O percurso até as terras do Marquês parecia estender-se por uma eternidade de cascalho e poeira. Eveliny suspirava a cada solavanco, seus olhos perdidos na paisagem que corria lá fora, onde o verde das colinas inglesas começava a ser engolido pela névoa do crepúsculo. Ela estava fisicamente esgotada; o peso do espartilho, a tensão dos eventos da manhã e o vazio incômodo em seu estômago formavam uma combinação torturante.
— Ainda falta muito para chegarmos à casa do Marquês? — perguntou ela, a voz carregada de uma esperança quase infantil de que o destino estivesse dobrando a próxima esquina.
Silas, que guiava com a perícia de quem conhece cada centímetro daquela estrada, puxou as rédeas suavemente, fazendo a carruagem parar em um trecho isolado. Ele desceu de sua posição e aproximou-se da janela com uma expressão de preocupação contida.
— Mais duas ou três horas de viagem, senhora Marquesa — respondeu ele com um respeito que parecia mais genuíno do que o habitual. — Precisa de algo?
— Eu não sabia que seria tão longe — confessou Eveliny, pressionando a palma da mão contra o abdômen que já começava a emitir protestos audíveis. — Não consegui comer nada no café da manhã e receio que minhas forças estejam se esvaindo.
Silas franziu o cenho, avaliando o cenário.
— Não há nenhum estabelecimento ou estalagem digna de vossa posição nestas proximidades, senhora.
— Está bem — ela suspirou, recostando-se no estofado com uma resignação melancólica. — Acho que posso suportar por mais algum tempo, já que não há alternativa.
O cavalheiro hesitou. Naquela sociedade, a ideia que cruzava sua mente era quase um insulto; um sacrilégio contra a hierarquia de classes. Mas havia algo no olhar de Eveliny, uma humanidade que ele raramente via nas damas da aristocracia, que o encorajou a quebrar o protocolo.
— Desculpe minha audácia, senhora, mas tenho comigo algumas frutas, um pedaço de pão rústico e talvez um pouco de carne fria que preparei para o trajeto. Sei que não deveria oferecer a refeição de um simples cavalheiro a uma Marquesa, mas como estais com tanta fome... — Ele esperou o golpe. Esperou o olhar de escárnio, o desprezo gélido ou a reprimenda por sua presunção.
Em vez disso, os olhos de Eveliny se iluminaram.
— Mas você não sentirá fome se oferecer sua refeição para mim, Silas? — A pergunta dele não continha arrogância, mas uma preocupação direta que o deixou desarmado.
— Sou apenas um homem de serviço, senhora. Não se preocupe comigo — respondeu ele, retirando de sob o banco uma trouxa de pano impecavelmente limpa. — É uma comida simples, longe dos banquetes a que estais acostumada, mas matará vossa fome.
— Muito obrigada, Silas. De verdade — disse ela, aceitando o pacote com uma gratidão que o fez corar sob a pele curtida pelo sol. — Podemos seguir viagem enquanto eu como.
Silas assentiu e retomou seu lugar, ainda perturbado. Em todos os seus anos de serviço, nunca vira uma mulher de título tratar um subordinado com tamanha paridade. Enquanto a carruagem voltava a se mover, Eveliny saboreava o pão rústico com uma satisfação que nenhum restaurante caro de sua vida anterior jamais lhe proporcionou.
Quando a carruagem finalmente atravessou os portões de ferro forjado e parou diante da imponente arquitetura de Ravenwood Hall, Eveliny sentiu o fôlego escapar. Era uma estrutura de pedra cinzenta, gótica e majestosa, que parecia brotar da própria terra com uma autoridade ancestral. Se aquilo era um sonho, sua mente estava criando detalhes complexos demais para serem ignorados.
Sem esperar que Silas desse a volta para abrir a porta, ela mesma girou a maçaneta e desceu, saltando para o chão antes mesmo que o mordomo-chefe, posicionado rigidamente à entrada, pudesse intervir. Uma fileira de empregados, organizados por altura e função, a aguardava em silêncio absoluto. Todos estancaram, os olhos arregalados diante da visão da Marquesa descendo sem auxílio, como uma mulher comum.
— Seja bem-vinda a seu novo lar, Marquesa — saudaram em uníssono, curvando-se em uma coreografia de respeito que parecia ensaiada há séculos.
