Orgulho do Marquês

1978 Words
Eveliny encontrava-se em seus aposentos particulares, encarando com uma pitada de desespero a suntuosa seleção de trajes que sua criada pessoal havia separado sobre a cama de casal. Naquela tarde, ela tinha um compromisso inadiável: um tradicional chá da tarde da alta sociedade. Por mais que estivesse com os nervos à flor da pele e uma ansiedade incômoda lhe apertasse o estômago, ela sabia que precisava comparecer. No fundo, sua mente de leitora do século XXI nutria uma curiosidade genuína; queria descobrir, com os próprios olhos, como funcionava aquele evento social tão detalhado, glamorizado e bem falado nos livros de romance de época que devorava em sua antiga vida. O convite formal, escrito em caligrafia rebuscada sobre um papel de alta gramatura, havia chegado a Ravenwood Hall exatamente uma semana antes. Eveliny pensou seriamente em recusar a convocação, arquitetando mentalmente diversas desculpas plausíveis, desde uma enxaqueca súbita até indisposições fictícias. Contudo, o convite fora enviado pessoalmente por uma influente baronesa da província. Ela compreendia o suficiente da etiqueta da Regência para saber que sua ausência injustificada seria interpretada como uma afronta deliberada, uma desfeita imperdoável à anfitriã. Na posição em que estava, não podia dar-se ao luxo de iniciar uma guerra política com a nobreza local; recusar estava fora de cogitação. Depois de tomar um longo banho e submeter-se ao tortuoso processo de vestir as várias e sufocantes camadas de roupas — que incluíam espartilho rígido, anáguas estruturadas e um pesado vestido de passeio de seda —, Eveliny finalmente saiu do quarto. Ela caminhava pelos corredores segurando levemente as laterais da saia volumosa, sentindo-se extremamente receosa de tropeçar nos próprios passos, já que era assumidamente desajeitada com aqueles trajes anacrônicos. Para sua surpresa, Alaric a encontrou no salão principal da mansão. Ele parou abruptamente ao pé da escadaria e a olhou com extrema cautela, prestando atenção em cada detalhe de sua silhueta, fixando as pupilas nela como se estivesse apreciando uma grandiosa e rara obra de arte exposta em um museu. — Está deveras encantadora, Senhora Marquesa — Alaric proferiu, a voz grave ecoando pelo salão com uma suavidade inédita. — Tão bela e radiante quanto o sol brilhante deste início de tarde. Eveliny não conseguiu formular uma resposta verbal imediata. Diante da intensidade do olhar dele, seu coração errou uma batida inteira dentro do peito, e o elogio inesperado do Marquês fez com que ela soltasse um suspiro audível, sentindo as bochechas corarem sob o ** de arroz. — Fico profundamente grata pelo elogio do Senhor Marquês — respondeu ela, recuperando a postura e a voz. — Mas, para ser sincera, não estou nem um pouco confortável. Preferia mil vezes ficar aqui em casa, vestindo um de meus trajes mais leves, lendo um bom livro na biblioteca e, talvez, passear sem rumo pelo seu jardim. No entanto, sei que não posso simplesmente recusar o convite de hoje. Seu desabafo final veio acompanhado de um suspiro carregado de indignação. Alaric, com seu olhar aguçado, notou imediatamente o brilho de repulsa nos olhos dela; ficou claro que a ideia de passar a tarde jogando conversa fora com outras mulheres da aristocracia não lhe agradava em nada. — Poderia recusar no mesmo instante se assim quisesse, Marquesa — Alaric rebateu com firmeza, dando um passo em sua direção. — Sou um homem a quem todos neste reino temem, e posso lhe garantir que ninguém ousaria tecer comentários maldosos sobre a minha esposa se decidir ficar. Tenha uma ótima tarde de chá. O nobre fez uma breve e impecável reverência formal, pronto para dar as costas e retirar-se para seus afazeres, mas parou no último degrau. Ele virou-se lentamente e sustentou o olhar diretamente nos olhos dela antes de concluir: — E, aliás... esta mansão é sua, Marquesa. Inclusive o jardim, as terras e todas as propriedades que atualmente estejam registradas em meu nome. Não se refira a todo o meu patrimônio como se fosse apenas meu. É