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1158 Words
O som constante do ar-condicionado preenchia a sala de reuniões com um zumbido discreto, quase hipnótico. Frio. Preciso. Controlado. Assim como tudo ali dentro deveria ser. Larissa estava sentada à cabeceira da mesa de vidro, perfeitamente alinhada com o centro, como se aquele lugar tivesse sido desenhado para ela. À sua frente, um bloco de notas aberto, as folhas imaculadas aguardando cada palavra que poderia definir o rumo de um processo inteiro. A caneta repousava entre os seus dedos longos, girando lentamente, num gesto automático que denunciava concentração — nunca nervosismo. Ela não era do tipo que se deixava consumir pela ansiedade. Não externamente. Mas havia algo diferente naquele momento. Algo que não vinha do caso em si… mas da expectativa que o envolvia. Cinco minutos. Ela já estava ali há cinco minutos. Tempo suficiente para rever mentalmente tudo o que tinha lido na pasta. Tempo suficiente para estruturar perguntas, prever respostas, antecipar possíveis cenários. E, ainda assim… Algo permanecia fora de controlo. A pasta aberta diante dela carregava informações que, isoladamente, eram comuns em processos de família. Mas juntas… formavam algo mais complexo. Nome: Zayn Castellari. Estado civil: Casado. Regime: Comunhão geral de bens. Filhos: Dois. Situação: Divórcio litigioso. Os olhos de Larissa repousaram por um instante na palavra “filhos”. Era sempre aí que os processos deixavam de ser apenas jurídicos. E passavam a ser humanos. Ela fechou a pasta com cuidado, alinhando-a à mesa com precisão quase milimétrica. Respirou fundo. Endireitou os ombros. E naquele instante, qualquer traço de hesitação desapareceu. Quando ele entrasse… ela estaria pronta. --- A maçaneta girou. Sem pressa. Sem hesitação. E a porta abriu-se com suavidade. Larissa ergueu o olhar. E viu-o. Zayn Castellari entrou na sala como alguém habituado a ambientes onde decisões eram tomadas com poucas palavras e muitas consequências. Não havia pressa nos seus movimentos, nem qualquer necessidade de impressionar. A presença dele fazia isso por si. O fato escuro ajustava-se ao corpo com perfeição, a camisa branca contrastando com a gravata discretamente alinhada. Cada detalhe estava no lugar certo. Mas não era a aparência que dominava o espaço. Era o silêncio que vinha com ele. Um silêncio carregado de algo que não se explicava apenas com estatuto ou poder. Era experiência. Era desgaste. Era… intensidade. Ele fechou a porta atrás de si e, por um breve instante, deixou o olhar percorrer a sala — até parar nela. Larissa sustentou o olhar. Sem baixar. Sem desviar. Profissional. Sempre. — Senhor Castellari — disse ela, com voz firme e controlada. — Sou Larissa Mendes. Estarei a acompanhar o seu caso. Ele aproximou-se. Passos seguros. Medidos. Parou diante da mesa, analisando-a com uma atenção que ia além do protocolo. — A acompanhar… — repetiu ele, como se testasse a frase. — Ou a conduzir? A pergunta não tinha agressividade. Mas tinha intenção. Larissa não hesitou. — A conduzir, dentro das minhas competências. E sob supervisão. Um pequeno silêncio seguiu-se. Os olhos dele mantiveram-se fixos nos dela por mais um segundo do que o necessário. Depois, ele assentiu quase imperceptivelmente. E sentou-se. — Muito bem. --- Larissa sentou-se também, mantendo a postura alinhada, os movimentos contidos e precisos. — Antes de começarmos, há um ponto essencial que precisa ser esclarecido. Ele inclinou ligeiramente a cabeça, indicando que a ouvia. — Tudo o que for dito nesta sala está protegido por sigilo profissional. Nenhuma informação será partilhada