O Aroma da Mudança

1366 Words
As ruas cinzentas do mundo moderno estendiam-se diante de Eveliny como uma miragem fria. O asfalto úmido, o som estridente das buzinas e o fluxo interminável de pessoas apressadas em direção ao trabalho, a vida que ela sempre conheceu estava ali, ao alcance da mão. No entanto, o alívio que ela imaginou que sentiria ao vislumbrar sua antiga realidade não veio. Em seu lugar, uma decepção profunda e uma tristeza avassaladora inundaram seu peito. Ela não queria voltar. O pensamento de abandonar a missão de salvar Alaric, de deixar para trás as pessoas que, embora desconhecidas, a haviam recebido com uma dignidade que ela nunca experimentou no século XXI, era insuportável. Em um desespero que não cabia em sua alma, Eveliny forçou os olhos a se abrirem, lutando contra o puxão do vazio. Sua respiração estava descompassada e uma fina camada de suor frio percorria seu rosto. O coração martelava contra as costelas, mas, ao olhar ao redor, o pânico transformou-se em uma paz absoluta. As vigas de madeira escura, o dossel de seda e o silêncio majestoso da Regência ainda estavam lá. Ela ainda estava dentro do livro. Não foi apenas um sonho passageiro; ela ainda tinha a chance de reescrever o destino. O sono, porém, havia escapado por entre seus dedos. O relógio de pêndulo no corredor indicava que a madrugada ainda reinava, mas Eveliny sentia uma energia elétrica percorrendo suas veias. Ela se levantou e tomou banho com a água gelada que encontrou na bacia de porcelana. O choque térmico dispersou qualquer resquício de cansaço, deixando sua mente afiada e decidida. Em vez das sedas pesadas e elaboradas, Eveliny vasculhou o baú até encontrar um vestido de algodão simples, de um tom azul desbotado, muito mais parecido com as vestes das mulheres do povo. Amarrou um lenço bonito no cabelo para prender as mechas rebeldes e saiu do quarto nas pontas dos pés, deslizando pelas sombras da mansão como um fantasma benevolente. Seu destino era a cozinha. No século XXI, cozinhar era sua terapia; agora, seria sua ferramenta de conexão. Ela se lembrava vividamente dos detalhes que Afonso escrevera no livro: Alaric Thorne detestava doces. O "Cavalheiro Desalmado" possuía um paladar austero, moldado pelas rações amargas da guerra, e o açúcar excessivo dos banquetes nobres lhe causava náuseas. Com mãos ágeis e uma memória focada, Eveliny começou a trabalhar. Ela acendeu o fogão a lenha com certa dificuldade, mas logo as chamas dançavam sob as chapas de ferro. Usando os recursos limitados da época, ela adaptou uma receita de bolo de ervas e especiarias, substituindo o açúcar pesado por uma leve infusão de mel e raspas de frutas cítricas, garantindo uma massa aerada e sutil. Enquanto os bolos assavam, ela se dedicou aos pães, sovando a massa com uma determinação que fazia a farinha flutuar no ar como ** de fada. Ela preparou uma fornada considerável, pretendendo que cada alma naquela casa, do Marquês ao lacaio mais humilde, sentisse o calor daquela manhã. Quando estava finalizando os últimos detalhes, o mordomo apareceu à porta da cozinha, seguido por um grupo de criadas. A cena que encontraram era digna de um quadro surrealista: a Marquesa de Ravenwood, com manchas de farinha nas bochechas e um avental improvisado, retirando pães dourados do forno com um sorriso radiante. — Bom dia, pessoal! Dormiram bem? — saudou ela, a voz vibrando de alegria. O silêncio foi imediato. Xavier, o mordomo, e as criadas ficaram estáticos, as bocas entreabertas. Ver uma nobre naquela posição era mais do que uma quebra de protocolo; era um evento sísmico. — Espero que não se importem por eu ter bagunçado a cozinha de vocês — continuou Eveliny, limpando as mãos no avental. — Vou organizar tudo em um segundo, prometo. — Não se preocupe, Marquesa... nós podemos... nós devemos limpar — gaguejou Xavier, tentando recuperar a compostura diante daquela visão impossível. — De forma alguma, Xavier. Eu ajudo. E, aliás, adoraria conhecer o nome de cada um de vocês. Enquanto