O Pacificador, O Demônio De Jersey & A Louca. ( Parte 1 )

3207 Words
Cair e levantar. Cair e levantar. Cair e levantar. Isso é tudo que tenho feito nos últimos dias, no entanto a cada vez que caio e o desânimo tenta dominar minha mente, eu me lembro de meu pai, lembro das coisas horríveis que ele fez e que sou a única capaz de para-lo, mas para isso eu preciso aprender o que ele já sabe há anos, preciso alcançar a grandeza dentro de mim e me tornar forte para ser merecedora dela. Preciso me esforçar mais. Preciso ser tão forte quanto ela. Seria mais fácil se ela estivesse presente o tempo todo ou ao menos por tempo suficiente para conversarmos, no entanto apesar de me apoiar quando está aqui, ela tem saído todas as tardes e sempre volta de madrugada quando estou dormindo, várias vezes tentei ficar acordada até ela chegar, mas sempre sou vencida pelo cansaço dos treinos pesados, mas as vezes pela manhã posso sentir o cheiro de álcool em suas roupas. Não temos conversado tanto quanto eu gostaria, na verdade nossos diálogos tem sido breves e por isso não tenho coragem de perguntar o motivo de suas saídas e da bebedeira repentina, sem contar que não demos um rótulo ao que temos, ela apenas sabe como me sinto, mas ela não esclareceu como se sente, pelo menos não com palavras específicas. Também sinto que tem algo errado, nossa ligação me diz que ela não está bem e que precisa de mim, mas não sei como posso ajudá-la, não sei ao menos o que vem a afligindo, no entanto está explícito na maneira como ela fala, como tem agido e em sua aparência. Ela está cansada, agitada e m*l humorada. Entre outras coisas. Suspiro tomando um pouco de água pensando em como posso focar no meu treinamento e me preocupar com Pandora ao mesmo tempo, não dá pra fazer os dois e então penso se deveria me dar um descanso pelo resto da tarde. - Estou sentindo um cheiro de couro queimando. - diz Petra se aproximando e eu a olho. - Não, espera ! - exclama fingindo surpresa. - É só a fumaça dos seus pensamentos sobre sua baby alive demonioca. - completa se sentando ao meu lado e eu sorrio de maneira contida. - Se ela te ouvir a chamando assim, eu irei lamentar muito a sua perda. - brinco e ela ri. - Ela me ama, não vai me m***r, talvez arrancar um braço e me tornar o primeiro lobo de três patas, não sei, são tantas possibilidades quando se trata dela. - brinca e eu literalmente a imagino em sua forma de lobo com somente três patas e então não posso conter o riso. - Isso é bizarro. - digo e ela arqueia uma sobrancelha. - Então porque tá rindo ? - questiona divertida e eu reviro os olhos. - Porque você é i****a ? - questiono e ela ri. - Touché my queen bee ! - exclama sorrindo e em seguida se vira sentando em forma de indio e eu a olho. - O que está te incomodando amorzinho ? - pergunta com uma expressão curiosa enquanto seus olhos castanhos claros parecem me avaliar. - Olhe em volta e me diga o que falta aqui. - digo divertida apesar de estar muito frustrada e ela sorrir. - Loira, um pouco alta, olhos azuis claros tão intensos que parecem que estão devorando a sua alma só dela te olhar, tem uma maneira de olhar de canto enquanto sorrir da mesma maneira que te deixa igual manteiga derretida e outras mil coisas que não irei citar, porque não quero ficar o dia todo nisso. - diz e eu faço uma careta assentindo. - É verdade, eu adoro quando ela sorrir e olha de canto mesmo. - digo me lembrando das várias vezes em que ela já fez isso comigo. - Enfim, tem algo errado com ela. - completo e Petra ri. - Tem algo errado com ela desde que nasceu abelhinha. - diz divertida e eu sorrio negando com a cabeça. - Ei, foca aqui. - peço e ela revira os olhos. - Ela é muito forte, consegue resolver o que quer que esteja a incomodando, você não precisa se preocupar, isso vai passar. - diz e sem querer eu solto o ar com força após uma tentativa falha de tentar conter minha frustração. - Se acha que pode ser algo fora do normal, então vá até ela e pergunte, seja sincera e dê uns beijinhos nela, porque eu não aguento mais tanto m*l humor. - completa e eu sorrio. - Bem que eu queria mesmo uns beijinhos. - digo divertida e ele me olha daquela maneira maliciosa mexendo as sobrancelhas freneticamente e