Ajuda

1382 Words
— Ela não vai despertar? – se perguntou em um sussurro. Não por preocupação, mas por curiosidade. Não sabia detalhar ou chutar se era uma mulher bonita. Nem mesmo cogitava lhe dar uma idade aproximada , ela parecia mais um monstro da lama. Cabelos cheios de terra, embebido da água da chuva. — Meu avô vai ter motivos de sobra para usar a cela que fez abaixo da nossa casa, se não for para prendê-la serei eu seu cativo. A frase estava longe de ter o tom de escárnio, não era uma brincadeira. Silas fazia isso, aquela cela em questão engoliu mais vidas do que Gael pode ,um dia, contar nos dedos. O motor do sedã, um V8 refinado que normalmente sussurrava sob o capô, agora parecia roncar em protesto contra a estrada tortuosa. Gael mantinha o olhar fixo no caminho à frente, mas sua mente permanecia presa ao retrovisor interno. A cada solavanco provocado pelas bolsas de água presentes na Coreys Road, a silhueta da garota movia-se fracamente, como uma boneca de pano cujos fios haviam sido cortados. O aquecedor do carro funcionava no máximo, mas o ar no interior parecia gélido. O cheiro de terra molhada e de chuva havia penetrado no revestimento de couro, impregnando o ambiente com o odor metálico e fúnebre que ele sentira na cova. Gael sentia o suor frio escorrer pelas costas sob a camisa social encharcada. Ele não era médico, e a última coisa de que precisava — a última coisa que sua família, os Beaumont, permitiria — era um corpo não identificado em sua propriedade. O que você fez, Gael? A voz de Silas parecia ecoar dentro do carro. Você não resgatou uma vida; você convidou o caos para dentro da sua casa. Gael estalou a língua no céu da boca. Ele tentou ignorar o pensamento, concentrando-se no volante. A chuva, embora um pouco menos violenta, ainda transformava o mundo em um borrão cinzento. Ele precisava chegar à propriedade. A mansão Beaumont não era apenas um lar; era uma fortaleza erguida sobre pilares de influência e isolamento . Lá, encontraria o kit de primeiros socorros da ala hospitalar privada — um remanescente da paranoia de seu avô — e, mais importante, teria tempo para decidir o que fazer antes de envolver as autoridades locais, que, ele sabia muito bem, seriam as primeiras a sussurrar sobre o "incidente com o jovem herdeiro". Exposição era tudo o que Gael não queria. E por mais que talvez precisasse dos tentáculos das autoridades iria estudar uma maneira de fazê-lo sem estar envolvido. Um gemido baixo, quase inaudível, escapou do banco traseiro. Gael freou bruscamente, e o carro derrapou alguns centímetros antes de parar. Ele virou-se para trás, o coração batendo no ritmo frenético de um tambor de guerra. A garota estava se contorcendo. Suas mãos, ainda cobertas por resíduos de terra, arranhavam o banco de couro, deixando sulcos profundos no material. — Ei... — a voz de Gael soou estranhamente rouca. — Você está me ouvindo? Ela não respondeu. A cabeça pendeu para o lado, revelando o perfil pálido, quase translúcido sob a luz suave do painel. Ela parecia ter cerca de dezesseis ou dezessete anos. O vestido — um tecido floral outrora delicado, agora destroçado e manchado — sugeria algo fora de contexto, algo que não pertencia àquelas montanhas selvagens e cruéis. — Quem é você? — sussurrou ele, enquanto a hesitação dava lugar a uma curiosidade visceral. Ele não esperou por uma resposta que não viria. Colocou o carro novamente em movimento, pressionando o acelerador com mais força do que deveria. A Coreys Road parecia se estender infinitamente, uma serpente de asfalto que se recusava a libertá-lo. Tempos de pois, fez uma curva, entrou em uma estrada de terra cercada por árvores. Ao atravessar o portão de ferro forjado, que rangeu como um animal ferido, Gael sentiu o peso do destino. Ele não estava apenas levando uma vítima de um crime; estava sendo negligente. Ele parou o carro sob o pórtico da entrada principal. Antes de descer, olhou mais uma vez para trás. A garota