Após terminar de organizar de forma impecável os complexos documentos e entregar os precisos resultados estruturados a Alaric, Eveliny continuou ali sentada na poltrona da biblioteca. Ela buscou um novo volume nas prateleiras organizadas e passou a ler atentamente, mergulhando nas páginas, enquanto o Marquês, em absoluto silêncio, analisava cuidadosamente cada linha escrita por ela na folha de papel. A mente estratégica de Alaric trabalhava rápido. Ao cruzar os dados da planilha que ela desenhara com os Livros de Razão, ele notou que um de seus funcionários de confiança cobrava dos camponeses um valor consideravelmente mais alto do que o que era formalmente estipulado nos contratos, e essa fatia excedente de dinheiro nunca chegou às suas mãos. Aquela fraude silenciosa acontecia há meses bem debaixo de seu nariz, mas, como o nobre nunca dispunha de tempo livre para resolver os pormenores administrativos devido às urgências da Coroa, acabou adiando a auditoria de alguma forma. A clareza matemática daquela mulher havia exposto o crime instantaneamente.
Silas apareceu na entrada da biblioteca alguns minutos depois. Trajava suas botas de montaria empoeiradas e mantinha a expressão impassível de sempre, com feições quase totalmente fechadas e austeras. Eveliny ergueu os olhos do livro por um breve segundo e percebeu, de imediato, que o cavaleiro mais próximo e leal do Marquês era profundamente parecido com ele no quesito frieza e postura militar. Havia uma rigidez compartilhada entre os dois homens.
— Preciso resolver algumas pendências administrativas agora, Marquesa. Obrigado pela ajuda inestimável com estes números — Alaric proferiu, levantando-se e recolhendo os papéis com uma solenidade nova.
Eveliny apenas sorriu de canto, observando em silêncio a figura imponente de Alaric sair da biblioteca com passos firmes, enquanto Silas vinha logo atrás, acompanhando-o como uma sombra fiel. O magnetismo entre o casal parecia deixar um rastro de eletricidade no ar.
Os dois homens seguiram em passos rápidos pelo corredor de pedra até o escritório particular do Marquês, um aposento blindado contra ouvidos curiosos. Alaric fechou a porta pesada e sentou-se em sua cadeira de carvalho, cruzando os dedos sobre a mesa e esperando pelo relatório detalhado das informações confidenciais que havia exigido que Silas buscasse na província dos Stirling. Por outro lado, seu cavaleiro mais fiel demonstrava um claro receio em sua postura habitualmente firme. Silas não sabia direito como jogar todas aquelas informações bizarras e desconexas em cima do Marquês; ele próprio, durante a viagem de retorno, não conseguira alcançar uma noção exata ou puramente lógica do que as testemunhas haviam relatado sobre os últimos dias da jovem nobre.
— Qual é o real problema, Silas? — Alaric questionou, estreitando os olhos ao notar o travamento do amigo. — Você não parece nem um pouco confortável em me repassar as informações que pedi com tanta urgência.
Era visível e gritante a apreensão nos ombros de Silas. Alaric, acostumado a ler a linguagem corporal de seus soldados nas frentes de batalha, sabia perfeitamente como observar o desconforto de seus cavaleiros.
— Senhor Marquês... procurei cada registro e interroguei cada fonte que o senhor me ordenou, mas receio sinceramente que as explicações obtidas sejam um pouco complicadas de se digerir pela razão humana — Silas confessou, a voz saindo mais baixa.
O cavaleiro parou por um instante, hesitando, e colocou alguns papéis de textura áspera em cima da mesa. Havia anotado de forma superficial e direta todas as informações perturbadoras que conseguira extrair dos criados da propriedade Stirling.
— Eu descobri, através de depoimentos unânimes, que a Senhora Marquesa, na verdade, era descrita por todos como uma jovem moça extremamente mesquinha, fútil e egocêntrica — Silas começou a relatar, medindo o peso de cada palavra. — Ela não possuía a menor noção de organização, detestava livros ou qualquer tipo de estudo, era historicamente hostil e violenta com os criados da casa e, quando algo não saía exatamente como ela esperava, ela simplesmente agredia as criadas com puxões de cabelo e insultos degradantes.
