Quando Pandora me convidou para ir com ela eu imaginei que se trataria de algo na cidade, mas quando o carro tomou a estrada principal saindo da cidade e quase quarenta minutos depois estávamos vendo a placa de " bem vindos a cidade de Blackwood, " eu fiquei confusa e curiosa, mas não perguntei nada, apenas busquei esperar pacientemente que ela diga algo, então quando ela estacionou o carro próximo ao que parecia uma mansão antiga me olhando de canto com uma expressão de diversão, eu sinto que ela vai falar algo importante.
Falar coisas importantes com essa expressão de diversão é mais um dos mil fatos sobre ela.
Pandora tem algo em seu olhar que me deixa ainda mais curiosa sobre ela e seu passado.
É como se nada pudesse a abalar.
As vezes eu me pergunto como ela pode ser tão confiante o tempo todo e o fato dela não falar muito, ainda mais sobre sua vida me deixa a beira de um colapso as vezes, porque eu quero a conhecer, quero saber sobre seu passado, quero entender cada mania e gesto, o que a irrita e o que a deixa feliz.
Pode ser algo bobo, mas eu quero saber.
Quero a conhecer profundamente.
A conhecer de uma maneira que ninguém conheça.
- Essa cidade fazia parte do domínio da sua família, sabia disso ? - pergunta olhando para a mansão.
- Não, meu pai não permitia que eu desse uma espiada nos livros sobre a família. - respondo e ela revira os olhos.
- Eu já imaginava isso, por isso te trouxe comigo. - diz e eu faço uma leve careta enquanto tento adivinhar o que vem a seguir. - Seu pai queria te casar com Adler Collymore para conseguir acesso a essa mansão e segundo algumas pesquisas foram os antepassados da alcatéia dele que expulsaram a sua família dessa cidade e tomaram a mansão. - completa e então entendo porque a insistência de meu pai em relação a que eu seguisse a tradição da família e me casasse cedo.
- Ele queria me usar como troca de moeda, eu me casava com Adler e em troca ele teria acesso tranquilo a cidade e a mansão. - digo e ela assente sorrindo de canto.
- Você entendeu bem rápido, gosto de como você é esperta. - diz e eu sorrio de maneira contida. - Tem alguma em uma parte subterrânea dessa mansão que ele quer muito. - completa com uma expressão de diversão e a maneira como seus olhos brilham me faz entender o que ela pretende.
- E você quer pegar antes dele. - digo e ela assente.
- Pensei que seria divertido ver ele tentar encontrar algo que estaria sobre nosso domínio. - diz e eu olho para a mansão.
Ele ia me usar para conseguir algo que ele quer muito, estou começando a entender a qué nível ele pode chegar para ter o que quer e isso me deixa irritada.
- Como vamos entrar aí sem ser vistas ? - pergunto e ela me olha com uma sobrancelha arqueada. - Nem ferrando que eu vou te deixar ir sozinha e além do mais eu quero saber o que tem nessa mansão e o que meu pai queria. - completo e ela me olha de uma maneira que eu não consigo decifrar.
- Se algo der errado e formos notadas, pessoas terão que morrer, acha que pode lidar com isso ? - questiona séria e eu engulo seco.
- Eu não sei, mas eu quero fazer parte disso, na verdade eu preciso e tenho que fazer isso com você, então com as consequências eu lido depois. - respondo da maneira mais firme que posso e ela me observa em silêncio por alguns segundos e por fim dá de ombros.
- Tá legal, vamos nessa. - diz e em seguida estica sua mão em minha direção tocando meu cabelo. - É uma pena ter que tirar temporariamente a beleza deles, mas eu não quero correr o risco de que alguém te reconheça e alguém aqui me veja, então seremos as mestres dos disfarces hoje. - brinca me olhando nos olhos e em seguida noto uma mudança em meu tom de pele.
Minha pele bronzeada se torna branca, meus cabelos vão ficando ruivos, porém os cachos ainda estão ali olho pelo retrovisor interno e quase salto de susto ao ver como estou parecendo uma parente da Mikhaela, até os olhos azuis, as sardas fofas e os lábios avermelhados.
