Piloto
Não era sempre que tinham aqueles momentos.
Por isso, ela tentava aproveitar ao máximo.
O marido era ocupado demais. Reuniões, viagens, telefonemas que nunca terminavam. Dificilmente conseguiam sair. Dificilmente conseguiam qualquer coisa que não fosse jantar em silêncio na mesa de mármore da sala de jantar, cada um olhando para um lado.
Mas naquele dia, o aniversário de casamento conseguiu ser mais importante do que uma reunião de negócios.
Ela acordou com um sorriso no rosto.
E manteve o sorriso quase o dia todo.
Iriam à ópera. Depois, passariam no restaurante favorito dela — o mesmo de quando eram apenas namorados. Antes de aliança, de contrato, de silêncio. Antes de tudo esfriar.
O filho ficaria na casa dos avós. Como quase sempre.
Ele adorava os avós. Não via problema nenhum. E ela... bem, ela havia sido levemente influenciada pelos pais a ter esse tempo com o marido. "Um casal precisa de tempo, filha." "Um casamento precisa de cuidado." "Você tem tudo, minha querida. Não deixe esfriar."
Esfriar.
Ela quase riu ao pensar na palavra.
Fazia um bom tempo que as coisas já não esquentavam.
Ela era apenas uma mulher rica. Com um marido rico. E um filho. A família tradicional. Quase um comercial de TV. Daqueles de margarina, com sorrisos perfeitos e nenhum problema real.
Ela ficava enjoada só de lembrar desse fato.
Mas naquele dia... naquele dia ela ia fingir.
Ia vestir o vestido bonito. Ia arrumar o cabelo. Ia sorrir para o marido como se ainda fossem namorados. Como se ainda houvesse algo além do contrato que assinaram diante de duzentos convidados.
Porque, no fundo, talvez ainda houvesse.
Talvez.
Ou talvez ela só estivesse tentando enganar a si mesma.
Mais uma vez.