Toda os dias quando acordo eu costumo respirar fundo, fechar os olhos e ignorar todo o barulho a minha volta, desde as incansáveis batidas da minha mãe na porta do meu quarto e a sua voz irritada por eu nunca acordar cedo quando na verdade eu acordo cedo, eu apenas não quero levantar, não sinto prazer nenhum em tomar café com a minha família, então apenas enrolo enquanto me arrumo lentamente para sair atrasada como sempre não dando a ninguém a chance de me fazer ficar para tomar café e ter um início de manhã desagradável.
As vezes eu também costumo sair de fininho pela janela para correr próximo a floresta proibida onde todos evitam passar ao menos por perto daquele lugar, exceto quando não há outra alternativa, a entrada de membros da alcatéia na floresta proibida e permitida apenas pelo alfa, no caso meu pai, ninguém entra ali sem a sua permissão não importa para o que seja. Eu sempre tive curiosidade de entrar na floresta e saber o porquê ela tem acesso restrito, então sempre que corro pelas proximidades dela eu costumo parar e observar as placas de aviso, encarar a floresta me dá a sensação de que tem algo lá, algo que me chama, que grita por mim o tempo todo á espera de que algum dia eu não resista a minha curiosidade e então quebre a maior regra de todas impostas pela a alcatéia.
Entrar nessa floresta sem a permissão do alfa seria o mesmo que desafiar não só a ele, mas também o conselho.
Seria a pior coisa a se fazer, depois de falar em voz alta que é a primeira alfa, declarando simpatizar com a bruxa da história e a maldição lançada por ela.
Maldição que para eles diminuem e desqualificam os homens da alcatéia.
Não posso nem contar quantas atrocidades eu já vi acontecer com as mulheres que foram contra os ideiais do alfa, ideiais que foram passados adiante de geração para geração cada vez menosprezando ainda mais as mulheres e as submetendo as vontades dos homens. Suspiro encarando a floresta proibida sentindo aquela sensação estranha em meu peito enquanto os pensamentos sobre ter algo ali que chama por mim e que tenta dominar a minha mente voltam a tona.
- O que você quer de mim ? - pergunto mesmo sabendo que não receberia uma resposta.
Continuo encarando as árvores sentindo o vento gelado e os pingos da chuva forte e repentina me fazerem tremer de frio, então fecho os olhos inclinando a cabeça para cima aproveitando a sensação gostosa de paz que me invade nesse momento, até ouvir passos e o barulho de galhos quebrando, então eu abro os olhos rapidamente e olho em volta.
- Quem tá aí ? - pergunto olhando para a floresta.
O barulho dos galhos quebrando novamente me deixa em alerta, porém me sinto patética ao ver um esquilo sair correndo da floresta, se eu tivesse meus genes de lobo ativo eu saberia reconhecer que se tratava apenas de um esquilo inofensivo.
- Luna. - ouço minha voz ser sussurrada e me viro em busca do dono ou dona da voz, mas não há ninguém.
Respiro fundo entendendo que já está na hora de voltar para casa, as coisas já começaram ficar estranhas, então não vou colaborar para que alguma coisa bizarra aconteça. Corro pela trilha de volta para casa com uma sensação estranha de estar sendo observada, mas não tenho coragem de olhar para trás ou para o lado, apenas mantenho meu olhar focado na estrada a minha frente.
As vezes eu penso que não ter meus genes de lobo ativado naturalmente foi uma benção, principalmente quando eu chego a nossa vila, quando eu vejo como as coisas são e que nada muda, eu simplesmente agradeço por ter genes defeituosos que estão me dando uma oportunidade de ter uma vida comum longe desse lugar. Eu sei que eu deveria querer seguir a tradição e honrar o legado desagradável da minha família, mas eu simplesmente não nasci pra isso, eu não me vejo como m****o da alcatéia.
Eu só quero ter uma vida normal e sem graça.
Quanto mais tempo eu passo com os humanos eu desejo ainda mais uma vida comum.
Suspiro ao ver a vila coberta por uma névoa leve e o pequeno castelo da minha família ao fundo dando um ar de cenário de filme de terror ao local, sorrio andando em silêncio pelas ruas vendo algumas pessoas já andando pelas ruas, inclusive a adorável senhora Petrova.
- Bom dia, Luna. - diz a mulher sorrindo me estendendo uma cesta de frutas e eu sorrio.
- Bom dia. - digo pegando a cesta e ela então pega um galão de leite e outra cesta com pães e me entrega.
- A senhorita tem que ter cuidado, não pode sair sozinha de madrugada, ainda mais para aquele lugar. - diz baixo para que ninguém escute e eu sorrio.
- Eu sei me cuidar, não se preocupe. - digo e ela sorrir.
- Você terá um futuro brilhante menina, mas se continuar saindo por aí sozinha de madrugada vai acabar nas mãos de algum serial killer. - diz divertida e eu suspiro contendo a vontade de rir.
- Até mais tarde e diga a Petra que mandei lembranças. - digo e ela ri.
