Prólogo
Fanny
Senti minhas pernas subindo e logo em seguida uma dor irradiar da minha b***a para minhas costas.
Não deixei a dor me parar e me coloquei de pé em seguida, mas a mão de Vicenzo estavam estendidas para mim. O treino tinha acabado.
— Quantos anos você tem mesmo? – Questionou sorrindo.
— Dez anos, dez, quase onze, faltam só três meses pro meu aniversário. – Ele esfregou sua mão grande em minha cabeça, eu não gostava desse gesto.
— Para com isso, sabe que não gosto.
A risada dele é estrondosa, não gostei.
— Vai lá beber água, depois volte. Está bem? sem dor no traseiro?
— Quando eu voltar, você vai ter uma dor no traseiro! – Apontei meu dedo na cara dele, ele era muito alto, muito mais alto que eu, principalmente porque ainda era uma criança.
— Já acabou seu treinamento de hoje? – Meu pai estava me assistindo. Não sabia, mas desconfiava, ele quase sempre fazia isso. Se não estivesse ocupado, ele estaria aqui.
— Só paramos para beber água, papai.
Peguei minha garrafinha na geladeira e bebi um grande gole. Treinar dava muita sede.
Meu pai era um homem intimidador, grande e forte, cabeça raspada e um olhar ameaçador, mas comigo sempre tinha um sorriso enorme no rosto e fazia tudo o que eu queria, até me permitir treinar. Embora eu tenha que treinar sozinha, somente Vicenzo e eu, mas não me importo.
— Estou gostando de ver seu empenho. – Elogiou, se abaixou para ficar na minha altura e me abraçou. Se afastou um pouco e continuou. – Preciso ir agora, passei apenas para te ver. – Beijou minha testa.
— Mas já, papai. Não posso ir com você?
— Você tem treino, agora. Vá!
— Mas pai, o Vicenzo pode me treinar depois.
Ele deu mais um beijo na minha cabeça antes de sair.
— Não, querida, ele não pode. Vicenzo tem deveres a cumprir.
Fechei a cara e fiz bico. Meu pai riu da minha cara vermelha, suada e de cabelos desgrenhados.
— Quem sabe um dia, princesa. – Ele disse já da porta e então sumiu, atravessando-a.
— Vamos lá, pestinha, quem disse que meu traseiro iria doer?
— Hoje você vai ter o traseiro mais dolorido de toda Itália, Vicenzo Fontana.
O soldado riu, eu gostava do jeito bem humorado dele, nem todos os soldados eram assim. A maioria era emburrado o tempo todo.
Seguimos treinando, mas o que eu queria mesmo era seguir meu pai. Saber o que ele estava fazendo, como estava fazendo. Como ele lidava com os negócios da famiglia Bernardi. Queria aprender, pois um dia seria eu a tomar o poder e estar à frente dos negócios do nosso império.
***
Aos treze anos tive minha primeira decepção: Vi meu pai levando Leonel, meu irmão mais novo com apenas onze anos de idade, para “ajuda-lo” em uma missão. Não sei no que um pivete de onze anos iria ajudar. Eu era mais velha, treinava desde os nove anos de idade e Leonel só havia começado os treinos depois dos dez anos, devido aos cuidados com a saúde que o deixava fraco demais para iniciar os treinos antes disso.
Então imagina como foi decepcionante ver meu irmão mais novo, com menos treinamento que eu, sendo levado em meu lugar só porque tem um p***o no meio das pernas.
E o safado sabia que eu estava me corroendo de ódio, pois seu sorrisinho estampado no rosto não era só de felicidade, mas de conquista.
Leonel sempre foi invejoso. Enquanto treinava, ele ficava olhando e colocava defeitos em tudo que eu fazia, e nessa época ele tinha apenas oito anos. Ria quando eu caía, apontava para mim e me chamava de fraca. Sempre esfregou na minha cara o fato de ser um filho homem, dizia que não adiantava eu estar treinando, apendendo sobre armas e sobre os negócios da família, pois ele era homem e seria o sucessor de nosso pai, enquanto eu tinha que estar apendendo a bordar porque era para isso que as mulheres serviam.
Eu sabia que esse pensamento era o que tomava a maioria das pessoas da máfia. No início tudo era farra, mas depois fui percebendo que nada de r**m acontecia comigo pois eu era a filha do Chefe, e ninguém quer ser torturado por semanas até finalmente seu corpo não suportar mais. Não havia lugar no mundo mais machista que a máfia italiana. Aqui os homens imperam. As mulheres são apenas um meio no qual precisam para trazer herdeiros ao mundo e para fechar um bom negócio não tendo que mexer um centavo da sua fortuna. E eu comecei a compreender isso aos treze anos.
Leonel subiu no carro com dois soldados de meu pai o escoltando. Meu pai, o grande e temido chefe da máfia Sandro Bernardi, ocupou o carona do lindo e luxuoso carro blindado e um motorista armado até os dentes, assim como os outros, ocupou o lugar da direção, então, o carro entrou em movimento.
Senti meus olhos queimando, uma lágrima de raiva brotou em meus olhos. Odiei ser mulher naquele momento, odiei a máfia, odiei meu pai e meu irmão.
Senti uma mão pesada em meu ombro e eu já sabia quem era. O brutamontes acabou se tornando meu amigo ao longo dos anos, já até havia sido punido por desrespeitar uma ordem do meu pai por minha causa.
— Quer treinar para colocar toda essa raiva para fora?
Balancei a cabeça.
— Não. – A voz saiu entrecortada tamanha era minha raiva – Quero dar tiro.
— Você sabe que seu pai ainda não permitiu que aprenda atirar, ainda é muito jovem.
Voltei meus olhos raivosos para Vicenzo.
— Eu quero e eu vou, se não for você, vou arrumar outra pessoa, e se não houver outra pessoa, vou aprender sozinha.
Passei por ele, esbarrando meu ombro em seu grande corpo. Ouvi seus passos atrás de mim e eu sabia que tinha conseguido.
— Tudo bem, pestinha, seu pai vai arrancar meu couro por isso.
***
Aos quinze anos fui surpreendida por algo que eu imaginava que meu pai jamais faria comigo: casamento.
O senhor Sandro Bernardi julgou ser adequado que sua filha se unisse em casamento com o filho mais velho do Capo mais importante do nosso império. Meu pai viu que o homem se tornaria uma ameaça no futuro e decidiu que vender sua filha seria um bom negócio a fim de unificar a família, trazendo-a para dentro da família Bernardi, desse modo evitaria problemas e ainda fortificaria os negócios.
O ódio me tomou de tal maneira que dessa vez eu não queria dar tiro em bonecos de madeira, eu queria matar, queria ver o sangue de alguém e imaginar o babaca do filho mais velho dos Rossi agonizando.
— Não vou me casar com ninguém, pai.
Meu pai suspirou fundo, como se não tivesse mais paciência comigo.
— Isso não é um pedido, filha, é uma ordem. Vai casar com Lorenzo Rossi assim que completar dezoito anos.
— Eu não vou! – falei alto e decidida e quando deixei a sala a passos duros, virando as costas para meu pai, nós dois sabíamos que esse casamento não aconteceria, de um jeito ou de outro, mas não aconteceria.