- Que tipo de mágica é essa ? - pergunto curiosa.
- É uma longa história. - responde e então eu noto seu cabelo mudar de loiro para branco e seu rosto aos poucos ir ganhando expressões desconhecidas, mas seus olhos permanecem da mesma cor. - Eu te deixei com a aparência da mãe da Mikhaela quando era nova, você pode confirmar isso lendo aquele livro depois, lá tem toda a árvore genealógica podre dela. - brinca e eu me olho mais uma vez notando o quanto isso é louco.
- E qual é a pessoa que você copiou a aparência ? - pergunto curiosa.
- Uma pessoa qualquer que também já morreu. - responde divertida e eu suspiro.
- Tá legal, vamos nessa garota morta. - brinco abrindo a porta do carro ouvindo uma breve risada sua em resposta.
- Vamos vovó morta. - rebate me fazendo rir em meio a uma careta.
Ótimo.
Vamos lá.
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Eu não tinha intenção de deixar Luna ir tão longe, mas algo me diz que ter noção de como as coisas serão na vida dela após a transformação seria bom para ela, a ajudaria a ver de perto a sua nova realidade.
Também vai ser interessante e divertido caso nossa presença seja milagrosamente notada.
Afinal ela teria que reagir e eu quero ver como ela faria.
Caminho lentamente com ela para o ponto marcado se afastando da casa e ela olha tudo em volta com curiosidade.
- Primeira lição, nunca fique olhando em volta dessa maneira, isso chama atenção, então tente ser discreta e olhe para frente de cabeça erguida como se não houvesse nada ao seu redor. - digo e ela me olha curiosa. - Isso vai fazer as pessoas pensarem que você não está nem aí para o que está a sua volta, então automaticamente você vai passar despercebida em certas ocasiões como essa, afinal ninguém desconfia da pessoa que não tá nem aí pra ninguém. - completo e ela sorrir de canto.
- Entendi, mas alguma lição mestre Yoda ? - pergunta divertida e eu n**o.
- Por enquanto não, apenas me siga. - respondo no mesmo tom e ela presta continência de maneira infantil e eu sorrio negando com a cabeça.
Tão boba.
Essa é uma das coisas que eu gosto nela.
Continuo nos guiando em silêncio notando que agora ela olha em volta de maneira discreta, usando na maioria das vezes sua visão periférica quando algo lhe chama muita atenção, também não deixo de notar o quão de certa forma isso é infantil, chega a ser engraçado a maneira como ela se porta as vezes e acho até que posso dizer que essa é uma das coisas que me atraí nela.
Há tantas coisas nela que me chamam atenção.
Seus olhos, sua boca, seu corpo, seu cabelo, sua pele bronzeada, a maneira como ela se comporta, sua maneira de pensar, a curiosidade e seu coração.
Eu não sei bem o significado verdadeiro de algumas coisas, mas posso afirmar que Luna é a definição de beleza.
Interior e exterior.
Isso me leva à uma questão que tenho pensado com frequência, as diferenças entre nós são grandes e eu sinto que em algum momento isso virá a tona de uma maneira que pode acabar com nós duas, acabar com algo m*l começou. Luna é pura e se eu pudesse me definir de uma maneira mais específica eu realmente diria que eu faço jus ao apelido de " o demônio de Jersey."
Luna é muito piedosa, compreensiva, bondosa e tantos outros adjetivos que alguém do bem costuma receber, mas diferente dela eu sou o oposto de tudo e eu gosto de ser assim, eu faço o que quero e faço o que eu tenho que fazer não importa as consequências, não importa quem irá se machucar no processo. Desde criança eu aprendi que não devo me arrepender das coisas que faço, porque o mundo é c***l e ter compaixão na maioria das vezes significa abrir a porta para a destruição e a convidar a fazer o que quiser da sua vida.
