Capítulo 1 — Parede de vidro
Camila ajeitou o vestido cinza diante do espelho do corredor e desejou, em silêncio, que o tecido tivesse brilho. Simples, reto, comprado às pressas. “Discreto é melhor”, dissera a vendedora. Discreto, pensou, era desaparecer.
— Vamos? — a voz de Leonardo cortou o apartamento. Ele estava impecável: terno sob medida, relógio caro, cabelo perfeito. Um homem desenhado para vencer.
— Vamos — respondeu ela, pegando a clutch.
No elevador espelhado, ele digitava no celular. O reflexo de Camila parecia menor do que era.
— Nada de comentários fora de hora — disse, lançando-lhe um olhar crítico. — Da próxima vez, peça ajuda à Paola com a roupa. Ela entende.
Paola. O nome da secretária soava cada vez mais familiar. Camila apenas assentiu.
No saguão, a limousine aguardava. As luzes de São Paulo brilhavam, indiferentes. Leonardo falava de contratos. Camila contava semáforos, como um mantra.
O evento era no último andar do hotel Aurora. Salão de vidro, colunas metálicas, arranjos luxuosos. Assim que entraram, todos se voltaram para ele. Camila ficou dois passos atrás, a esposa invisível.
— Doutor Leonardo, os executivos chegaram — anunciou Paola, em vermelho intenso, batom perfeito. Sorriso gentil demais para não ser calculado.
— Ótimo — disse ele. — Fique por aqui, Camila.
Ela pegou um copo d’água e buscou um canto. Mulheres riam alto, comentando sobre joias e viagens. Uma voz escapou:
— A esposa do Azevedo não se esforça muito, não é?
Camila fingiu não ouvir. Foi até a varanda, respondeu ao celular da família com um “sim” apagado e voltou. Leonardo já discursava ao microfone, seguro, brilhante. Camila aplaudiu junto com os demais, sentindo orgulho e dor ao mesmo tempo.
Na foto oficial, Paola surgiu perto demais. O toque dela no ombro dele passou despercebido para todos — menos para a esposa.
No banheiro, Camila tentou passar batom. Duas convidadas entraram rindo:
— Dizem que a secretária dele é um escândalo... em todos os sentidos.
Riram, até notarem sua presença. — Linda festa, não?
— Linda — respondeu, e saiu antes que as palavras ferissem mais.
No corredor, o celular vibrou. Uma notificação: “Entrega programada 22h — Suite 1207”. Cartão em nome de Leonardo. Em seguida, um e-mail interno: “Confirmado: reunião privada pós-evento. Sala anexa, 23h. P.”
Paola.
O elevador desceu lento. No reflexo, Camila viu o vestido cinza, o batom apagado e os olhos cansados. Mas havia ali uma rachadura, algo novo.
Leonardo mandou mensagem:
“Reunião rápida com a equipe. Volto em meia hora. Não precisa esperar.”
Meia hora. Sempre significava mais. Sempre significava ela.
Camila caminhou até a sala anexa. Pelos vidros jateados, sombras em movimento. Um riso abafado. A cortina fechada. O coração dela também.
Poderia abrir a porta. Poderia enfrentar. Mas não. Não ainda.
No bolso, o cartão da suíte. 1207. Entrega às 22h. Olhou o relógio: 21h58.
Respirou fundo. Decidiu. Se a verdade gosta de ser pontual, ela a encontraria cara a cara.
O elevador subiu. Corredor interminável. Camila parou diante da porta, encostou o cartão. O clique ecoou.
E entrou.