- Eu diria isso se quisesse ver a terceira guerra mundial acontecer, mas como eu não quero vou deixar minha neta imatura sem saber dos seus adoráveis cumprimentos. - diz divertida e eu sorrio.
- Eu não entendo o que aconteceu, eramos melhores amigas até que em um belo dia há três meses atrás eu acordei e ela estava me odiando mais do que meu pai. - brinco e Petrova ri.
- Talvez seja aquilo que vocês jovens chamam de " paixão encubada. " - brinca a mulher me fazendo ri.
- Vai saber. - digo e em seguida olho a hora em meu relógio. - m***a, tenho que ir ou vou me atrasar mais do que o normal. - digo e ela n**a com a cabeça sorrindo. - Até mais. - me despeço acenando da maneira que consigo para ela.
- Até mais querida. - diz acenando de volta e então eu corro.
Corro enquanto penso em Petra minha melhor amiga que se tornou praticamente minha inimiga nos últimos três meses, algo que eu não entendo como aconteceu, eu não fiz nada para ela e do nada ela passou a me odiar de uma maneira que não pode nem ouvir meu nome, chega a ser quase uma loucura vê-la agir dessa maneira comigo se antes costumávamos ser inseparáveis, mas pelo visto não éramos inseparáveis o suficiente para nossa amizade de infância durar a vida inteira, talvez o fato dela ter tido seu genes de lobo ativo enquanto eu permaneço inútil e normal tenha influenciado de alguma maneira o fim da nossa amizade. Suspiro entrando em casa pela ala dos funcionários, deixo as coisas que Petrova me entregou na cozinha e então uso as passagens secretas para chegar ao meu quarto sem ser vista, assim que entro em meu quarto tomo um banho e em seguida me arrumo para ir pra escola, não demora muito para que minha mãe venha fazer seu ritual matinal de bater na minha porta.
- Luna, você está atrasada como sempre. - diz batendo em minha porta. - Kai já está lá embaixo te esperando e seu pai vai ficar fora por três dias, então desça rápido para se despedir dele. - completa e em seguida as batidas na porta param.
Meu pai vai viajar, que maravilha.
Três dias livre para fazer o que quiser sem ser infernizada.
Obrigado, meu Deus !
Pego minhas coisas e em seguida desço correndo para me despedir de meu pai e em seguida passar o dia longe de todas as cobranças diárias, ao descer o último degrau vejo Kai e meu pai conversando enquanto minha mãe se mantém em silêncio próxima a eles.
- Bom dia. - digo chamando a atenção dos três que me olham.
- Bom dia, atrasada como sempre, quantas vezes terei que repetir que isso não é uma atitude aceitável vinda de uma dama da sua classe. - diz meu pai e eu respiro fundo tentando conter a vontade de revirar os olhos.
- Mulheres precisam de mais tempo para se arrumar, nunca ouviu isso papai ? - pergunto tentando conter meu sarcasmo e ele suspira.
- Que seja, não tenho tempo para lidar com as suas crises e falta de senso diárias, então venha cá, me dê um abraço. - responde abrindo os braços e eu vou até ele. - Seja uma boa garota, eu volto em três dias e seu tio vai cuidar de tudo na minha ausência, então não o enlouqueça. - diz e eu reviro os olhos enquanto ele me solta.
- Pode deixar, vou o enlouquecer ainda hoje. - digo e ouço a risada de meu tio, me viro e então o vejo descendo as escadas ainda de pijama passando as mãos em seu cabelo comprido totalmente desalinhado na tentativa de arruma-lo.
- Não tenho dúvidas minha querida, não tenho dúvidas. - diz tio Conan divertido e eu sorrio para ele.
- Você é muito mole meu irmão, por isso ela não te respeita. - diz papai e meu tio sorrir com uma expressão de deboche nítida.
- Ao contrário querido irmão, ela respeita a mim porquê eu a ouço ao invés de simplesmente criticar suas atitudes, ela é uma garota de quase dezessete anos, você cobra coisas demais dela, parece até que não se lembra de como e ser jovem. - diz meu tio e meu pai o encara.
- Eu sou o alfa, como posso liderar essa alcatéia se não puder impor limites a minha própria filha ? - questiona e meu tio revira os olhos.
- Este sempre foi o seu problema Cerberus, você leva tudo ao pé da letra, inclusive o legado retrógrado da nossa família. - responde meu tio parando ao meu lado e em seguida me abraça. - Vocês já deveriam estar bem longe daqui. - diz meu tio beijando minha testa e eu assinto.
- Verdade, estamos atrasados, vamos Luna. - diz Kai e eu caminho até ele. - Até mais papai e boa viagem tio. - completa e meu pai assente.
Ouço eles conversarem enquanto seguimos para fora sob o olhar atento dos dois e minha mãe que sorria de maneira contida acenando para nós, provavelmente meu pai está discutindo com meu tio sobre a maneira pacífica do homem se comparada a maneira bruta ele.
Cerberus e Conan Blackwood.