permanecia imóvel, mas seus olhos, agora semicerrados, possuíam uma tonalidade vítrea, quase prateada. Não havia o brilho de quem desperta de um desmaio; havia o vazio. Gael saiu do carro, e o impacto da chuva contra seu rosto serviu como um lembrete c***l da realidade. Correu até a porta traseira, abrindo-a com cuidado. O ar gélido invadiu o interior do veículo, fazendo com que a garota soltasse um suspiro trêmulo. No momento em que ele a ergueu, sentindo o peso inerte de seu corpo, a porta principal da mansão se abriu. Silas surgiu, alto e imponente, vestindo um roupão de veludo escuro. O avô não parecia surpreso com a chuva nem com o carro amassado; seus olhos, afiados como lâminas de barbear, fixaram-se imediatamente no fardo que Gael carregava. Silas não correu para ajudar. Permaneceu parado no topo da escadaria, o rosto transformado em uma máscara de pedra esculpida pelo tempo. — O que você trouxe para dentro desta casa, Gael? — a voz de Silas não era um questionamento; era uma sentença. Gael parou no meio do caminho, a água escorrendo de seus cabelos sobre a pele da garota. — Eu a encontrei — respondeu Gael, tentando manter a voz firme apesar da tempestade que uivava ao redor deles. — Ela estava enterrada. Fez força, passou pelo avô que o seguiu de perto. — Subtração de cadáver? – perguntou Silas perplexo. Gael colocou a mulher em cima do estofado de couro. — Quase isso. – ele se afastou olhou para o avô — ela está viva, pulsação fraca, mas têm. Silas olhou para o corpo repousado em seu sofá de couro que agora era só lama. A luz da sala criava uma silhueta que parecia engolir a escuridão da noite. Ele olhou para a aliança no dedo da garota e, por um breve, quase imperceptível instante, seus olhos vacilaram. Foi uma microexpressão de puro terror — algo que Gael jamais presenciara em toda a sua vida de obediência e respeito ao avô. — É casada. — cosntatou Silas. — Parece que sim. E a aliança sangue um padrão antigo, ouro velho, amarelado. Os dois trocaram um olhar cúmplice. — Joia de família. — Silas falou se aproximando um passo da insepulta. — Exatamente, vô. – Gael concordou, seus olhos não desviaram dela. — Mas saiba de uma coisa, meu neto: o que você resgatou não é uma vítima. É um aviso. E, se ela estiver viva, o que quer que a tenha enterrado não vai parar até concluir o serviço. Gael não retrucou, apenas olhou para o avô, o silêncio da mansão, antes um santuário, agora parecia preenchido por uma vibração baixa e constante, como se as próprias paredes respirassem. — Uma tentativa de assassinato. Ela pode ter levado uma pancada com algum objeto contundente ou veneno, mas qual seria? Gael procurava razões para alguém fazer isso com uma jovem. — Talvez, mas apenas exames podem detectar. – Silas se afastou. — O senhor é médico, vô. Acha que pode... Silas lançou um olhar pesado para Gael. Ele definitivamente não estava aprovando ter uma mulher desenterrada deitada sobre o acento do seu precioso sofá. — Você arruma suas confusões e quer dividi-las comigo? Gael suspirou. — Ela é nova, vô. Eu não podia apenas ir embora e... — Podia sim, seria o inteligente a fazer. Silas pontuou sem pestanejar. — Tudo bem, mas algo em mim não deixou. Eu a retirei daquela cova. Essa menina precisa de ajuda, vô. Silas deu uma gargalhada sem humor. — Sim, precisa e mais tarde vai ser ela a cavar a sua sepultura. Seja menos coração e mais razão, Gael. Essa menina é problema! E não precisamos de ninguém aqui bisbilhotando tudo para depois dar com a língua nos dentes. Sabemos que muitos cientistas adorariam colocar suas mãos enluvadas em ti para te dissipar igual se faz a um sapo! Gael olhou para Silas, sabendo que ele tem toda razão. — E então, o que fazemos com ela? – perguntou Gael. Silas e ele olharam para o corpo inerte. ( Esse livro vai ter postagem de apenas 1 capítulo por dia, até alcançar 200 seguidores. Comentem para ajudar o livro a crescer. abraços)
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