---
Cinco anos haviam se passado desde a perda devastadora de Vinícius, meu falecido noivo. A dor continuava a me assombrar, dia e noite. E para piorar, dois dias após o enterro dele, descobri que estava grávida.
No entanto, tudo se complicou. Eu m*l conseguia suportar tudo o que estava passando, e a dor dessa situação contribuiu para a perda do meu filho. Mesmo que eu nunca tenha tido a chance de conhecer o rostinho dele, a dor era imensa. Uma parte de Vinícius foi com ele, deixando-me sem nada para lembrá-lo, ou para dizer todas as manhãs ao acordar que ele era tão belo quanto o pai.
Deixei Londres e retornei à minha cidade natal, Paris. Estava morando na antiga casa dos meus pais. Apesar de estar um pouco desgastada, com uma boa reforma e uma nova pintura, eu podia deixá-la com uma aparência nova. Não comprei ou aluguei outra casa porque, no momento, estava sem recursos. Estava vivendo na maravilhosa casa que Vinícius havia comprado para nós, mas a entreguei à sua família. Não queria mais viver entre lembranças dolorosas em um lugar onde vivi o mais puro amor e devoção com o homem que foi tão especial para mim.
Agora eu estava aqui, enfiada em um escritório, trabalhando como secretária pessoal do senhor Damon, um homem totalmente chato e insuportável.
— Esses documentos são para você, Sara. O senhor Damon quer que você os assine e os entregue ainda hoje em sua sala — Kate me avisa, enquanto observo a pilha de papéis na minha mesa.
— Onde está a Emma? — pergunto, pois ela era a responsável por assinar esses documentos.
— Ele acabou de colocá-la para fora, dizendo que ela é inútil e burra — Kate responde, enquanto mastiga uma maçã, sentada na quina da minha mesa.
— Incrível. Melhor começarmos logo, antes que nós duas também sejamos postas para fora — aviso, observando Kate sair da minha sala praticamente correndo, e sorrio com o jeito dela.
Kate era uma amiga meio maluquinha que conheci assim que coloquei os pés na empresa. Emma só queria agradar o chefe Damon, que parecia mais um demônio, com aquela expressão sisuda e amarrada.
Pego todos os documentos e começo a assiná-los. Eram tantos que meus dedos doíam bastante. Terminando quase ao meio-dia, reúno todos os papéis e sigo para a sala do Demônio, quer dizer, Damon.
Minha barriga quase estava colada nas costas de tanta fome, mas mesmo assim não faço pausa. Quero terminar logo aquela papelada e sair dali.
Bato na porta do escritório e escuto um "Entre".
Lá está ele, de costas para mim, olhando pela janela de vidro do escritório. Suas mãos estão enfiadas nos bolsos da calça social.
— Senhor, aqui estão todos os documentos assinados — digo, enquanto ele caminha da janela até a sofisticada cadeira de couro. — Há mais alguma coisa? — pergunto.
Ele me olha com um olhar gélido e volta a olhar para os papéis em cima da mesa de vidro.
Eu tinha vontade de dar um tapa na cara dele, apertá-lo pelo pescoço até que ficasse sem ar, só para ver se deixava de ser tão arrogante.
— Estão errados, essa linha aqui — ele aponta com o dedo. — Volte imediatamente à sua sala e revise esse erro — ordena, empurrando todas as cinquenta pastas para que eu as pegasse.
— Desculpe, senhor, mas estou com fome. São quase doze horas e não comi nada, exceto um café que está na minha barriga desde manhã. Se o senhor permitir, eu vou... — paro de falar, pois ele me interrompe.
— Você não escutou, ou quer que eu repita? Quero todos os documentos aqui na minha sala, revisados e corretos — diz, olhando no relógio de pulso. — Quero todos prontos em uma hora.
Minha raiva era notória, e, com a barriga roncando de fome, fiquei com a cara feia, como se tivesse tomado um copo de suco de limão sem açúcar.
— Sim, senhor — pego todas aquelas pastas e saio dali. — Tenha calma, Sara, respire fundo — repito mentalmente até chegar à minha sala.
Kate percebe o quanto estou aborrecida. Imediatamente ela sai do posto dela e entra na minha sala, fechando a porta atrás de si.
— O que aconteceu, amiga? — ela pergunta, parando em minha frente.
— Não me pergunte, Kate. Esse velho ranzinza me odeia e eu nem sei por quê — reclamo. — E o pior não é isso, é a fome. Se eu tivesse comido alguma coisa, daria para aguentar a cara nojenta dele por algumas horas. Acredita que ele nem me deixou ir comer? — digo, revisando a primeira pasta.
— Aqui — Kate me dá uma maçã que estava dentro da bolsa. — Não é um prato de comida, mas dá para enganar a fome até você chegar em casa — rimos juntas.
Kate sai dali e volta para o seu lugar. Eu mergulho novamente nos malditos documentos, revisando e corrigindo os erros que eu não cometi.
— Esse erro só pode ter sido da Emma. Até fora do trabalho essa c****a me prejudica — murmuro. A porta é aberta abruptamente, revelando Kate novamente.
— Amiga, amiga, o filho do chefe Damon está aqui. Você precisa ver, ele é tão lindo, e é solteiro, viu. Todas as mulheres são loucas por ele. Mas uma coisa, ele deve ser da pesada, porque tem um corpo cheio de tatuagens — ela diz toda animada.
— Você não tem jeito, Kate. Como sabe que ele tem tatuagens? Você já o viu pelado? — pergunto, dando atenção a ela.
— Isso não, mas seria a mulher mais feliz do mundo em ver tudo — diz enquanto sorrio dela.
— Você não pode sair falando que uma pessoa é perigosa, só porque tem tatuagens, Kate — aviso voltando ao meu trabalho.
— Mas não sou eu quem diz, algumas amigas me falaram que ele é da pesada. Não vê o pai dele? Tem aquela cara melancólica — diz.
— Tá bom, depois conversamos — aviso, vendo ela sair da sala, dando pulos de alegria.
Volto ao meu digníssimo trabalho. As horas passam rapidamente. Olho no relógio e vejo o quanto já havia ultrapassado o horário em que eu deveria estar em casa. Pego todos os documentos e volto ao escritório.
— Entra — o chefe ordena. Eu entro e coloco todos os documentos novamente em cima da mesa.
Ele deixa de lado o que estava fazendo e dá uma olhada nas pastas.
— Ok! Tá liberada, senhorita Huston — diz. — Quero você aqui cedinho amanhã, teremos uma reunião muito importante — avisa. Eu apenas concordo com a cabeça e saio dali para a sala, pego minhas coisas e vou embora.