A vida é um jogo perigoso cheio de finais ruins e raramente temos a oportunidade de ver ou ter um final feliz.
Viver significa está em crise consigo mesmo constantemente.
Eu até poderia dizer que a vida é um barco onde nos estamos o tempo todo remando no imenso e infinito mar da agonia.
Respiro fundo olhando discretamente ao redor para garantir que passamos despercebidas e em seguida me abaixo para puxar a porta do alçapão no quintal de um doz vizinhos e em seguida desço primeiro sentindo toda a poeira vir contra meu rosto como se alguém tivesse ligado um ventilador em frente ao meu rosto e depois jogado areia, faço uma careta e em olho para cima fazendo um gesto para que a pule e então ela o faz tendo o privilégio de ser segurada por mim.
- Que forte. - diz divertida e eu sorrio a colocando no chão.
- Ainda bem que sou, assim você não precisa torcer o pé ou cair de b***a no chão, porque eu te seguro lobinha. - digo no mesmo tom e ela sorrir e em seguida olha em volta franzindo levemente o cenho.
- Esse lugar tá caindo aos pedaços. - diz e eu olho em volta vendo uma parede rachada enquanto a outra tinha um mofo enorme, sem contar os móveis cheios de cupim, a poeira e o cheiro r**m.
- Vamos sair logo daqui. - digo me abaixando e em seguida foco minha audição em volta.
Escuto os pássaros lá fora, alguns corações batendo tranquilamente e outros acelerados, diversas vozes ao mesmo tempo e então posso ouvir o barulho que eu estava procurando, uma tubulação de ar abaixo do piso indicando que minha suposição de que essa casa abandonada tem ligação com os túneis subterrâneos que levam até a antiga mansão Blackwood. Bato no piso vendo que precisaria colocar um pouco de força para fazê-lo ceder, olho para Luna que me observa com uma expressão curiosa.
- Se afasta. - digo e ela o faz rapidamente e então eu soco o piso de madeira vendo ele rachar em seguida e então soco outra vez fazendo boa parte dele ceder e Luna salta para trás assustada enquanto a parte em que estou também cede me fazendo cair sobre um joelho só e ouço um estalo.
- p**a m***a. - diz com os olhos arregalados apontando para o meu joelho e eu acompanho seu olhar vendo que desloquei a rótula do joelho esquerdo.
Sorrio me levantando e em seguida faço um movimento com o joelho para colocar tudo de volta no lugar sob o olhar incrédulo e atento de Luna que me observa ainda lá de cima.
- Você é maluca. - diz com uma expressão de espanto e eu reviro os olhos.
- Desce logo, temos um longo caminho pela frente. - digo tranquila e ela n**a com a cabeça.
Foi só uma torçãozinha de nada.
Não é pra tanto.
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Caminhar pelo túnel foi a parte mais fácil, mas difícil foi ter que responder todas as curiosidades da garota enquanto tento não me distrair com o som da sua voz e errar o caminho. Pela primeira vez na vida eu não estou totalmente focada em algo, mas eu sei bem o porquê disso, o fato dela estar aqui me deixa em alerta para possíveis perigos, sua presença me distrai porque ela é importante para mim e então mantê-la segura é mais importante do que qualquer outra coisa.
E essa é mais uma das coisas que eu tenho pensado.
Eu não sou tão imune a certos sentimentos como eu pensei.
Assim como qualquer outra pessoa eu também tenho preocupações e agora sei que há pessoas com quem eu me importo.
Pessoas que alcançaram um lugar de relevância na minha vida.
- Esse lugar fede ainda mais que aquele sótão. - diz chamando minha atenção e eu a olho.
- Estamos chegando a entrada. - digo vendo marcas de garras nas paredes
- Isso foi feito por lobos ? - pergunta se aproximando de uma das paredes e em seguida toca as marcas.
- Provavelmente. - respondo vendo ela franzir o cenho.
