entrou, os cabelos negros presos num coque frouxo, com os olhos já sabendo demais.
— Você tá diferente — disse, se sentando na beira da cama. — Aconteceu alguma coisa?
Anne suspirou, olhando para as próprias mãos.
— Mãe… eu não entendo mais esse lugar.
Eva franziu a testa.
— Como assim?
— É como se todo mundo aqui soubesse de algo sobre mim. Olham diferente. Falam baixo quando passo.
Hoje… um cara me chamou de a mina do Lord.
Eva empalideceu. Ficou em silêncio por alguns segundos, como se processasse aquilo com cuidado.
— Você tem falado com esse… Lord?
— Não. Quer dizer… não de verdade. Ele apareceu no banheiro outro dia. Me assustou.
Mas ele não fez nada… só ficou ali. Me olhando.
Eva fechou os olhos por um instante, a expressão dura.
— Escuta, filha… eu trouxe você pra cá pra te proteger. Pra te dar paz. Não pra te colocar em outra prisão.
— Mas ele não me prendeu, mãe. Eu… eu nem conheço ele.
— Exato. E ainda assim ele já decidiu que você é dele. É assim que funciona com homens como ele.
Anne franziu o cenho, assustada.
— Homens como…?
Eva segurou a mão da filha, com força.
— Homens que confundem poder com amor. Que acham que podem mandar nas pessoas como se fossem objetos.
Eu vivi com um assim por dois anos. Achei que aguentaria. Que era só uma fase.
E quase não saí viva.
As palavras caíram pesadas entre elas.
Anne sentiu o estômago embrulhar.
— Eu não quero isso, mãe.
— Então ouve o que eu tô te dizendo. Cuidado.
Não desafia, não provoca… mas também não se entrega.
Você é livre, Anne. E ninguém, nem mesmo um rei de morro, pode decidir o que você sente.
As duas ficaram ali, de mãos dadas. Duas mulheres marcadas por diferentes dores.
Mas agora, uma tentando impedir que a outra fosse ferida da mesma forma.
O sol começava a descer devagar, tingindo o céu de laranja e rosa.
No terraço da casa de Vera, as três estavam sentadas em colchonetes improvisados, com refrigerante em copo de plástico e um pacote de biscoito no meio.
Maju mexia no cabelo com os dedos, nervosa. Gabz estava deitada de lado, encarando o céu.
Anne puxou os joelhos contra o peito, sentindo a brisa bagunçar seus cabelos ruivos.
— Tá todo mundo estranho comigo — soltou, de repente.
As duas olharam.
— Eu percebi — disse Gabz.
Maju hesitou, depois soltou o ar devagar.
— A gente devia ter te contado antes.
— Contado o quê? — Anne franziu a testa.
Gabz sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— O Lord. Ele não é… qualquer um.
— Eu já entendi isso — respondeu Anne. — Mas por quê ele se incomoda comigo? Eu não fiz nada.
Maju mordeu o lábio inferior, escolhendo bem as palavras.
— Você é diferente. É doce, inocente, linda. E ele… ele nunca se interessa por nada que não possa controlar.
Mas você… você não pediu pra estar no radar dele. Só que agora tá.
— Radar? Parece que virei presa.
— Não presa — corrigiu Gabz. — Obsessão. É pior.
Anne sentiu o coração acelerar.
— Mas por quê? Só porque ele me viu uma vez?
— Porque você não abaixou os olhos quando ele apareceu. Porque você não tremeu. E porque, talvez, ele nunca viu alguém tão pura… no meio de tanto caos.
Maju completou:
— E isso, Anne… assusta.
O silêncio se instalou.
Anne olhou para o céu.
— Eu só queria recomeçar. Esquecer o passado.
Mas parece que aqui todo mundo carrega cicatrizes… e quem não tem, vira alvo.
Gabz pegou sua mão.
— A gente tá com você. Não vai passar por isso sozinha.
Maju sorriu, mas havia tristeza no olhar.
— Só… toma cuidado. Meu irmão não é feito de carne como a gente. Ele é feito de pedra.
E pedra quando ama… machuca.