Fantasma

1149 Words
O estrondo rompeu o silêncio da madrugada como um trovão dentro da casa. Gael despertou num sobressalto, o coração disparado enquanto seus instintos gritavam que algo estava errado. Por um breve instante, permaneceu imóvel, os ouvidos atentos, tentando identificar qualquer outro som vindo do andar inferior. Nada. Apenas o silêncio pesado que sempre parecia anteceder uma tragédia. Num movimento brusco, lançou as cobertas para o lado e saltou para fora da cama. O piso frio recebeu seus pés descalços, mas ele m*l percebeu a temperatura. Seu corpo já estava desperto, preparado para reagir. Caminhou rapidamente até a porta do quarto, porém, antes que alcançasse a maçaneta, ela se abriu. Silas surgiu do outro lado segurando uma pequena lanterna. Assim que a porta escancarou, o velho apontou o facho de luz diretamente para o rosto do neto. — Ah... droga... — Gael resmungou, estreitando os olhos. A claridade atingiu suas pupilas sensíveis como uma lâmina. Por um instante, precisou virar o rosto para suportar a ardência. No escuro, seus olhos denunciavam muito mais do que ele gostaria. — Desculpe, meu neto. Pensei que ainda estivesse dormindo. Gael esfregou os olhos com o dorso da mão. — Droga, vô... O senhor sabe que minhas pupilas me entregam demais na escuridão. Silas suspirou, visivelmente arrependido. — Eu já pedi desculpas. O velho abaixou a lanterna, deixando apenas um feixe discreto iluminar o assoalho. — Você ouviu o barulho? — perguntou em voz baixa, quase um sussurro. — Ouvi, vô. E isso é o mais estranho. Os alarmes não dispararam. Os dois trocaram um olhar carregado de preocupação. — Tem alguma coisa errada. Silas estalou a língua, como quem finalmente ligava os acontecimentos. — A menina, Gael... As palavras atingiram o rapaz como um raio. A expressão em seu rosto mudou completamente. — Caramba! Sem perder um segundo, passou pelo avô e saiu para o corredor quase correndo. Seus passos ecoaram abafados pelo velho assoalho de madeira, enquanto Silas o seguia logo atrás, tentando manter a lanterna firme para iluminar o caminho e evitar tropeçar na penumbra. O corredor parecia ainda mais longo naquela madrugada. As sombras dançavam pelas paredes conforme o pequeno feixe de luz balançava nas mãos trêmulas do velho. Ao alcançar a escadaria, Gael reduziu o ritmo por puro instinto. Desceu o primeiro degrau, depois o segundo, apoiando uma das mãos no corrimão. Seus sentidos estavam todos em alerta. O silêncio voltara a dominar a casa. Então ele viu. Um vulto branco atravessou a escuridão do piso inferior. Foi apenas um movimento rápido, quase um borrão deslizando entre as sombras, silencioso demais para ser humano. Gael parou imediatamente no meio da escada. Cada músculo de seu corpo enrijeceu enquanto seus olhos acompanhavam o ponto onde a figura desaparecera. Atrás dele, Silas ergueu a lanterna, e o feixe tremulante percorreu o salão escuro sem encontrar ninguém. Mesmo assim, ambos sabiam que não estavam sozinhos. Alguém — ou alguma coisa — acabara de se mover lá embaixo. Gael terminou de descer o último degrau, mantendo o corpo tenso e os sentidos aguçados. — O que aconteceu? Por que está tudo escuro? — perguntou, sem tirar os olhos da penumbra. — Alguma coisa aconteceu com o gerador — respondeu Silas em voz baixa, aproximando o facho da lanterna do chão. — As luzes não voltariam sem ele. A explicação m*l terminou de sair de sua boca e, de trás de uma pilastra de madeira entalhada surgiu uma silhueta vestida de branco. A luz prateada da lua, filtrada pela grande janela da sala, refletiu sobre o objeto que ela empunhava. Uma lâmina. O brilho frio da faca cortou a escuridão. — Ahhhh! — gritou a insepulta, lançando-se contra Gael. Ele girou o corpo no último instante, desviando do ataque. A mulher vinha rápido demais. Sem conseguir frear sobre o tapete, escorregou violentamente e caiu de bruços, soltando a faca. A arma deslizou pelo piso , riscando-o antes de parar a vários metros de distância. Gael não desperdiçou a oportunidade. Num único movimento, ajoelhou-se ao lado dela, segurou seus braços, girou seu corpo contra o chão e imobilizou os dois punhos acima da cabeça, usando apenas a força necessária para contê-la. — Me solta! Me solta! — ela berrou, debatendo-se desesperadamente. — Calma! Calma! — pediu Gael, dosando cada movimento para não machucar a mulher que ele próprio havia retirado da cova às margens da estrada. Mesmo dominada pelo pânico, ela tremia como um animal acuado, respirando de forma descompassada enquanto tentava se libertar. — Quem são vocês? O que eu estou fazendo aqui? — perguntou a mulher, encarando o facho de luz da lanterna de Silas com os olhos arregalados. Antes que alguém respondesse, um estalo ecoou pela casa. No segundo seguinte, a energia voltou. A iluminação do corredor que ligava a sala aos demais cômodos acendeu primeiro, seguida por um leve zumbido elétrico. — Oh, voltou. Me lembre de olhar esse gerador amanhã. Você sabe que, sem ele, estamos ferrados — resmungou Silas. O velho caminhou até o interruptor e acendeu as lâmpadas do enorme lustre de cristal. Uma luz quente inundou a sala, dissipando as sombras que antes escondiam tudo. Gael percebeu a reação imediata da mulher. Ela fechou as pálpebras por alguns segundos, incomodada pela claridade repentina. Foi então que conseguiu observá-la de verdade. Agora, banhada pela luz, ela já não lembrava a figura cadavérica que ele retirara da cova. A pele voltara a exibir um tom delicado, ainda pálido, mas vivo. Os cabelos claros espalhavam-se pelo tapete como fios de seda, e os traços delicados do rosto eram de uma beleza quase irreal. Seu peito subia e descia rapidamente, denunciando o medo que a consumia. — Vou buscar uma coisa. Mantenha ela aí — disse Silas, afastando-se da sala com passos apressados. — Me solta! — exigiu a mulher. Ela não sabia quem ele era e o medo era como uma lança venenosa em sua carne. Ela procurava se defender do que não conhecia e vendo um dos braços de Gael próximo tentou algo quase improvável. No instante seguinte, virou o rosto e tentou mordê-lo. Gael recuou apenas o suficiente para escapar e acabou sorrindo diante da braveza dela. Ele a julgava frágil e delicada demais, porém agora com suas investida contra ele, Gael percebe que ela é forte, tem fibra. — Eu te salvei... — disse em voz baixa, mantendo os olhos presos aos dela. Escolheu a verdade ao invés de ficar emudecido. Havia algo hipnotizante no olhar dela. Ela interrompeu a tentativa de se debater e o encarou. — Mentira. Você me sequestrou. O que quer comigo? Quem é você? É algum inimigo do meu marido? As perguntas saíram uma atrás da outra, carregadas de desespero. Gael permaneceu em silêncio. Seu maxilar se contraiu, mas nenhuma resposta veio. Continuou segurando seus punhos, observando cada expressão do rosto desconhecido, enquanto ela aguardava, em vão, que ele dissesse qualquer coisa.
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