O Despertar no Labirinto de Papel

1547 Words
— Lady, acorde, senhorita! Por Deus, a carruagem do Marquês já espera no pátio e o tempo não nos favorece. Eveliny sentiu o corpo pesado, como se estivesse submersa em camadas espessas de neblina. A voz feminina que a chamava possuía um sotaque peculiar, uma cadência melódica e formal que parecia ter sido arrancada diretamente das páginas de um romance de Jane Austen. Por um instante, o desespero de sua rotina no escritório tentou emergir, mas foi sufocado por um silêncio que sua casa na cidade nunca conheceu. Ela imaginou que o livro de Afonso tivesse finalmente dominado seu subconsciente; mergulhar tão fundo em uma história costumava deixar resquícios em seus sonhos. — Lady Eveliny, por favor! O Marquês não tolera atrasos, e receio que a punição recaia sobre todos nós. Vosso pai está impaciente no andar de baixo e o humor dele não é de clemência hoje. Frustrada com aquela voz insistente que se recusava a desaparecer, Eveliny decidiu forçar as pálpebras a se abrirem. O arrependimento foi instantâneo e avassalador assim que a luz filtrada por pesadas cortinas de veludo atingiu seus olhos, revelando um cenário que desafiava toda a sua lógica. Ela não estava em seu sofá. O teto não exibia as rachaduras familiares de sua sala. Acima dela, vigas de madeira escura sustentavam um dossel de seda creme. O quarto era uma cápsula do tempo: móveis de nogueira esculpidos à mão, uma penteadeira com frascos de cristal e o cheiro persistente de lavanda e cera de abelha. Os lençóis que a envolviam eram de um linho tão fino que pareciam flutuar sobre sua pele, exatamente como as descrições que ela tanto admirava na literatura de época. Ao baixar o olhar, viu sua camisola. Era uma peça de algodão branco, casta e longa, com rendas delicadas subindo até o pescoço. Nada nela remetia ao pijama de malha desgastado que vestia antes de dormir. — Que tipo de sonho maluco é esse? — murmurou, a voz saindo rouca e estranha aos seus próprios ouvidos. Ela levou a mão ao cabelo, escondendo uma mecha rebelde atrás da orelha, sentindo a textura real dos fios, o calor da própria pele. — Do que está falando, Milady? — A jovem mulher parada ao pé da cama a encarava com uma mistura de preocupação e urgência. Usava um vestido de chita escuro e uma touca branca engomada. — Precisa se apressar. É uma senhora casada agora, e seu marido não é o tipo de homem que gosta de esperar, muito menos no dia em que deve levá-la para sua nova morada. A naturalidade com que a criada falava era o que mais assustava Eveliny. Não havia a névoa borrada dos sonhos comuns; a nitidez dos detalhes era absoluta. — Em que ano estamos? — Eveliny disparou a pergunta, um último teste para sua sanidade. Talvez, se a resposta fosse um absurdo completo, ela acordaria em seu pequeno apartamento com o despertador tocando. A criada parou, segurando um jarro de porcelana, e a olhou como se Eveliny tivesse perdido a razão. — O que houve com a senhora? O casamento com o Marquês a assustou tanto que até perdeu a noção do tempo? O ano é 1815, senhora. O ano da nossa vitória sobre Bonaparte, como bem sabe. Eveliny sentiu o sangue fugir do rosto, deixando-a lívida. 1815. O auge da Regência. A impossibilidade do fato começou a pesar em seu peito como uma rocha. — Você disse que me casei com um Marquês, certo? — Seu coração começou a martelar contra as costelas, uma batida frenética que ela podia sentir na garganta. — Quem... quem é esse homem? Qual o nome dele? A criada suspirou, aproximando-se para ajudar Eveliny a se levantar. — A senhora realmente parece ter tido um sono profundo demais e acabou perdendo parte de sua memória. Trata-se do Marquês Alaric Thorne. Quando a senhora soube da notícia do contrato, ficou transtornada, chorou por dias... mas agora age como se não se lembrasse do homem que assina suas contas. O nome a atingiu como um raio. Alaric. O cavalheiro desalmado. O personagem secundário que ela desejara salvar com tanta veemência antes de fechar os olhos no mundo moderno. Eveliny estava dentro do livro de Afonso. De alguma forma, seu desejo desesperado rompeu o tecido da realidade, e ela fora arremessada para o centro da tragédia que pretendia reescrever. Recusando-se a aceitar totalmente a situação, ela saltou da cama. Zara, a criada que ela agora reconhecia pelo nome, tentou ajudá-la com o banho, mas Eveliny recuou instintivamente. A ideia de alguém banhá-la como se fosse uma criança era absurda demais para sua