- Isso é estranho. - diz e eu a observo atenta as suas ações. - Eu tô sentindo uma sensação esquisita. - continua passando as pontas dos dedos nas marcas e em seguida olha para a direção a qual iriamos a seguir como se estivesse procurando algo. - Você ouviu isso ? - pergunta e eu n**o com a cabeça. - Está me chamando. - completa e antes que eu possa dizer qualquer coisa ela sai andando a minha frente.
- Luna ? - chamo e ela continua andando. - Lobinha ! - exclamo a vendo virar no túnel e então corro atrás dela.
Ótimo.
Bom momento para surtar Blackwood.
Não tinha outro melhor, tinha que ser agora.
Inferno !
Sigo atrás da garota a vendo caminhar focada em algo a sua frente como se estivesse em transe e penso que esse é um bom momento para mim intervir e me xingar mentalmente por tê-la trazido, mas ao ver aquela porta com um símbolo da tríade invertido eu não tenho dúvidas de que possa haver algo muito pior do que pensei ali. Luna para em frente a porta e em seguida parece analisar o símbolo é um espaço para colocar a palma da mão sobre a porta.
- Nem pense nisso. - digo e em resposta ela coloca a mão ali me fazendo querer soca-la por me desobedecer.
Espero que o pior aconteça ou que encontremos um grupo pronto para a briga atrás da porta, mas não vejo nada, porém algo me chama atenção de maneira negativa, sinto a marca acima de meu peito arder e então coloco a mão no local, volto minha atenção para Luna vendo que a garota fez a burrice de entrar ali sozinha e então vou atrás dela. Passo pela porta tão rápido que se houvesse algo no caminho eu teria capotado feito um carro em um acidente grave de trânsito, olho em volta vendo mais símbolos invertidos de todos os clãs e suas variações, frases escritas a maioria na linguagem celta antiga e em latim, isso me chama atenção, mas não tanto quanto ver uma espécie de altar mais a frente e nele havia uma caixa de madeira com detalhes dourados, parece até ser ouro de verdade. Noto também que Luna está fixada no objeto e que seja lá o que tenha ali dentro não deve ser coisa boa, afinal a atraiu e a fez agir de maneira irracional, sem pensar duas vezes surjo em sua frente e agarro seus ombros a obrigando a parar e me olhar notando os olhos vermelhos de alfa e então solto seus ombros e saio de sua frente entendendo que seus instintos estão falando mais alto, afinal ela está em casa.
Ela é uma Blackwood oras.
Eu deveria ter imaginado que a magia que vaga por esse lugar reconheceria o sangue de alguém da sua linhagem.
E então graças ao efeito da primeira transformação ela seria dominada por seus instintos não dominados.
Suspiro vendo Luna se aproximar da caixa e espero pelo desfecho desta situação a assistindo ir de encontro a algo curioso e interessante, eu não havia me dado conta, mas talvez só Luna pudesse chegar até aqui, talvez só ela possa adquirir o ítem dentro da caixa e por isso Cerberus queria a entregar nas mãos de um cara qualquer só para conseguir o que quer.
Aquele maldito !
Eu quero máta-lo, mas não posso.
Somente Luna pode fazer isso, esse é o seu destino.
Molho os lábios usando a ponta da língua enquanto observo Luna tocar na caixa, espero que apareça algo que eu possa bater, mas tudo o que vejo é Luna dizendo algo em latim.
- Cor diaboli est... - diz tocando a caixa e então eu posso sentir a energia ao redor, uma energia forte e densa. - Renatus, Renatus, renatus. - repete sem parar e eu dou um passo a frente pronta para intervir, mas então ela se vira me olhando com os olhos agora esbranquiçados. - Tu, tu, electe quod furto reddendum est, tu. - completa e então eu vou até lá e afasto a garota da caixa.
Ao desfazer o contado da garota com a caixa uma concentração forte de energia sai da caixa e é lançada contra nós, em um movimento rápido envolvo a garota em meus braços a protegendo e recebendo todo o golpe de energia que nos lança contra uma parede.
Puta m***a !
Essa doeu.
Algo deu muito errado aqui.
________________ Continua ________________