organizavam o caos de farinha e tigelas, Eveliny transformou a cozinha em um espaço de confidências. Descobriu que as cozinheiras se chamavam Coline, Bendita, Diana e Sabrina; e as criadas que a ajudavam na limpeza eram Felipa e Marília. No início, elas respondiam com monossílabos temerosos, mas a risada contagiante de Eveliny e o modo como ela as ouvia, como se cada palavra delas fosse importante, quebraram o gelo secular. Logo, o ambiente estava preenchido por risadas e conversas animadas, algo que as paredes de pedra de Ravenwood Hall não ouviam há décadas. Com a cozinha brilhando, Eveliny insistiu em ajudar a servir a mesa. Ela escolheu a toalha de linho mais bonita e colheu um pequeno jarro de flores campestres para o centro, trazendo um pedaço do jardim para dentro da sala de jantar. Xavier observava tudo com o coração aquecido. Aquela não era mais uma mansão de sombras; era, pela primeira vez, um lar. Quando Alaric acordou, ele sentiu a mudança antes mesmo de abrir os olhos. O ar parecia mais leve, carregado com um aroma doce e terroso de pão recém-assado. Ao caminhar pelos corredores, notou que os empregados o cumprimentavam com sorrisos genuínos e uma energia vibrante. A reverência que recebia não era mais motivada apenas pelo medo, mas por uma estranha felicidade compartilhada. Ao entrar na sala de jantar, ele estancou. Eveliny estava lá, terminando de ajustar os talheres. Ao vê-lo, ela abriu um sorriso que rivalizava com o brilho do sol que inundava a sala. — Bom dia, querido marido! Como passou a noite? — A frase o atingiu como um impacto físico. Ninguém o chamava de "querido", e o tom dela era tão caloroso que ele sentiu seu coração, aquele órgão que ele julgava feito de pedra, palpitar como se estivesse em meio a uma carga de cavalaria. — Bem... eu acho — respondeu ele, a voz falhando levemente. Ele se sentou e ela ocupou o lugar ao seu lado, ignorando a cabeceira distante. Alaric notou a mancha de farinha na têmpora dela e o lenço desalinhado. Ela parecia deslumbrante em sua simplicidade, uma visão de autenticidade que o fascinava mais do que qualquer vestido de seda poderia. — Preparei um bolo especial para você — disse ela, servindo uma fatia generosa em seu prato. — Sei que você não é fã de doces, mas este é diferente. Experimente, por favor. Eveliny o olhou com uma esperança tão pura que Alaric se viu incapaz de recusar. Ele pegou o garfo, ainda hesitante, esperando o choque enjoativo de açúcar que sempre detestou. Mas, ao levar o primeiro pedaço à boca, seus olhos se arregalaram. A massa era leve, quase salgada, com um toque cítrico que limpava o paladar e um aroma de especiarias que aquecia o peito. Era perfeito. Ele continuou comendo em silêncio, mas o modo como saboreava cada pedaço era a resposta que Eveliny precisava. Ela sorriu, sentindo que cada grama de farinha e cada minuto de esforço valeram a pena. — O que achou da sua nova casa marquesa? - Perguntou ele se lembrando da felicidade que cada empregado carregava agora no rosto. — É tudo perfeito, eu gosto daqui, é um dos melhores lares que já tive. Às vezes, as coisas mais simples são as que mais alimentam a alma. Alaric a encarou, sentindo que aquela mulher não era apenas de outro tempo; ela era de outra dimensão de humanidade. Ela não estava ali apenas para ocupar um título; ela estava ali para derrubar muros. — O que tenho que fazer aqui durante o dia? — ela perguntou novamente, mas desta vez havia um brilho desafiador nos olhos. — O que você quiser, Eveliny — respondeu ele, e pela primeira vez, o nome dela soou como uma promessa em seus lábios. — Este lar parece pertencer a você agora. Eveliny sorriu. Ela sabia que a guerra para curar o coração do Marquês seria longa, mas naquela manhã, entre o cheiro de pão e o brilho do sol, ela soube que já havia vencido a primeira e mais importante batalha: ela o fizera sentir o gosto da vida novamente. Ela não apenas entrara em um livro; ela começara a dar vida a ele.
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