Logo após o desjejum, que havia trazido uma inédita nota de leveza à sala de jantar, Eveliny decidiu que era o momento de explorar a imensa propriedade com mais atenção. Ravenwood Hall era um labirinto de mistérios arquitetônicos, mas a verdade é que a mansão do Marquês nunca fora bem detalhada nas páginas escritas por Afonso. No livro original, Alaric Thorne era tratado apenas como um personagem secundário, uma figura trágica cujos detalhes da vida pessoal e da residência não eram considerados grandiosos o suficiente para merecer longos parágrafos do autor. Para o leitor comum, ele era apenas o soldado amargurado. Para Eveliny, contudo, ele era uma alma que precisava urgentemente de salvação.
Caminhando com passos calmos pelos corredores silenciosos, ela tentava entender mais a fundo a dinâmica daquele lugar esquecido pelo tempo. Queria descobrir, de alguma forma, como fazer o Marquês viver uma vida genuinamente feliz. Sabia que a tarefa mais difícil de sua nova existência seria derreter o gelo de um coração que estava congelado há tantos e longos anos por traumas que ela m*l conseguia mensurar.
Em sua caminhada pela descoberta dos segredos da mansão, seus passos a guiaram até a biblioteca. Ao empurrar as pesadas portas de madeira escura, Eveliny prendeu a respiração. O lugar era simplesmente grandioso. Como uma leitora ávida e apaixonada pelo cheiro de papel antigo no século XXI, ela ficou ainda mais encantada com o que se estendia diante de seus olhos. Paredes inteiras eram cobertas por prateleiras maciças que abrigavam milhares de volumes encadernados em couro. Eram obras raras que não poderiam ser alcançadas sem o apoio de uma grandiosa escada de correr, feita de madeira polida, que repousava silenciosa contra as estantes.
— Talvez eu possa encontrar algo nesses livros... — murmurou Eveliny para si mesma, sua voz ecoando baixo no ambiente vasto.
Ela seguiu sua busca meticulosa pelas seções mais antigas da sala, tentando encontrar qualquer livro de crônicas, lendas locais ou registros históricos que pudessem explicar o fenômeno incompreensível de seu aparecimento em um livro de época. Procurava por pistas mágicas, linhagens esquecidas ou qualquer detalhe oculto que justificasse como sua alma fora arrancada do mundo moderno. Eveliny acabou perdendo completamente a noção do tempo. Por mais que buscasse com afinco qualquer detalhe que pudesse explicar aquela viagem maluca, no fim, exausta e de mãos vazias, ela se jogou em uma poltrona de veludo, suspirando pesadamente.
Não havia nada teoricamente relevante ali. No entanto, Eveliny não estava disposta a admitir a derrota. Para si mesma, mentalizou que havia simplesmente perdido uma batalha menor, mas a guerra mística para mudar o curso daquela história continuava em pleno curso.
Ela se levantou e estava quase saindo da biblioteca, decidida a encerrar sua busca por aquele dia, quando um detalhe singular chamou sua atenção. Em cima da mesa central de carvalho, parcialmente iluminado pela luz que entrava pelas frestas das cortinas, repousava um objeto solitário. Era um diário de capa de couro desgastada, e o nome gravado em letras firmes na primeira folha não deixava dúvidas de quem era o legítimo dono: Alaric Thorne.
Eveliny estancou. O bom senso dizia que ela não devia olhar; afinal, não era correto invadir a privacidade de uma pessoa tão reservada. Não seria justo e, se ele acabasse descobrindo sua ousadia, certamente a odiaria por mexer em suas coisas mais íntimas. Porém, mesmo tentando usar a razão e a ética naquele momento de hesitação, a curiosidade falou mais alto. Ela se aproximou devagar, os passos abafados pelo tapete persa, e contornou o contorno do diário com as pontas dos dedos.
A princípio, seu desejo era apenas sentir a textura da encadernação antiga, mas os detalhes misteriosos do objeto atraíram seus olhos, e a curiosidade avassaladora pelo conteúdo que haveria ali dentro a fez esquecer temporariamente de qualquer princípio moral.
— É apenas uma olhadinha... não faz m*l — sussurrou para o silêncio da sala.
Com o coração batendo acelerado, Eveliny abriu a capa com extremo cuidado. Pulou as primeiras folhas amareladas e focou os olhos em um trecho escrito com uma caligrafia ríspida, quase urgente, que parecia sangrar dor através da tinta:
"Eu sobrevivi a mais uma guerra, mas por quanto tempo mais precisarei ser o cavalheiro desalmado para que outras almas sejam salvas? O preço a pagar é muito mais alto do que imaginei, e talvez eu não consiga suportar por muito tempo. Porque, no fim, ninguém consegue conviver com esse fardo, sabendo da terrível verdade do passado..."
Antes que pudesse processar o peso daquelas palavras místicas, o diário de repente foi fechado com um estrondo que ecoou como um tiro na biblioteca.
