O silêncio na ala hospitalar parecia ter adquirido uma textura palpável, um peso que comprimia o peito de Gael enquanto ele terminava sua tarefa. Após limpar com delicadeza cada centímetro da pele que parecia esculpida em mármore, o rapaz vestiu a jovem com uma camisola hospitalar branca e esterilizada. Seus movimentos, antes desajeitados pelo constrangimento, tornaram-se metódicos e quase reverentes. Ela era pequena, frágil demais para ter sobrevivido à sanha de quem a enterrara, e sua imobilidade cerosa criava uma atmosfera de santuário profano na enfermaria subterrânea.
Antes de cobri-la com o lençol, Gael não resistiu a um impulso que não sabia nomear. Seus dedos, levemente tocaram a mão esquerda da insepulta. A pele estava gelada, mas não morta. Ele observou os dedos pequenos, a delicadeza das falanges e fixou o olhar na aliança de ouro envelhecido que repousava no dedo anelar. A joia parecia carregar o peso de séculos; o ouro era denso, marcado por sinais de uso que sugeriam uma longa existência antes de repousar naquele dedo tão jovem.
Com uma cautela, ele a deslizou pelo nó do dedo. A aliança saiu com facilidade. Girou-a sob a luz fria das lâmpadas, procurando qualquer marca de joalheiro, uma inscrição de nomes entrelaçados ou uma data de casamento que pudesse servir como fio condutor para o mistério. Nada. O metal era liso, imaculado em sua simplicidade. Estranhou. Era incomum que uma peça tão antiga e com características tão singulares não possuísse uma única marcação. Mais do que isso, a ausência de um anel de noivado ou de qualquer outro adorno no restante da mão o intrigava. Não havia marcas que indicassem que ela costumava usar outros anéis; parecia ser uma mulher que carregava apenas aquela joia, como se ela representasse um símbolo, um fardo ou talvez um lacre.
Ele voltou a observar o rosto dela. Era impossível não notar a perfeição dos traços: o contorno delicado da mandíbula, a curva elegante das sobrancelhas e os lábios carnudos que, mesmo na ausência de qualquer sinal de consciência, mantinham um tom rosado inquietante. Gael não era um homem dado a contemplações românticas. Suas experiências passadas eram feridas m*l cicatrizadas, lembranças de encontros fugazes e de uma solidão que aprendera a cultivar como forma de defesa. Aquela mulher, porém, despertava uma curiosidade que lhe percorria a espinha como uma descarga elétrica.
— Quem é você? — sussurrou, enquanto sua voz ecoava pelas paredes.
Cobriu-a cuidadosamente, como se temesse que, ao expor aquele corpo, estivesse violando um segredo que não lhe pertencia. Deixou o local com a mente em ebulição. Enquanto subia a escada em caracol, o eco de seus próprios passos parecia uma acusação. Quem seria capaz de cometer tamanha barbárie? Alguém que ignorava a condição da garota? Com certeza.
O crime tivera a pressa do desespero ou do ódio cego. Ele imaginou o assassino, talvez um executor amador, acreditando ter concluído a tarefa, sem saber que o próprio solo usado como túmulo se tornaria a testemunha de seu fracasso.
Ao cruzar a sala principal, a figura de Silas o aguardava. O velho Beaumont estava afundado em sua poltrona de couro, enrolado em uma pesada manta de lã que tentava, sem sucesso, repelir o frio que parecia emanar de suas articulações. Segurava uma xícara de chá com as duas mãos, as juntas nodosas e avermelhadas pela idade.
— Como estamos? — perguntou Silas. Sua voz era um sussurro rouco, em contraste com a autoridade demonstrada horas antes.
— Ela ainda está apagada, vô. Já fiz o que o senhor me pediu. Limpei-a e a deixei vestida. Vou tomar um banho e descansar um pouco.
Gael deu alguns passos em direção ao corredor, mas hesitou e voltou-se para o velho.
— Ah, esqueci de dizer... O carro vai precisar de reparos extensos.
Silas apenas soltou um som nasalado, um misto de resignação e profundo cansaço.
— Eu esperava por isso, rapaz. Vá descansar. O amanhã trará problemas suficientes para resolver. Reze para que o assassino não retorne ao local do crime, porque eles sempre retornam.