Os herdeiros do legado Blackwood.
A família lendária de lobos amaldiçoada no antigo conto da bruxa de Mount Holly.
- Vamos ter três dias livres da pressão psicológica do seu pai, isso só pode ser um sonho. - brinca Kai ligando o carro e eu sorrio.
- Parece que Deus ouviu as minhas orações. - brinco e ele ri negando com a cabeça.
- Então acho que devemos aproveitar esse momento para escapar no meio da noite e ir a uma festa que fiquei sabendo que vai ter essa noite. - diz e eu faço uma careta.
- Não me diga que você tá falando da festa do James ? - pergunto e ele assente sorrindo enquanto eu faço uma careta.
- Ei, vai ser uma festa sem lobos, apenas humanos, uma loba que não é loba e um guardião lobo de quinta, então se anima. - responde me fazendo rir. - Sem contar que o típico jogador de basquete e capitão do time tá afim de você e ele também é bem gato, inclusive eu pegaria. - completa e eu n**o com a cabeça.
- Então pega, ele não é meu tipo. - digo tranquila e ele rir.
- Ninguém nunca é seu tipo, humano ou não você simplesmente parece odiar todo mundo. - diz divertido e eu sorrio.
- Talvez seja isso. - brinco e ele n**a com a cabeça sorrindo.
- Ou talvez não tenha aparecido alguém bom o suficiente para agradar seu coração indomável. - brinca e eu dou ombros.
- Quem sabe. - digo mexendo as sobrancelhas freneticamente e ele revira os olhos sorrindo.
O caminho até a escola foi repleto de piadas e sugestões de Kai sobre eu ficar com James, ele até fez uma lista com todos os motivos para mim dar uma chance ao garoto, mas tudo o que fiz foi rir e criar uma lista com todos os motivos para eu não ficar com o garoto e após alguns minutos ele desistiu.
- Chegamos. - diz Kai estacionando o carro na vaga de sempre e eu olho para ele enquanto abro a porta.
- Eu vou a festa se você esquecer esse negócio de James e eu na mesma frase. - digo e ele sorrir.
- Negócio fechado capitã. - diz batendo continência e então eu saio do carro.
E como sempre recebemos vários olhares com diversos sentimentos por trás, alguns nada legais, mas já estou acostumada com isso, afinal eu passo por isso todos os dias na vila, todos os olhares julgadores dos membros da alcatéia, apenas alguns não estão inclusos nisso, fora isso todo o resto me acha a vergonha da família Blackwood e da alcatéia, então pra mim é algo normal toda essa atenção desnecessária.
- A aluna nova misteriosa olhou pra você. - diz Kai enquanto caminhamos pelo pátio de entrada da escola e eu olho em volta em busca da garota a vendo sentada embaixo de uma árvore lendo um livro com fones de ouvido, parece bem concentrada em sua leitura.
- Como você sabe que ela olhou pra mim se ela tá com óculos de sol ? - pergunto divertida e ele revira os olhos.
- Ela fez um gesto bem específico de quem está olhando para algo em especial. - responde e eu n**o com a cabeça. - Eu tô falando sério e se quer saber eu acho que ela te olha as vezes. - completa me fazendo rir.
- Você viaja demais, a garota obviamente evita todos nessa escola, eu até acho que ela realmente odeia pessoas, afinal temos a maioria das aulas juntas e ela nunca sequer me deu um oi mesmo sentando próximo a mim algumas vezes. - digo e ele suspira.
- Então vamos até ela resolver isso. - diz e eu n**o rapidamente incrédula.
- Tá maluco ? - pergunto e ele cruza os braços parando de andar. - Kai, eu não vou incomodar uma garota nova que evita todo mundo só porque você acha que ela olhou pra mim, eu tenho juízo. - digo séria e ele rir.
- Você é muito medrosa. - diz e eu reviro os olhos. - Você não quer ir por medo de que seja verdade o que estou dizendo. - completa e eu n**o.
- Eu só não quero ser assassinada por incomodar uma garota que está quietinha no canto dela, porque e isso que eu faria no lugar dela se alguém atrapalhasse minha leitura por suposições de um primo biruta. - digo e ele ri.
- Okay, vamos fingir que seja isso. - diz e eu empurro seu ombro e ele ri ainda mais voltando a andar passando um braço ao redor de meu pescoço.
Olho para a garota que ainda estava concentrada em seu livro e quando ela levanta a cabeça de repente parecendo sentir que estava sendo observada e olha em minha direção com o óculos caindo um pouco me deixando ter a certeza de que seus olhos que parecem ser claros estão focados talvez em mim ou em Kai, mas quando ela ajeita os óculos cobrindo totalmente seus olhos outra vez e volta a focar em seu livro com um sorriso torto, eu fico confusa.
Me pareceu um sorriso sarcástico.
Acho que não devia ter olhado pra ela.
Será que ela pensou alguma coisa errada ?
Luna, Luna.
Não caia nos delírios do Kai.
Te preserva.
________________ Continua ________________