sem o seu consentimento, exceto nos limites legais. Zayn apoiou o cotovelo na mesa, aproximando levemente o rosto das mãos entrelaçadas. — E esses limites? — São claros. E serão respeitados. Ele observou-a por um momento. — Espero que sim. — Pode contar com isso. --- Um breve silêncio instalou-se. Não desconfortável. Mas carregado de avaliação mútua. --- Larissa abriu novamente a pasta. — Para que eu possa estruturar uma estratégia eficaz, preciso de compreender a situação na sua totalidade. Ele assentiu. — Então diga-me o que precisa. — Preciso da verdade — respondeu ela, sem rodeios. A resposta ficou suspensa no ar. E, pela primeira vez, algo no olhar dele mudou ligeiramente. Menos defensivo. Mais… direto. --- Zayn recostou-se na cadeira, soltando o ar lentamente. — Tenho dois filhos. A frase veio sem preparação. Simples. Direta. Larissa anotou. — Idades? — Oito e doze. — Vivem com vocês? — Sim. Ela fez mais algumas anotações, organizando mentalmente o quadro familiar. — A relação com eles é próxima? Zayn demorou um segundo antes de responder. — É. A resposta foi firme. Sem detalhes. Mas suficiente. --- — E a sua esposa? — continuou Larissa. Ele desviou o olhar por um instante, como se escolhesse as palavras. — Não aceita o divórcio. — Por motivos emocionais ou patrimoniais? Um leve sorriso, sem humor, surgiu nos lábios dele. — Ambos. Larissa anotou. — Considerando o regime de comunhão geral de bens, todos os ativos adquiridos durante o casamento são partilhados igualmente. — Eu sei. — Isso inclui empresas, investimentos, propriedades… — Tudo. A forma como ele disse aquela palavra carregava mais do que informação. Carregava peso. --- Larissa cruzou levemente as mãos sobre a mesa. — Então este não será um processo simples. — Nunca seria. Silêncio. --- Ela inclinou-se ligeiramente para frente. Mais focada. Mais envolvida. — Preciso saber se há conflitos anteriores que possam influenciar o processo. — Há anos de conflitos — respondeu ele. — Registados? — Não oficialmente. — Mas existentes. — Sempre. --- Os olhos dela levantaram-se dos papéis. Encontraram os dele. E por um instante… Nada foi dito. Mas muito foi entendido. --- — Senhor Castellari — disse ela, com firmeza —, este tipo de processo exige clareza, consistência e preparação. Qualquer omissão pode comprometer a estratégia. Ele observou-a atentamente. — Não tenho interesse em omitir nada. — Então estamos alinhados. --- Zayn inclinou-se ligeiramente para frente, apoiando os braços sobre a mesa. A distância entre eles diminuiu. Mas o profissionalismo manteve-se intacto. — E o que acontece agora? Larissa manteve o tom neutro. — Agora começamos a estruturar o processo. Reunir documentação, avaliar riscos, definir abordagem. — E quanto tempo isso leva? — Depende da complexidade… e da colaboração das partes. Um leve silêncio. — E se não houver colaboração? Ela sustentou o olhar. — Então adaptamos a estratégia. --- O ambiente voltou a ficar silencioso. Mas não vazio. Havia algo ali. Algo que não se nomeava. Mas que existia. --- Zayn recostou-se novamente. — Muito bem. Larissa fechou a pasta. — Vou precisar de alguns documentos adicionais. A minha equipa entrará em contacto. Ele assentiu. Levantou-se. E por um breve instante, permaneceu ali, em pé, olhando para ela. Não como cliente. Não exatamente. Mas também… não fora do contexto. --- — Confio que sabe o que está a fazer — disse ele. A voz calma. Controlada. --- Larissa levantou-se também. — Sei. A resposta veio firme. Sem espaço para dúvida. --- E naquele momento… Nada mais foi dito. Mas o encontro… Não foi apenas formal.
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