nosso. Eveliny permaneceu estática no meio do salão principal, envolta em um silêncio absoluto. Ela tentava processar a gravidade e a profundidade daquelas palavras; o que Alaric acabara de dizer soara para ela como uma verdadeira e intensa declaração de devoção. Ele estava entregando o controle de seu mundo a ela. Uma hora mais tarde, a carruagem de Ravenwood cruzava os portões de ferro da propriedade vizinha. Assim que o lacaio abriu a porta e ela desceu do veículo, Eveliny sorriu encantada por um breve segundo com a belíssima ornamentação floral que decorava a entrada principal. Seguindo as orientações dos empregados, ela foi conduzida até a suntuosa estufa de vidro nos fundos da residência, o local exato escolhido para abrigar o chá da tarde. Ao cruzar o umbral do ambiente, contudo, o encanto se desfez. O local já estava povoado por várias damas da alta sociedade e, pelos olhares gélidos e hostis que recebeu instantaneamente, Eveliny sentiu no mesmo segundo que não era nem um pouco bem-vinda ali. — Boa tarde, Senhora Marquesa. É um prazer incomensurável recebê-la finalmente em minha humilde propriedade — a Baronesa Mary aproximou-se, ostentando um sorriso que tentava parecer amigável, mas que era falso e plástico demais para enganar os olhos atentos de Eveliny. Ela sabia reconhecer a falsidade à distância. — Obrigada pelo convite, Baronesa — Eveliny respondeu com polidez cortante. Ela caminhou até o arranjo de mesas e sentou-se em uma das cadeiras de ferro batido dispostas no local. No mesmo instante em que se acomodou, praguejou mentalmente; o assento era terrivelmente desconfortável. Percebeu, com uma ponta de ironia, que preferia estar afundada em uma poltrona macia de Ravenwood ou até mesmo sentada diretamente no chão de terra, contanto que não precisasse apoiar-se naquela estrutura rígida. As mulheres ao redor ignoraram sua chegada após as saudações protocolares e continuaram conversando animadamente entre si, destilando sussurros e risinhos abafados. Eveliny não se importou com o isolamento; manteve-se solitária e altiva, aproveitando o tempo para observar as espécies de plantas exóticas que decoravam a estufa. Sem esperar que alguém fizesse as honras, ela estendeu a mão com naturalidade, serviu-se de uma xícara de chá preto e apossou-se de alguns biscoitos amanteigados que estavam dispostos em um prato de porcelana sobre a mesa central. O silêncio caiu como uma bomba no círculo de mulheres. Todas as nobres passaram a encarar Eveliny como se ela fosse uma criatura bizarra de outro planeta. Na etiqueta rígida daquela época, nenhuma mulher detentora de um título tão alto quanto o de Marquesa se dignaria a servir a própria comida ou bebida, havendo cinco criadas fardadas dispostas em cada canto da sala prontas para executar a tarefa. Eveliny, contudo, ignorou solenemente os olhares de desaprovação; já sabia que o ambiente era hostil e não faria o menor esforço para fingir que gostava daquela hipocrisia generalizada. Ela continuou a tomar seu chá com uma postura impecável, ignorando as convenções absurdas. — Como vai o andamento de seu casamento com o Marquês, Lady? — a pergunta da Baronesa Mary cortou o tilintar das louças, vinda acompanhada de um olhar puro de julgamento e deboche disfarçado. — Perdoe-me, mas não creio ter compreendido o real sentido dessa sua pergunta, Baronesa — Eveliny respondeu, exibindo um sorriso gentil que não vacilou. — Ora, seja sincera conosco, Marquesa — a Baronesa insistiu, inclinando-se para a frente enquanto o veneno parecia escorrer visivelmente pelos cantos de seus lábios perfeitamente pintados. — O Marquês de Ravenwood é conhecido em todo o continente como um homem frio, calculista e implacável. Ele mata a sangue-frio nos campos e tortura os inimigos da Coroa sem demonstrar o menor remorso. Um homem com esse tipo de índole violenta dentro de um matrimônio deve ser um verdadeiro pesadelo. A senhora não parece feliz ou minimamente confortável ao lado dele. Diga-nos, ele a maltrata fisicamente ou a obriga a permanecer trancada no quarto durante o dia inteiro? A