em seguida rimos juntas. - Eu te entendo. - diz suspirando em seguida. - Mais é sério, você devia ir até ela e colocar pra fora o que tá pensando, se falar não der certo, então jogue ela na parede, dê dois tapões naquela carinha linda e depois capriche no beijo, aposto que ela vai ficar doida. - completa me fazendo rir e negar com a cabeça. - Isso é loucura, mas eu gostei. - digo e ela sorrir mexendo uma sobrancelha em resposta. Idéias eu tenho, mas será que vou conseguir executa-las na hora ? Não, não posso me render assim tão facilmente, eu tenho ao menos que tentar. É isso. ____________________________________________ Giro o copo de whisky lentamente encima do balcão enquanto repasso em minha mente o que me trouxe de volta a Mount Holly, sei que foram somente duas coisas, duas coisas das quais eu não posso esquecer por mais que pela primeira vez em dezoito anos a minha mente pareça estar ficando ainda mais instável do que quando fiz aquele m******e em Chicago. Isso é culpa dessas malditas memórias. Elas estão mexendo com a minha cabeça. Em alguns momentos sinto que já não posso mais distinguir o que é passado ou presente. A realidade está se tornando um lugar confuso onde minha personalidade do passado se choca com a do presente e então eu sinto que já não sei o que estou fazendo e eu não gosto nem um pouco disso, toda a minha vida eu sempre soube dizer quem eu era e o que queria, mas agora sinto que estou mergulhando em lugar desconhecido, mas que me cabe muito bem e isso parece loucura demais, até mesmo pra mim e olha que eu sei bem que eu ultrapasso todos os limites da loucura. Esse pensamento me faz rir e levar o copo até meus lábios, mas paro no meio do caminho ao sentir a presença de Mikhaela, coloco o copo de volta no balcão e em seguida olho para o barman. - Traga a garrafa e outro copo. - peço olhando em seus olhos castanhos e ele assente indo fazer o que pedir e então segundos depois vejo o banco ao meu lado ser puxado e em seguida Mikhaela se senta ao meu lado. - Não acha que está indo longe demais ? - questiona pegando o copo cheio encima do balcão. - Do que está falando mamãe ? - questiono divertida me virando para a olhar e ela revira os olhos. - Você está deixando Kora entrar em sua mente e fazer o que bem quiser, isso está te deixando instável Pandora e você e eu sabemos o que acontece quando você fica fora de controle. - responde e eu sorrio, porque ela tem razão, eu realmente estou deixando Kora fazer o que bem quiser, mas o que ela e nem Kora sabem e que ela só vai ir até onde eu quiser, porque no fim das contas e a minha mente, eu a controlo e quando eu conseguir o que quero, Kora vai entender o porquê me chamam de " demônio de Jersey ". - Para conseguir o que se quer, você tem que estar disposta a pagar qualquer preço por isso mamãe, você sabe disso melhor do que qualquer outro ser vivo. - digo e ela suspira se virando e em seguida me olha com seus olhos azuis furiosos, e eu adoro esse brilho raivoso. - E por saber disso eu vou te dizer uma coisa e espero que você nunca a esqueça. - diz séria e eu posso ver que ela está apertando os dentes para conter a raiva. - Você conhece bem a minha história e sabe que o preço que eu paguei por me apaixonar foi ter todo o meu clã extinto e se tem algo do qual me arrependo é isso, as vezes o preço é alto demais Pandora, não brinque com isso. - continua e em seguida respira fundo. - Eu te conheço bem, eu te criei, você pode não ter saído de mim, mas ainda sim sou a sua mãe e o seu passado não importa pra mim, porque estamos no presente agora e por isso eu te pergunto. - faz uma olhando em meus olhos de uma maneira tão intensa que eu imagino que ela possa estar tentando me hipnotizar ou jogar alguma magia em mim, sinto vontade de rir desse pensamento, mas me contenho para não deixá-la furiosa. - Se o preço para você conseguir o que deseja for perder Luna e todos os amigos que fez, até mesmo a mim, você ainda seguiria em frente com isso ? - questiona ainda sem tirar seus olhos dos meus e eu sorrio. - Se houvesse essa possibilidade, então antes acontecer eu tornaria esse mundo em um inferno na terra mamãe, porque ninguém pode tocar nas pessoas que eu gosto e achar que não haverá