Gael piscou e soltou um suspiro pesado.
Ele atravessou a imensa casa, um labirinto de sombras onde o passado parecia esconder-se em cada canto. Morar ali era conviver com o eco de uma linhagem que ele não escolhera, mas que definia cada batida de seu coração. Para ele, a noite não representava repouso, mas uma fronteira perigosa. Deitar a cabeça no travesseiro era convidar o terror a retornar. Havia três anos, o mesmo pesadelo o perseguia: o som de correntes se arrastando,o grito distorcido de um homem clamando por seu nome e a escuridão absoluta que o engolia, deixando-o sem ar, tal como a jovem encontrada . Ele jamais via o rosto daquele homem; apenas sentia o medo visceral de ser ele quem estava acorrentado.
Ao entrar em seu quarto, a luz do lustre de cristal refletia-se sobre a colcha de seda azul-marinho, criando um brilho inquietante. Retirou os sapatos, sentindo o peso do dia drenar suas forças. Caminhou até o banheiro e abriu a torneira da banheira. Enquanto a água enchia, despiu-se lentamente, quase consciente da tensão que enrijecia seus músculos.
Entrou na água morna, deixando que o calor envolvesse seu corpo, buscando inutilmente uma paz que parecia cada vez mais distante. Gael afundou a cabeça, prendendo a respiração. Abaixo da superfície, o silêncio era absoluto. Já perdera a conta de quanto tempo conseguia permanecer submerso; era apenas uma das muitas coisas que percebera em si mesmo como diferentes, características que o distanciavam da normalidade de um homem comum. Queria esquecer. Queria ser comum.
Não pensava tanto sobre, uma vez que a insepulta agora ocupava seus pensamentos: uma imagem imóvel, bela e profundamente assustadora.
O banho foi demorado e minutos depois, saiu do banheiro envolto em um roupão, enquanto o vapor ainda pairava no ar. A chuva batia implacável contra o vidro da janela, produzindo um tamborilar incessante que parecia marcar o ritmo de seus temores. Caminhou até a cama e deitou-se, sentindo a seda fresca sob as costas. O peso em sua cabeça era quase insuportável. Seus olhos vagavam pelo teto ornamentado, tentando resistir à exaustão. Lutou o quanto pôde contra a rendição, tentando manter o controle sobre a própria mente, mas a escuridão, como sempre, venceu. O sono o arrebatou, arrastando-o para as profundezas onde o nome de Gael era gritado, mais uma vez, pelo desconhecido acorrentado.
O grito ecoou outra vez, mais próximo, mais desesperado. Não era apenas um chamado; havia uma urgência quase animalesca naquela voz, como se cada sílaba fosse arrancada de uma garganta dilacerada. Gael tentou mover as pernas, mas seus pés permaneciam presos ao chão encharcado. A umidade impregnava o ar, trazendo o odor metálico e sangue seco.
O som das correntes tornou-se mais intenso. Arrastavam-se lentamente pelo, produzindo um ruído ritmado que fazia seu coração acelerar. Então, pela primeira vez em três anos, algo mudou no pesadelo. Entre a escuridão absoluta surgiu um pequeno feixe de luz, fraco e vacilante, suficiente apenas para revelar uma mão estendida em sua direção. Os dedos estavam cobertos por sangue seco, e a pele apresentava cortes profundos, como se tivesse sido dilacerada.
— Gael... — a voz tornou a chamá-lo, agora quase um sussurro.
Ele deu um passo involuntário. O ar ficou pesado, difícil de respirar. Antes que pudesse alcançar aquela mão, um segundo som rompeu o silêncio. Era uma respiração suave, feminina, completamente deslocada daquele cenário de horror. O perfume delicado de flores silvestres substituiu o cheiro de ferrugem e, por um breve instante, ele teve a nítida sensação de ver os olhos da insepulta fitando os seus no meio da escuridão. Não havia medo naquele olhar, apenas uma tristeza profunda, impossível de medir, antes que tudo fosse novamente engolido pelas trevas. Gael despertou, dessa vez tinha um peso no peito e o ar lhe faltava.
Ele tentou se recompor, mesmo que o pesadelo não saísse de sua mente.
— Ela? Será que esse pesadelo tem alguma coisa haver com ela?
Gael olhou na direção da porta. Completamente confuso.