As nuvens sobre as Adirondacks não apenas despejavam água; elas pareciam ter se fundido em uma massa sólida e opaca que engolia a silhueta das montanhas. A chuva caía de forma tão torrencial que a visibilidade havia sido reduzida a meros palmos além do capô. Gael apertou o volante de couro, sentindo a tensão reverberar em seus antebraços. Os faróis altos, que deveriam rasgar a escuridão da Coreys Road, eram inúteis, rebatendo contra a cortina branca de água e criando um clarão cegante que tornava tudo ainda mais perigoso.
— Droga... — sibilou ele, a voz carregada de uma irritação que beirava o presságio.
Ele conduzia um sedan de luxo, um modelo do ano que exalava uma elegância discreta, mas autoritária. Não era um esportivo vulgar; era um veículo que denotava poder consolidado e contas bancárias extensas, projetado para oferecer conforto absoluto. Naquele momento, porém, o isolamento acústico apenas tornava o som dos trovões mais sinistro, como se eles estivessem ecoando dentro de sua própria mente. Gael nunca gostara de transitar por aquela via à noite, especialmente sob tempestades que transformavam a floresta em um labirinto de sombras e perigos ocultos. Contudo, a reunião com os advogados da família — uma sessão exaustiva sobre propriedades e heranças que parecia não ter fim — roubara-lhe o luxo de viajar sob a luz do sol.
O console central iluminou-se, e o toque polifônico do telefone quebrou o silêncio tenso. Gael reduziu ainda mais a velocidade, sentindo os pneus lutarem por tração na lâmina de água que cobria o asfalto. No visor, o nome apareceu. Ele atendeu imediatamente.
— Oi, vô.
— Gael? Onde você está, meu filho? A tempestade aqui em cima está piorando a cada minuto.
A voz de Silas — um nome que carregava o peso dos Beaumont, sobrenome de uma época em que os homens eram moldados pelo aço e pelo silêncio — soou crepitante através do sistema de som do carro. Silas era o patriarca, um homem cuja preocupação raramente era expressa em palavras, o que tornava aquela ligação ainda mais significativa.
— Estou na Coreys Road. Está feio, mas estou perto de chegar. Mais uns vinte minutos e atravesso o portão.
— E como foi a reunião? Aqueles abutres de terno deram muito trabalho?
Gael suspirou, desviando o olhar por um instante para o painel digital.
— Foi o de sempre, Silas. Papéis, assinaturas e ganância. Quando eu chegar em casa, a gente conversa com calma, está bem? Só quero sair dessa estrada.
— Tudo bem. Dirija com cuidado. Estou te esperando.
Gael desligou, mas o breve momento de distração foi suficiente. Ao voltar os olhos para o para-brisa, o coração deu um solavanco violento contra as costelas. No centro da pista, banhado pela luz pálida dos faróis, um cervo estava parado. O animal permanecia imóvel, os olhos grandes e escuros refletindo a luz em um estado de choque catatônico — o clássico congelado diante dos faróis.
— Não, não, não! — gritou Gael, girando o volante bruscamente para a esquerda.
O carro respondeu, mas a física foi c***l. Ao atingir uma poça profunda, o veículo aquaplanou. Gael sentiu a perda total de controle: a sensação aterrorizante de que o carro agora era apenas um projétil de metal deslizando sobre vidro molhado. O sedan invadiu a vegetação rasteira na lateral da pista. O som foi imediato e doloroso para qualquer amante de máquinas: o mato alto sendo esmagado sob os pneus e, em seguida, um estalo seco e violento quando o retrovisor direito foi arrancado pelo tronco grosso de uma árvore.
Ele pisou no freio com toda a força. O sistema ABS trepidou sob seu pé, e o carro finalmente parou com um solavanco brutal que arremessou seu corpo para a frente. O cinto de segurança travou, comprimindo-lhe o peito e impedindo que sua cabeça atingisse o para-brisa.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo ruído rítmico dos limpadores de para-brisa, que continuavam lutando inutilmente contra o dilúvio.
— Son of a b***h ! (Filho da püta) — urrou Gael, batendo as duas mãos contra o volante.
Ele puxou uma lufada de ar, tentando controlar o tremor nas mãos. Engatou a marcha à ré e acelerou suavemente. O motor rugiu, mas as rodas apenas giraram em falso, cavando ainda mais fundo na lama. Tentou a primeira marcha. Nada.
— Cäralho... tudo está dando errado hoje.
Soltou o cinto, passou a mão nervosamente pelos fios de cabelo e umedeceu os lábios secos com a ponta da língua. Precisava avaliar o dano.
Gael abriu a porta e, no instante em que colocou o pé para fora, o frio das Adirondacks o atingiu como um tapa. A chuva, gélida e impiedosa, encharcou seu paletó de grife em segundos, fazendo sua pele arrepiar.
Dando a volta no veículo, amaldiçoou a escuridão.
— Merda… Eu odeio essa p0rra de escuridão.
Ao chegar à dianteira, confirmou o que temia: a roda esquerda estava atolada até o eixo em uma mistura de terra preta e folhas podres. Ele colocou as mãos na cintura, encarando a lataria impecável agora coberta de lama. Pensou em empurrar, mas sabia que a força necessária provavelmente amassaria o capô. Precisava de tração. Pedras, galhos, qualquer coisa para calçar o pneu.