Baronesa fora direta e c***l em sua inquisição. Eveliny manteve a calma; ela lidara com chefes abusivos e cobras corporativas todos os dias no mercado de trabalho do mundo moderno, e o joguinho daquela nobre era fichinha perto do que já enfrentara. — De fato, ouvimos relatos contundentes de que a senhora detestou a ideia desse casamento desde o início — uma das outras damas na mesa proferiu, tentando encurralar Eveliny e fazê-la passar por uma humilhação pública diante das testemunhas. — E nós compreendemos perfeitamente o seu sofrimento. Ele é um monstro desalmado, dá para ver de longe que ele sente prazer em manter o controle absoluto através do medo. A senhora parece tão frágil... Acha mesmo que será capaz de aguentar os caprichos de uma b***a como ele por muito mais tempo? As mulheres sorriram, esperando ver lágrimas ou uma confissão de fraqueza da recém-casada. Mas elas não conseguiram o que queriam. Tudo o que Eveliny sentia crescendo dentro de seu peito naquele instante era uma irritação profunda e avassaladora. Sabia que deveria ter seguido seu instinto inicial e recusado o convite da Baronesa; não deveria ter pisado em um ninho de cobras que distribuíam seu veneno gratuito sem o menor remorso humano. Ela colocou a xícara de porcelana sobre o pires com um som firme e seco, quebrando a zombaria da sala. — Desculpem-me, senhoras, mas não acho, sob hipótese alguma, que a minha vida íntima ou o meu casamento com o Marquês sejam assuntos de vosso interesse ou competência — Eveliny disparou, a voz saindo alta, firme e cortante como uma navalha. — A partir de hoje, eu espero e exijo que nenhuma de vós ouse usar o nome de meu marido para espalhar mentiras infundadas pelos salões. Alaric Thorne é um Marquês da Coroa, e inventar esse tipo de calúnia difamatória contra um homem de sua estirpe pode causar grandes transtornos legais e políticos para as vossas respectivas famílias. Deveriam evitar essa audácia. Estão terminantemente proibidas de distribuir o vosso veneno na minha presença. Eveliny levantou-se da cadeira de ferro com movimentos fluidos e imponentes. — Eu realmente deveria ter recusado o seu convite, Baronesa. Mas agradeço pelo chá; os biscoitos estavam, de fato, deliciosos. Com a postura perfeitamente ereta, a cabeça erguida e sem carregar o menor traço de arrependimento, Eveliny deu as costas e saiu da estufa de vidro, deixando um rastro de mulheres chocadas e boquiabertas para trás. Ela odiava a superficialidade daquelas pessoas e o modo asqueroso como julgavam Alaric simplesmente por ele ter seguido as ordens brutas do Rei para proteger o país. As pessoas daquela província não estavam minimamente preocupadas em compreender o sofrimento ou o fardo que existia por trás do guerreiro que protegia uma nação inteira; o homem que arriscava a própria vida nas fronteiras para manter todos aqueles aristocratas salvos e confortáveis. Eveliny sentia um desprezo profundo por aquela mentalidade da época, onde todos se importavam mais com títulos vazios e riquezas do que com o caráter de uma pessoa. Enquanto Eveliny entrava na carruagem com o coração apertado e a mente em polvorosa, a quilômetros dali, dentro do escritório de Ravenwood Hall, Alaric recebia um relato detalhado e imediato de tudo o que havia acabado de acontecer no chá da tarde da Baronesa Mary, trazido por um de seus informantes disfarçados. Ao ouvir as palavras exatas que sua esposa usara para calar a boca da nobreza e a fúria com que ela defendera sua honra diante das fofoqueiras, o Marquês sentiu uma sensação inédita e avassaladora dominar seu peito. Seu coração místico e calejado se aqueceu de uma forma que ele nunca experimentara em toda a sua existência. Pela primeira vez na vida, desde que assumira o fardo de sua maldição e o peso das guerras, alguém havia se levantado publicamente para defendê-lo do mundo. Alguém olhara além do "monstro desalmado" para enxergar o homem. E aquela defesa pura e feroz nunca havia acontecido antes da chegada de sua enigmática e extraordinária Marquesa.
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