consequências catastróficas. - digo e pelo canto de olho vejo o barman colocar a garrafa de whisky e um copo encima do balcão, então pego a garrafa e levo até meus lábios tomando um gole da bebida sem desviar meu olhar do dela. - Eu sei que isso é verdade, sei que você faria disso tudo um inferno, mas não estou feliz por ouvir isso. - diz e eu suspiro. - Então o que queria ouvir mamãe ? - pergunto e ela finalmente leva o copo de whisky até os lábios tomando a bebida de uma só vez, limpando os lábios em seguida. - Queria ouvir algo que demonstrasse um pouco de humanidade em você, mas quanto mais se afasta dela, mas monstruosa você fica e nem sequer se dá conta disso. - responde se levantando com uma expressão decepcionada e de certa forma isso me incomoda um pouco. - Não estou me afastando dela, apenas estou deixando que ela siga tranquila para seu propósito, estou a deixando focar cem por cento nisso. - digo e ela ri em resposta e isso me irrita. - Você veio para essa cidade para tentar descobrir algo sobre seu passado, mas principalmente por ela, porque queria a conhecer de qualquer maneira, mesmo que isso nos colocasse de volta no radar da tríade de sangue. - diz espalmando a mão encima do balcão e em seguida respira fundo. - Sei que não quer interferir no propósito que a tornou em quem ela é agora, mas deixá-la sozinha não vai ajudar em nada, você não interfere por estar perto, mas sim por estar longe, porque assim como você precisa dela, ela também precisa de você, esse é o propósito de uma ligação, estar sempre presente mesmo que não possa interferir. - completa irritada. - Ela está indo bem. - digo e ela passa a mão em seu cabelo negando com a cabeça. - Se falar isso em voz alta te faz se sentir melhor, então continue, mas quando voltar para casa e a olhar, eu espero que a verdade te atinja em cheio e que com isso você se lembre do porque estamos aqui. - diz sorrindo de canto. - Tenha uma boa tarde filhotinha. - completa e em seguida se vai. Ótimo ! Ela veio aqui só pra me dá um sermão. Essa minha mãe é uma figura. A observo passar pela porta e em seguida sorrio negando com a cabeça, afinal ela não muda mesmo, está sempre preocupada com os resquícios de humanidade que há em mim, em outras palavras ela se preocupa que eu possa perde-los e usar Luna foi um golpe baixo, mas eu achei bem divertido o fato dela ter ido tão longe e até esperei por algum golpe ou magia como de costume, mas ela aparentemente se conteve e isso é interessante. Pego a garrafa de whisky e tomo um gole da bebida estranhando o sabor em seguida, afasto a garrafa dos meus lábios e a olho notando que a cor da bebida está transparente, cheiro a boca da garrafa notando que não há odor nenhum de álcool e em seguida não consigo conter o riso, pois não acredito que ela fez isso. Transformar a bebida em água é muita maldade mamãe. Mais tudo bem, eu acho que mereço por rir de suas preocupações, então estamos quites. Devolvo a garrafa para o balcão a vendo o líquido transparente voltar a sua cor natural assim que solto a garrafa e em seguida toco na mesma outra vez vendo o líquido ficar transparente novamente me fazendo rir ainda mais. Eu entendi o recado mamãe. Sem bebidas para mim e eu vou aceitar isso numa boa. Suspiro negando com a cabeça e em seguida sinto aquela sensação de estar sendo jogada para trás e me permito ser levada para o lugar mais profundo da minha mente, lugar onde estão as minhas lembranças, fecho os olhos e só os abro quando ouço aquela voz já conhecida e em seguida outras vozes ecoam ao redor e então olho em volta vendo que estou em um bar antigo, mas que me lembra muito o lugar onde estava segundos atrás. - Fiquei sabendo que em Blackwood tem uma jovem bruxa promissora na ramificação secundária. - diz a garota me encarando com seus belos olhos azuis. - Na minha ramificação ? - questiono e ela assente. - Interessante. - digo tomando um gole do whisky em meu copo. - Esse lugar ainda não aprendeu que importar é importante e por isso ainda nos servem essa bebida ridícula de tão r**m. - reclamo largando o copo encima do balcão e ela ri. - Você me parece estressada, isso é por causa daquela loba ? - questiona divertida e eu a olho de canto. - Não a chame dessa