Alaric estava ali, parado de frente para Eveliny. A presença dele parecia ter sugado todo o ar do ambiente. Seus olhos castanhos, geralmente frios, tornaram-se ainda mais escuros, brilhando com uma intensidade perigosa. Ele parecia uma força implacável da natureza, pronto para incendiar qualquer um que cruzasse seu caminho em um piscar de olhos. Eveliny engoliu em seco, paralisada. O "Cavalheiro Desalmado" estava mostrando, pela primeira vez desde que ela chegara, a face sombria que todos no reino temiam. Ali, naquela atmosfera carregada, ela compreendeu perfeitamente o motivo do apelido terrível que ele recebera nos campos de batalha.
— O que pensa que está fazendo? — a pergunta dele cortou o silêncio, fria, ríspida e nada amigável.
— Eu... me desculpe... eu só estava... — Eveliny gaguejou, as palavras travando em sua garganta. Não havia como se justificar. Ela estava errada, sabia que havia cruzado uma linha perigosa ao invadir a privacidade de um homem tão machucado.
— O que lhe dá o direito de mexer em meus pertences mais íntimos? — Alaric deu um passo à frente, sua estatura imponente projetando uma sombra intimidadora sobre ela. — Acha que um sorriso amigável pela manhã e uma atitude diferente com os criados lhe dão passe livre para fazer tudo o que deseja nesta casa sem pedir minha permissão?
Eveliny deu-se conta da gravidade de seu erro. Não existia desculpa aceitável para o que fizera; fora ousada e profundamente equivocada em sua decisão de invadir um espaço que ainda não lhe pertencia. Afastando o medo que ameaçava paralisá-la, ela se levantou da cadeira, contornou a mesa de carvalho e parou diante do Marquês. Com um respeito profundo, ela se curvou diante de Alaric e baixou a cabeça, reconhecendo que nenhuma palavra bonita apagaria sua indiscrição.
— Perdoe-me, Senhor Marquês. Não há palavras que justifiquem o meu erro, e prometo que isso não irá mais se repetir — disse Eveliny, respirando fundo e mantendo a voz firme, apesar do tremor interno. — Entrei aqui com a intenção sincera de conhecer melhor a biblioteca, mas acabei me deixando levar e invadi sua privacidade. Peço perdão.
Após fazer uma breve e formal reverência, Eveliny deu as costas e retirou-se da biblioteca. Ela ainda não sabia exatamente como agir de acordo com todas as regras de uma época tão diferente da sua, sentindo-se temporariamente perdida em um mundo que só conhecia através das descrições vagas de um livro. Enquanto caminhava de volta para a segurança de seu quarto, a mente dela trabalhava em ritmo acelerado, tentando entender a engrenagem oculta que a trouxe até ali.
— Afinal... por que diabos eu desejei algo assim com tanta força? — perguntou-se em voz baixa, cruzando os corredores vazios da mansão.
Enquanto isso, Alaric continuou parado exatamente no meio da biblioteca. Ele estendeu a mão e pegou o diário de cima da mesa, apertando o couro contra os dedos enquanto se perdia no turbilhão de seus próprios pensamentos. Sua nova esposa era uma verdadeira incógnita. Eveliny conseguia ocupar o topo de seus pensamentos de uma forma tão avassaladora que nenhuma outra preocupação ou estratégia de guerra jamais conseguiria antes.
Ele queria entender o que estava acontecendo. Sabia que precisava esperar que Silas voltasse com alguma resposta concreta sobre o histórico recente da família Stirling para tentar decifrar o comportamento dela, mas, no fundo de sua alma, temia que as respostas não fossem tão simples ou puramente humanas. Eveliny estava trazendo uma vida vibrante para aquela velha e escura mansão. Ela estava arrumando o lugar físico de um modo totalmente diferente e, ao mesmo tempo, estava bagunçando completamente a mente e as defesas do Marquês.
Quando Alaric decidiu assinar o contrato de casamento com os Stirling, imaginara que receberia uma esposa fútil e previsível. Jamais passou por sua cabeça que uma moça aparentemente simples pudesse causar tanta confusão em sua rotina perfeitamente controlada. Ele se perguntava se aquele casamento precipitado havia sido uma loucura sem volta ou se, por algum motivo que transcendia a razão, seria a escolha mais importante de sua vida. Tudo era confuso demais para o seu espírito austero.
— Quem realmente é você, Marquesa? — Alaric indagou ao silêncio dos livros, os olhos fixos na porta por onde ela saíra. — Você me intriga de uma forma que nenhum inimigo no campo de batalha jamais conseguiu. Que tipo de poder invisível você está exercendo sobre mim?
Alaric passou as mãos pesadas pelo cabelo escuro, suspirando de forma audível enquanto tentava restabelecer a ordem na bagunça em que seus pensamentos se encontravam. A vida do Marquês, antes monótona, fria e sem um sentido real além do cumprimento do dever militar, estava finalmente tomando um rumo completamente diferente.
O implacável guerreiro de Ravenwood m*l podia imaginar que sua enigmática Marquesa estava, na realidade, bem à frente de seu tempo e muito além daquela época. Alaric Thorne iria descobrir, muito em breve, que a presença mística daquela mulher em sua vida era a consequência direta de um desejo desesperado e puro de reescrever seu fim e mudar, para sempre, o seu destino trágico.