Eveliny sorriu, e foi um sorriso verdadeiro, que iluminou seu rosto cansado. Pela primeira vez na vida, sentiu-se não apenas vista, mas acolhida. Mesmo que fosse um papel em um teatro de sombras, a sensação de pertencimento era inebriante.
— Obrigada a todos vocês — respondeu ela, a voz clara e doce. — É maravilhoso ser recebida com tanto cuidado. Espero ser uma boa Marquesa para vocês e não decepcionar tamanha recepção.
Um silêncio chocado caiu sobre os criados. Eles trocaram olhares rápidos; nunca uma senhora daquela casa havia se dirigido a eles com tamanha humildade e reconhecimento. Eveliny, ignorando a estupefação que causara, caminhou para dentro, sendo guiada pelo mordomo através de corredores adornados com armaduras reluzentes e tapeçarias que contavam histórias de glórias passadas.
Ao ser instalada em seus aposentos, percebeu que aquele seria apenas seu quarto. Não havia uma cama de casal imensa, mas sim uma suíte feminina requintada. A descoberta trouxe um alívio imediato, seguido por uma pontada de decepção que ela não soube explicar.
— O jantar será servido em algumas horas, senhora — informou o mordomo. — Pode descansar e tomar um banho enquanto isso. Irei enviar vossa criada imediatamente.
— Não há necessidade de ajuda para o banho — interrompeu Eveliny com firmeza. — Eu me banharei sozinha. Mande-a vir apenas para me ajudar com o vestido mais tarde; estas peças são um enigma para mim.
O mordomo franziu o cenho, mas curvou-se e saiu. Eveliny mergulhou na água quente de uma banheira de cobre, sentindo a tensão dos séculos deixar seus músculos. Logo depois, Abigail, uma jovem de olhar atento e mãos ágeis, entrou para ajudá-la.
— Onde está o Marquês, Abigail? — perguntou Eveliny enquanto a criada ajustava as fitas de um vestido de seda em tom de vinho, o mais leve que encontraram no guarda-roupa.
— Resolvendo assuntos urgentes em seu escritório, senhora — respondeu Abigail, o tom de voz cuidadoso, quase temeroso. — Ele estará presente no jantar.
— Obrigada, Abigail. Vou explorar um pouco a casa antes disso — anunciou Eveliny, saindo do quarto antes que a criada pudesse avisá-la sobre os protocolos de circulação na mansão.
Eveliny percorreu os corredores com um brilho de curiosidade nos olhos. Cada detalhe que via, o entalhe nas portas, o brilho das velas nos candelabros de prata, superava em muito as descrições do livro de Afonso. A realidade era tátil, vibrante e ligeiramente assustadora.
Ao dobrar um corredor mais silencioso, ela encontrou uma porta entreaberta. Uma força invisível, uma atração que transcendia a lógica, a impulsionou a empurrá-la suavemente. O ambiente lá dentro era tomado por estantes de livros que subiam até o teto e o cheiro inconfundível de tabaco e papel antigo.
Sentado atrás de uma mesa maciça, estava ele.
Alaric Thorne tinha o olhar tão denso e sombrio que parecia absorver a luz da sala. Seus ombros estavam curvados sob o peso de uma farda escura, e a fadiga em seu rosto era tão evidente que Eveliny sentiu um aperto imediato no peito. Era o mesmo cansaço que ela sentia ao final de seus dias de exploração no escritório; um esgotamento que ia além do físico, atingindo a alma.
Mas, sob a exaustão, havia uma beleza devastadora. Os olhos castanhos, profundos como abismos, encontraram os dela. O cabelo estava levemente bagunçado, e a postura, embora cansada, mantinha uma dignidade ferocidade. Ele era o herói trágico de suas leituras, o homem por quem ela chorara, agora transformado em carne e osso diante de seus olhos.
O tempo pareceu congelar. Nenhum deles emitiu um som. Apenas o ritmo das respirações quebrava o silêncio do escritório. Naquele momento, enquanto as sombras das chamas da lareira dançavam no rosto de Alaric, Eveliny teve a certeza absoluta: aquilo não era um sonho. Era o encontro de dois destinos que o universo, em sua estranha justiça, decidira finalmente entrelaçar.