Silas deu uma pausa dramática para observar o impacto de suas palavras. Alaric permaneceu imóvel, lendo com atenção redobrada os apontamentos que o cavaleiro trouxera, comparando mentalmente aquela descrição monstruosa com a mulher doce e justa que fizera bolos para os empregados e organizara a biblioteca com as próprias mãos. Aquela conta simplesmente não fechava.
— Há algo mais, Silas? — Alaric instou, a voz grave e calma, embora uma tempestade interna estivesse começando a se formar. — Algum acontecimento específico de última hora que possa explicar o motivo de a Marquesa estar agindo de forma tão radicalmente diferente agora?
Alaric esperou pacientemente pela explicação mística que seu instinto dizia estar oculta ali. Silas respirou fundo antes de revelar o ponto central de sua investigação.
— A Marquesa, no limite de seu desespero contra o matrimônio, tomou uma infusão altamente concentrada de acônito na noite anterior à viagem — o cavaleiro disparou.
O silêncio fúnebre instalou-se no escritório enquanto o Marquês ficava visivelmente perplexo, as mãos congelando sobre a mesa. O acônito era um tipo de e**a venenosa extremamente letal, uma toxina violenta capaz de paralisar o sistema nervoso e m***r até mesmo o guerreiro mais forte e robusto de qualquer reino em questão de minutos. Alaric se perguntava, em um turbilhão de dúvidas, como alguém que havia ingerido voluntariamente uma infusão de ervas tão fortes e perigosas continuava viva, respirando e, acima de tudo, agindo com uma personalidade totalmente oposta à de quem era originalmente.
— Segundo as informações precisas que obtive diretamente da criada pessoal da Senhora Marquesa, o médico da província a socorreu às pressas no meio da madrugada, mas, depois de alguns minutos de convulsões e falta de pulso, ele formalmente a tinha dado como morta. O coração dela havia parado — Silas detalhou, aproximando-se da mesa. — Mas então, de forma inexplicável para a medicina, ela puxou o ar com violência e acordou. A criada relatou que, no instante em que abriu os olhos, a moça olhou ao redor de forma completamente perdida e assustada, como se estivesse perplexa e horrorizada com as pessoas ao seu redor e com o próprio quarto. Logo depois ela desmaiou novamente devido à fraqueza, mas estava com vida estável. No dia seguinte, viajou para cá sem reclamar.
Aquelas informações eram complicadas, complexas e profundas demais para um entendimento rápido ou puramente racional. Alaric sabia que havia algo mais ali, uma engrenagem oculta e sobrenatural que não fazia sentido no mundo físico. Como uma mulher fútil e Hostil acordaria de um envenenamento mortal convertida em uma alma compassiva e dotada de conhecimentos matemáticos avançados? Era quase impossível que alguém sobrevivesse àquela dose de acônito, e o fato de ela ter sido dada como morta para ressurgir minutos depois com outra essência indicava que a mecânica da vida ali fora alterada. Havia uma explicação mística por trás daquele milagre, e Alaric sentia isso na pele. Se Silas não havia encontrado a resposta nos fatos cotidianos, era o tipo de segredo que ele precisaria buscar e desvendar sozinho.
— Silas, há algo que demonstre explicitamente a escrita dela? Uma carta antiga, um diário, qualquer pedaço de papel que ela tenha assinado antes do incidente? — Alaric perguntou, erguendo os olhos com urgência.
— Eu trouxe uma carta original comigo, Senhor. Achei que sua mente militar pediria algo exatamente assim para confrontar os fatos — Silas respondeu, retirando um envelope lacrado do bolso interno do casaco e entregando-o ao líder.