mente do século XXI. No entanto, na hora de se vestir, a realidade bateu à porta novamente. O vestido de viagem em tom azul-escuro era composto por tantas camadas, amarrações e um espartilho tão rígido que ela se viu obrigada a ceder. Cada puxão nos cordões do espartilho parecia selar seu destino naquele novo mundo. Assim que os últimos botões foram fechados, Eveliny saiu do quarto, ignorando os apelos de Zara para que usasse um pouco de ** de arroz ou carmim nos lábios. Ela desceu a escadaria de madeira como uma força da natureza, os pés batendo com urgência contra os degraus, em busca de qualquer saída daquele labirinto de anacronismos. No hall de entrada, ela estancou. Dois vultos a aguardavam. Um homem de meia-idade com uma expressão de severidade absoluta e uma mulher que mantinha o queixo erguido, exalando um desprezo que preenchia o ambiente. Eveliny soube imediatamente: eram Lorde e Lady Sterling. Sua "família" naquela ficção. — Não aja como se fosse uma malcriada, menina — o homem sibilou, sua voz era como o ranger de metal enferrujado. — Está indo para a casa do Marquês de Ravenwood. Ele não é qualquer homem; é um herói de guerra com pouco estoque de paciência. Obedeça-o, seja uma esposa silenciosa e não nos cause problemas, ou se arrependerá de ter nascido sob este teto. Eveliny, ainda sob o efeito do choque, sentiu uma faísca de rebeldia que nunca se permitira ter em seu antigo emprego. Se aquilo era um sonho, ela não precisava ser a "boazinha". E se fosse real, ela já não tinha nada a perder. — E por que eu deveria me importar em não causar problemas a vocês? — respondeu ela, o tom seco e direto. O silêncio que se seguiu foi cortante. O rosto de Lady Sterling se transformou em uma máscara de fúria. Antes que Eveliny pudesse reagir, um estalo ecoou pelo hall. O t**a foi seco, pesado e carregado de um ódio antigo. A força do golpe virou o rosto de Eveliny, e o calor da agressão começou a latejar em sua face instantaneamente. — Criamos você, garota imunda, apenas para este momento — a mulher rosnou, aproximando-se até que Eveliny pudesse sentir o cheiro de lavanda rançosa. — Obedeça às nossas ordens e viverá bem na opulência de Ravenwood. Saia agora, antes que eu me arrependa de não lhe dar uma surra que a impeça de caminhar até a carruagem. Eveliny não disse uma palavra. Com a mão pressionada contra o rosto ardente e os olhos marejados por uma mistura de humilhação e dor física, ela atravessou a porta principal. O ar frio da manhã a atingiu, trazendo o cheiro de cavalos e terra úmida. Parada diante da escadaria, estava uma carruagem magnífica, n***a como a noite, com o brasão de um corvo em prata nas portas. Era imponente e assustadora. Um homem alto, de postura impecável e uniforme militar impecavelmente limpo, a aguardava. Ao vê-la, ele retirou o chapéu e curvou o tronco em uma saudação precisa. — Onde está o Marquês? — Eveliny perguntou, tentando manter a voz firme apesar do tremor nas mãos. O cavalheiro levantou o olhar. Ele possuía olhos inteligentes e cicatrizes que falavam de muitas batalhas. — Houve um imprevisto diplomático, Marquesa. O Marquês Alaric não pôde comparecer pessoalmente para escoltá-la. Ele envia suas sinceras desculpas e me designou para garantir sua segurança no trajeto. — Tudo bem — disse Eveliny, suspirando com um misto de alívio e decepção. — Obrigada por vir me buscar. Sem esperar pela assistência dele, ela segurou a saia pesada do vestido e subiu os degraus da carruagem sozinha, fechando a porta atrás de si. Do lado de fora, Silas, o cavalheiro mais leal de Alaric, permaneceu estático por um momento. Em todos os seus anos servindo à alta nobreza, ele nunca vira uma Lady recusar a ajuda de um braço oferecido, e muito menos ouvida um "obrigada" tão genuíno vindo de alguém de sua posição. Silas olhou para a janela da carruagem, sentindo que algo havia mudado. Talvez aquela mulher de olhar triste e face marcada pelo t**a fosse a única alma capaz de enfrentar a tempestade que habitava o coração do Marquês. Enquanto as rodas começavam a girar sobre o cascalho, Eveliny encostou a cabeça no estofado de couro. O desejo dela se realizara, mas o preço começava a ser cobrado. Ela estava em um tempo diferente, cercada por costumes que eram armadilhas e pessoas que a viam como mercadoria. A missão de salvar Alaric Thorne acabara de se tornar a luta por sua própria sobrevivência. O sonho se tornou carne, osso e perigo.
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