maneira ou eu irei quebrar todos os lindos da sua mão. - respondo e ela ri. - Vá em frente, eu me regenero mesmo. - diz com uma expressão divertida e eu sorrio. - Você tem sorte de que eu me importo com a sua existência. - digo divertida e ela arregala os olhos. - Oh ! - exclama levando as mãos as laterais de seu rosto. - O demônio de Jersey se importa comigo, isso é uma benção divina. - debocha me fazendo rir. - Gosto desse seu bom humor, nunca existe tempo r**m para você e isso sim é uma benção. - digo e ela faz uma careta. - Ei, eu sei que eu sou demais, porém eu adoro esse seu jeito todo durona e esse seu humor peculiar me cativa demais. - brinca e em seguida pega a garra de whisky encima do balcão e enche meu copo com a bebida e em seguida enche o seu também. - Somos incríveis e não há dúvidas disso, somos o trio perfeito e com ramificações cheias de lindas mulheres e homens, então vamos brindar com esse " whisky ridículo de tão r**m ". - faz uma pausa e pega o copo de whisky e o coloca em minha mão e em seguida pega o seu. - Ao pacificador, o demônio de Jersey e a louca. - completa levantando seu copo para um brinde e eu sorrio. - A louca. - digo divertida brindando com ela e em seguida tomo a bebida de uma só vez. Olho para o copo e em seguida para a garota ao meu lado, sinto outra presença familiar e então sei que ela está aqui, se aproveitando das minhas memórias, se divertindo e achando que dominou a minha mente, mas eu acho que tá na hora de mostrar que ninguém pode me controlar. - Sabe, eu achei que você fosse melhor que isso Kora, afinal entrar na minha mente é algo que ninguém além de Mikhaela conseguiu. - digo retomando o controle de minhas ações vendo tudo a minha volta ir se desfazendo, inclusive a imagem da garota ao meu lado e então minutos depois estou diante de mim mesma naquela floresta. - Eu sabia que você logo entenderia que eu estava por trás dessa sua recuperação repentina de memória. - diz sorrindo de canto e é bem estranho ver uma cópia de mim mesma. - Então nós poupe tempo e diga o que quer. - digo e ela finge pensar. - O seu sofrimento. - diz sorrindo e seus olhos brilham em fúria. - Nenhuma dessas memórias são falsas, tudo isso aconteceu e eu quero que se lembre de tudo pra que sofra. - completa sorrindo e me olhando de uma maneira sádica e isso me faz sorrir. - É uma penas, porque eu não estou sofrendo nem um pouco com isso, ao contrário eu estou me divertindo e lembrar do passado, tem sido interessante e me feito criar suposições interessantes sobre quem realmente sou. - digo e vejo seu sorriso ir se desfazendo aos poucos. - Você está mentindo, eu tô na sua mente, eu posso sentir a confusão e conflito dentro de você. - diz indignada e eu assinto ficando de pé. - Sim, há confusão e conflito, afinal isso é algo novo para mim, mas não significa que estou sofrendo. - digo e sua expressão se torna furiosa. - Você quer que eu sofra, mas pra isso você precisaria ter força o suficiente para bater de frente comigo e como não tem, você está fadada a apodrecer onde quer que esteja se engasgando seu ódio eternamente enquanto me assiste viver tranquilamente e feliz, fazendo o que eu quiser, enquanto você não pode fazer nada pra me impedir. - completo sorrindo de canto e ela parte para cima de mim, no entanto sua mão atravessa meu corpo. - O que ? - questiona confusa olhando para suas mãos perdendo forma. - Essa é a minha mente e tá na hora de você sair dela v***a. - digo e em seguida estalo o dedo vendo seu corpo ser arremessado para trás e seu semblante assustado me faz sorrir ainda mais. - Não ! - exclama e eu aceno para ela estalando meus dedos outra vez e em seguida tudo a minha volta vai retornando a realidade, me viro enquanto ouço o barulho da porta sendo quebrada pelo contato com o corpo de Kora. Me sento no banco vendo o barman que me atendeu a minha frente e toco a garrafa de whisky encima do balcão, vendo o líquido virar a água e sorrio. Minha mente, minhas regras e moradia até quando eu quiser. Eu gostaria de um copo de whisky para brindar agora, mas vou esperar a fúria da minha mãe passar para isso. ___________________________________________________
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