Silas soltou um suspiro pesado, um som carregado de frustração e de uma fadiga que ia muito além dos músculos. Ele encarou o neto, cujos olhos brilhavam com uma mistura de teimosia e uma compaixão que o velho Beaumont considerava uma fraqueza perigosa.
— Leve-a para a ala hospitalar — ordenou, com a voz cortante. — Vou examiná-la. Mas fique ciente: se ela estiver fisicamente bem, vou dopá-la, e você vai abandonar essa jovem em qualquer paróquia. Padres e pastores que resolvam o problema; eles saberão o que fazer com uma alma perdida.
Gael hesitou. Uma sombra de dúvida cruzou seu rosto.
— E se alguém que tentou dar cabo da vida dela vier atrás?
Silas fechou os punhos. A preocupação do neto era, para ele, um insulto à segurança que levara décadas para consolidar.
— O que nós não precisamos, meu neto, é de alguém por aqui escarafunchando nossa vida por causa de uma desconhecida! Salvá-la foi um erro seu, mas permitir que ela permaneça aqui é colocar um alvo em suas costas, nas nossas costas. Agora, pare de falar e pegue a garota. Se eu tentar, vou me desmanchar inteiro. Não sou mais nenhum garoto. A idade pesa. Tenho quase setenta anos, Gael. Muitos, nos dias de hoje, não chegam nem à metade disso.
Sem responder, Gael caminhou até o sofá. O peso do corpo miúdo em seus braços parecia denso demais, como se a terra que ela carregava quisesse ancorá-la ao mundo dos vivos. Silas seguiu pelo corredor, sua silhueta alta e austera cortando a penumbra até entrar na biblioteca. Contornou uma estante de carvalho, pressionou um mecanismo oculto e viu a parede falsa deslizar, revelando a escada em caracol que mergulhava nas entranhas da residência.
Aquela ala médica fora construída como um bunker de emergência, erguida logo após a notícia da gravidez de sua filha. Silas conhecia a linhagem maldita que corria nas veias de sua família e temia, com razão, que o bebê herdasse a condição que acabara por consumir sua linhagem.
Ao chegarem ao subsolo, o ar era estéril, permeado pelo zumbido constante de geradores independentes. Gael depositou a garota sobre a maca metálica e fria.
— Corte as roupas dela — ordenou Silas, abrindo uma maleta de instrumentos cirúrgicos.
Gael recuou um passo, um sobressalto visível percorrendo seus ombros.
— O quê?
— Vergonhas e pudores ficam do lado de fora das portas deste centro médico — disparou o velho. — Ou você faz o serviço agora, ou eu mesmo o farei. E, acredite, não serei gentil com as mãos trêmulas de um amador.
Silas entregou-lhe uma tesoura de ponta romba. Com as mãos trêmulas, Gael começou o trabalho. O som do tecido floral sendo rasgado ecoava como um estalo seco no silêncio da ala. Quando chegou às botas, Silas se adiantou, arrancando-as com um movimento seco e impiedoso, descartando-as como se fossem lixo.
— Terminei — disse Gael, com a respiração ofegante.
Silas ergueu o olhar clínico e apontou para o que restava.
— Falta o resto. As peças íntimas.
Gael engasgou, sentindo o rosto ferver.
— Eu... eu não vou fazer isso.
— Você é um homem ou um rato, Gael? — a voz de Silas era um verdadeiro chicote.
— Eu também queria saber! — retrucou o rapaz, deixando escapar um vislumbre de revolta.
Silas estalou a língua, impaciente.
— Saia da frente, então. Deixe que eu cuide da parte técnica.
Com movimentos práticos e frios, Silas completou a remoção das roupas, expondo a pele pálida da jovem à luz branca e crua dos refletores. Em seguida, iniciou o exame, palpando-lhe o tórax com dedos firmes e experientes. Não havia sinais de fraturas nas costelas nem indícios de hemorragias internas. Examinou-lhe a cabeça, afastando os cabelos cobertos de lama. Nenhum hematoma. Nenhum sinal de trauma contundente. Nem mesmo um inchaço.
Silas franziu o cenho enquanto observava as pupilas da jovem reagirem lentamente ao feixe de luz da lanterna clínica. Em seguida, pressionou delicadamente a mandíbula e flexionou um dos braços, sentindo uma resistência incomum, rígida, quase cerosa. Aproximou os dedos do pescoço e permaneceu imóvel por vários segundos até encontrar um pulso extremamente lento, quase imperceptível.
— Interessante... — murmurou para si mesmo.
Pegou o estetoscópio e auscultou o tórax durante quase um minuto inteiro. A respiração era tão superficial que m*l movimentava o peito.
— Gael, a seringa. Precisamos de sangue.
O rapaz se aproximou, desviando o olhar para um ponto distante da parede, e entregou o instrumento. Silas perfurou a veia, mas, ao observar a cor do líquido que preenchia o tubo, seu rosto perdeu a rigidez, transformando-se em uma máscara de contemplação sombria.
— O que foi? — perguntou Gael, notando a mudança na postura do avô.