Alaric abriu o papel com extremo cuidado, desdobrando-o sobre a mesa. Era a carta manuscrita que a verdadeira Eveliny Stirling havia enviado secretamente a uma mulher da vila com conhecimentos em botânica oculta, exigindo estritamente que as ervas venenosas fossem enviadas o mais rápido possível para os seus aposentos. Alaric não precisou de mais do que alguns segundos de análise visual. A caligrafia daquela carta antiga era cheia de floreios dramáticos, trêmula e desordenada, completamente diferente dos traços firmes, limpos e metódicos da planilha financeira que a esposa acabara de desenhar para ele na biblioteca. Eram duas escritas totalmente distintas pertencentes ao mesmo corpo. O mistério continuava crescendo e ganhando contornos sobrenaturais quanto mais ele cavava em busca de dados. Tudo aquilo era confuso e extraordinário demais, e de alguma forma instintiva, Alaric sentia dentro do peito que aquela mudança drástica tinha alguma ligação direta com a sua própria maldição ancestral e o sangue dos Guardiões que corria em suas veias.
— A Senhora Marquesa claramente odiava a ideia do casamento contratual com vossa linhagem, por isso tentou o suicídio — Silas resumiu, cruzando os braços. — Os pais se desesperaram e chamaram o melhor médico da região, mas, como ela foi dada como clinicamente morta, a ciência não adiantou muito. Não consegui obter nenhuma explicação lógica sobre a motivação ou a força que a fez voltar à vida logo após morrer.
Aquele era o melhor e mais astuto cavaleiro que possuía, e Alaric sabia que ele havia feito uma busca exaustiva antes de lhe oferecer aquelas respostas.
— O que é genuinamente intrigante, Silas... porque agora parece que ela quer, mais do que tudo, que esse casamento se torne real e funcional — Alaric ponderou em voz alta, os olhos fixos na caligrafia da carta. — Ou ela é uma atriz que finge com uma perfeição sobre-humana, ou sua alma e personalidade mudaram da noite para o dia sem nenhuma explicação terrena.
Silas e os funcionários de alto escalão da mansão eram os únicos que sabiam que o casamento de Alaric e Eveliny fora firmado apenas como um acordo contratual de aparências. O plano original previa que eles apenas precisariam coexistir temporariamente e gerar um herdeiro legítimo para manter a farsa perante a Coroa e, assim, continuar com uma união de fachada. No entanto, ver a Marquesa se esforçando ativamente na rotina, limpando espaços e gerenciando finanças para que a estrutura da casa desse certo não era algo que os criados ou o próprio Alaric esperavam. Aquilo os deixava em constante estado de choque e admiração. A confusão era o sentimento soberano que passara a reinar naquela mansão desde a chegada de Eveliny.
O mais próximo de um amigo real que Alaric possuía naquele mundo hostil era Silas, e ele era o único indivíduo, além da própria família Thorne, que conhecia a fundo a terrível maldição do sangue místico que o assolava desde a guerra. O cavaleiro entendia perfeitamente a necessidade de o Marquês estar casado com uma Stirling para buscar estabilidade, mas também sabia que o plano falharia miseravelmente se, ao invés de tentar uma aproximação para desvendar o milagre, o Marquês decidisse se afastar dela por medo ou desconfiança.
— Devo retornar à província e procurar por mais informações que sejam relevantes sobre o passado da Senhora Marquesa? — Silas perguntou, esperando por uma nova diretriz.
Alaric permaneceu em silêncio por longos momentos, refletindo mentalmente sobre a planilha perfeita na mesa e o toque suave que recebera dela.
— Não, Silas. Acho que a razão humana não conseguirá descobrir mais nada através de investigações comuns. De qualquer forma, você conseguiu exatamente o que eu desejava e confirmou minhas suspeitas. Fez um excelente trabalho.
— Obrigado, Senhor. Com sua licença — o cavaleiro pronunciou.
Silas saiu do escritório logo após fazer uma breve e respeitosa reverência militar, e Alaric continuou imerso no mais profundo silêncio da sala, ouvindo apenas o som compassado de sua própria respiração. O Marquês não conseguia compreender a totalidade de seus sentimentos agora; a desconfiança inicial havia se transformado em um fascínio absoluto e protetor. Seu único e soberano objetivo agora mudara: ele precisava manter Eveliny segura de tudo e de todos, mesmo sem saber de qual mundo ou dimensão ela viera. Restava apenas saber o que o implacável Marquês estava disposto a arriscar e sacrificar para manter sua misteriosa esposa a salvo de qualquer perigo.