Gael afastou-se alguns passos do carro, usando o feixe dos faróis como guia. O cenário era apocalíptico. Raios cortavam o céu, iluminando por milésimos de segundo a silhueta retorcida das árvores, e o trovão que vinha em seguida era um rugido gutural, como um monstro faminto despertando nas profundezas da floresta.
De repente, enquanto examinava o chão com os olhos semicerrados por causa da chuva, Gael sentiu o pé esquerdo afundar em algo que não parecia apenas lama. Havia uma resistência diferente, algo mais macio e, ao mesmo tempo, sólido.
Ele parou.
O vinco em sua testa se aprofundou.
— Que diabos é isso...? — sussurrou, sentindo a inquietação subir por sua espinha como uma descarga elétrica.
Seu coração começou a martelar na nuca. Ele se inclinou, afastando a vegetação ao redor para permitir que a luz do carro alcançasse aquele ponto específico onde seu pé afundou.
Então viu.
Uma mão pálida, pequena.
Os dedos levemente curvados emergindo da terra como se tentassem agarrar o ar. Logo acima dela, um pedaço de tecido vermelho vivo escapava do solo, parecendo uma língua ensanguentada em contraste com a terra escura. E, brilhando sob a luz artificial, havia uma aliança de ouro em um dos dedos.
Era uma cova rasa. Um túmulo improvisado, cavado às pressas na margem da Coreys Road.
Gael sentiu o impulso imediato de correr, entrar no carro e desaparecer dali. Mas algo o manteve preso ao chão. Ele se abaixou, os dedos trêmulos tocando a aliança fria.
No instante em que sua pele encontrou o metal, o dedo indicador da mão feminina moveu-se levemente.
Gael recuou de forma brusca, caindo sentado na lama.
— Não... isso é coisa da minha cabeça — murmurou, ofegante.
No entanto, quando tornou a olhar, viu o dedo tremer outra vez. Um movimento espasmódico, fraco, quase imperceptível, porém inegavelmente vivo.
— Meŕda...
O pânico foi substituído por uma descarga violenta de adrenalina. Gael começou a cavar. Esqueceu a lama, o carro atolado, o frio e a reunião. Suas mãos passaram a agir como pás, arrancando punhados de terra e lodo.
“Seja quem for, está viva.”
O pensamento repetia-se em sua mente como um mantra desesperado.
À medida que limpava o rosto soterrado, o impacto o atingiu em cheio. A vítima era apenas uma garota — muito jovem, provavelmente no limiar da adolescência — com traços delicados que a morte prematura ainda não conseguira apagar.
Gael a puxou para fora da cova com um esforço que o fez gemer. O corpo dela estava pesado pela água e pela lama.
Ele a deitou sobre o solo em meio ao mato alta e inclinou o ouvido sobre seu peito. O silêncio da floresta pareceu zombar dele por um segundo interminável.
Então ouviu.
Um batimento.
Fraco. Quase inexistente.
A respiração vinha em espasmos lentos e irregulares.
Gael não hesitou. Limpou a lama da boca da jovem e iniciou a respiração boca a boca, intercalando-a com compressões cardíacas ritmadas.
— Vamos... não morra. Acorda! — ordenava entre uma compressão e outra.
Ela não reagia, mas ele percebeu que seus músculos começavam a apresentar uma rigidez estranha, talvez causada pelo frio extremo ou pelo choque traumático. Não podia esperar. Se a deixasse ali, morreria em poucos minutos.
Com um esforço hercúleo, Gael a ergueu nos braços. Ela era leve, mas o terreno escorregadio transformava cada passo em um desafio.
Ele abriu a porta traseira do sedã e, com uma delicadeza que não sabia possuir, acomodou-a sobre o banco de couro caríssimo, agora manchado de lama.
Voltou para a frente do carro.
A adrenalina lhe concedeu uma força de potência duplicada que normalmente não usa. Apoiado contra o capô, empurrou com violência. O metal cedeu sob suas mãos, criando uma mossa profunda na tampa do motor, entretanto o veículo finalmente ganhou tração e saltou para fora do atoleiro.
Gael entrou no carro, encharcado e ofegante. Observou o próprio reflexo no espelho retrovisor interno e viu um homem que m*l reconhecia.
Estava indo contra a regra de ouro que Silas e seus falecidos pais sempre lhe ensinaram:
Nunca se exponha. Nunca se envolva nos problemas dos outros.
A invisibilidade era sua maior proteção.
Todavia, ele já havia feito sua escolha.
Gael engatou a marcha e acelerou, deixando para trás a cova vazia. Sabia, no fundo da alma, que acabara de cometer o erro mais perigoso de sua vida ao resgatar uma quase defunta. Contudo, algo dentro dele — uma parte enterrada sob anos de cinismo, negócios e frieza — recusara-se a assistir à morte como mero espectador.
Enquanto dirigia em direção às luzes distantes de sua propriedade, seus olhos voltavam repetidamente ao retrovisor, observando a jovem imóvel no banco traseiro.
E a curiosidade começou a crescer, sombria e insistente.
Quem era ela?
E quem, em sã consciência, enterraria alguém viva na margem de uma estrada esquecida por Deus?
As Adirondacks guardavam segredos.
Mas Gael acabara de colocar um deles dentro do próprio carro.
E segredos como aquele raramente permaneciam em silêncio.