— Ela não sofreu uma agressão física externa — murmurou Silas, balançando a cabeça em negativa. — Ela é vítima da própria biologia. Isto é catalepsia, Gael. Uma das formas mais severas que já vi.
O velho médico caminhou até uma estante de livros antigos, mantendo a voz baixa enquanto explicava:
— Antigamente, isso era uma sentença de morte. A pessoa entrava em um estado de letargia tão profunda, com os batimentos cardíacos tão lentos e superficiais, que qualquer médico inexperiente ou apressado a declararia morta. O pânico de ser enterrado vivo era tão real, tão onipresente, que as famílias criaram o costume do velório. Não era apenas por respeito; era uma vigília. Permaneciam ao lado do caixão durante dias, esperando por qualquer sinal de respiração, qualquer movimento. Nos séculos XVIII e XIX, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, havia um grande temor da chamada tafofobia, o medo de ser enterrado vivo. Naquela época, a medicina ainda não possuía métodos confiáveis para confirmar a morte. Pessoas em estados de catalepsia, coma profundo, hipotermia ou determinadas doenças podiam parecer mortas, quando, na verdade, ainda estavam vivas.
Para reduzir esse risco, foram criados os chamados "caixões de segurança". Esses modelos tinham diferentes mecanismos, como: uma corda presa ao pulso ou à mão da pessoa; a corda passava por um tubo até a superfície; na extremidade superior havia um sino, uma bandeira ou outro dispositivo de alerta.
Se a pessoa despertasse dentro do caixão, bastaria puxar a corda para fazer o sino tocar, alertando o vigia do cemitério ou familiares.
Alguns desses caixões chegaram a ser patenteados e vendidos no século XIX, principalmente na Alemanha, França, Reino Unido e Estados Unidos. No entanto, há pouquíssimos registros confiáveis de alguém ter sido realmente salvo graças ao sino. Em muitos casos, o sino podia tocar por outros motivos, como o movimento natural do corpo durante a decomposição, a ação de animais ou o deslocamento do solo.
Gael prestava atenção na explicação do avô. Silas continuou com a narrativa:
— Muitas vezes, infelizmente, o que ouviam era o som do desespero: os arranhões vindos de dentro do caixão, produzidos por aqueles que despertavam no escuro, sob toneladas de terra, gritando até que o oxigênio se esgotasse e quem estava, por acaso, no cemitério e conseguia ouvir, saia de lá correndo achando que era obra de fantasmas.
Gael sentiu um arrepio percorrer sua espinha, uma vibração que se espalhou da nuca aos pés.
— E agora? O que nós fazemos?
— Nada. O organismo dela vai se recuperar por si só, se tivermos sorte. Apenas aguardamos. Vou limpar as vias aéreas, que estão obstruídas por terra, colocar oxigênio e administrar um soro com vitaminas. É o procedimento padrão.
Silas virou-se e apontou para uma bacia de aço inoxidável próxima.
— Prepare uma bacia com água morna e toalhas limpas. Você vai dar banho nela.
Gael paralisou.
— Vô, eu...
— Seja rápido — interrompeu Silas, levando a mão às costas e soltando um gemido contido de dor nas articulações. — Minhas pernas não aguentam mais ficar sustentando esse velho corpo. Quando terminar de limpá-la e vesti-la, me avise. Naquela gaveta — apontou para um armário de metal — há camisolas hospitalares limpas.
Silas deu as costas, iniciando a subida lenta e penosa pela escada em caracol. O som de seus passos ecoava pelo ambiente como as batidas de um relógio antigo.
Gael ficou sozinho na ala médica. O silêncio era tão denso que ele podia ouvir o sibilar do oxigênio assim que foi ligado. Olhou para o corpo inerte da jovem sobre a maca. Ela era bela, de uma palidez de mármore que contrastava com a crueza daquela sala.
Gael pegou água morna na torneira térmica. Ele se aproximou da maca.
Enquanto mergulhava as mãos na água morna, uma sensação estranha tomou conta dele. Ao notar a aliança de ouro envelhecido no dedo da garota, começou a questionar se, no fundo, não havia cometido um erro. Talvez, ao tirá-la da terra, não tivesse apenas salvado uma vida; talvez tivesse aberto uma porta que jamais deveria ter sido destrancada.
Torceu a toalha tirando o excesso de água, deixando-a úmida e percebeu que aquele corpo não era apenas um fardo, mas um mistério que, de alguma forma, já estava entrelaçado ao seu próprio destino. O salvamento não tinha sido um erro; tinha sido o início de algo que, naquele momento, ele ainda era incapaz de compreender.
Gael deslizou o tecido macios em torno dos s***s rígidos, eram belos não podia negar. Ele desceu até o baixo ventre, vendo ali os cachos escuros que cobriam o corte de sua feminilidade.
— Me perdoe a audácia, linda insepulta, mas preciso te limpar.
Gael mergulhou a toalha outra vez na bacia ,torceu e limpou a face da jovem.
A camada de terra foi retirada dando lugar a uma face linda, que causou surpresa em Gael.
Ela não era um anjo, mas também não era um demônio. Afinal, quem é ela?
Ele se perguntou.