O escritório parecia diferente depois que ele saiu.
Não havia alteração visível — os mesmos móveis alinhados, o mesmo silêncio controlado, o mesmo ar frio a circular pelo ambiente — mas, ainda assim… algo tinha mudado.
Larissa permaneceu sentada por alguns segundos após a porta se fechar.
Imóvel.
A caneta ainda entre os dedos, mas agora esquecida.
O olhar perdido sobre a superfície brilhante da mesa de vidro, onde o reflexo suave do teto criava um efeito quase hipnótico.
Ela respirou fundo.
Devagar.
Mas não era suficiente.
Porque a imagem dele… ainda estava ali.
Nítida.
Demasiado nítida.
— Concentra-te — murmurou para si mesma, quase num sussurro.
Mas o problema não era falta de concentração.
Era excesso de sensação.
Zayn Castellari não era apenas um homem atraente.
Ele era o tipo de homem que ocupava espaço… mesmo quando não estava presente.
A postura.
A voz.
O olhar.
Principalmente o olhar.
Larissa fechou os olhos por um instante, tentando reorganizar os pensamentos — como fazia com documentos, com processos, com tudo na sua vida.
Mas desta vez… não era tão simples.
Uma imagem surgiu, involuntária.
O modo como ele se inclinara ligeiramente para frente.
A forma como os olhos dele a tinham analisado… sem pressa.
Um calor súbito percorreu-lhe o corpo.
Ela abriu os olhos de imediato.
— Não — disse, firme.
Endireitou a postura.
Fechou a pasta com mais força do que o necessário.
Era apenas um cliente.
Casado.
Complicado.
E, acima de tudo… proibido.
Ainda assim…
Um pensamento escapou, rápido, quase traiçoeiro:
Se eu tivesse aquele corpo por cima do meu só por uma noite, seria uma terapia …
Larissa pressionou os lábios, como se quisesse conter a própria mente.
— Isso é ridículo.
Mas não era.
Era humano.
E ela sabia disso.
Larissa sempre foi disciplinada.
Sempre.
Mas disciplina não significava ausência de desejo.
Muito pelo contrário.
Ela gostava de sentir.
Gostava de intensidade.
Gostava de controlo… inclusive sobre aquilo que a atraía.
E talvez fosse exatamente isso que tornava tudo mais perigoso.
Porque ela não era ingênua.
Ela sabia reconhecer o tipo de homem que Zayn era.
E sabia… o tipo de reação que ele provocava.
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— Ainda estás aqui parada?
A voz da colega interrompeu-lhe os pensamentos.
Larissa virou ligeiramente o rosto.
— Só a organizar umas coisas.
A colega aproximou-se, encostando-se à mesa com curiosidade evidente.
— Então… já conheceste o tal cliente?
Larissa manteve a expressão neutra.
— Já.
Um silêncio breve.
E então…
— E?
Larissa levantou uma sobrancelha.
— E o quê?
A colega soltou um pequeno riso.
— Não te faças de distraída. O escritório inteiro já está a comentar.
Larissa cruzou os braços levemente.
— Comentários não fazem parte do processo.
— Ah, mas fazem parte da curiosidade humana — respondeu a outra, com um sorriso malicioso.
Larissa não respondeu.
Mas isso não impediu a continuação.
— Dizem que ele é… — ela fez uma pausa, procurando a palavra — impossível de ignorar.
Larissa desviou o olhar.
— Não é relevante.
— Claro que é — insistiu a colega. — Já ouviste as histórias?
Isso fez Larissa voltar a olhar para ela.
— Que histórias?
A outra aproximou-se um pouco mais, baixando ligeiramente a voz.
— Mulheres que já estiveram com ele.
Um silêncio pairou.
— E?
— E dizem que ele não é só aparência.
Larissa manteve o rosto impassível.
— Isso é completamente irrelevante para o caso.
A colega sorriu.
— Para o caso… talvez.
Um breve silêncio.
— Mas para a curiosidade feminina… definitivamente não.
Larissa soltou um pequeno suspiro.
— Não estou interessada nisso.
A colega arqueou uma sobrancelha.
— Não?
Larissa levantou-se, pegando nos documentos.
— Não.
Mas, ao afastar-se…
Sabia.
Sabia perfeitamente que estava a mentir.
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O resto do dia passou entre tarefas e distrações que não conseguiam ocupar totalmente a sua mente.
Porque, sempre que havia um momento de pausa…
Ele voltava.
O olhar.
A voz.
A presença.
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Foi já no final da tarde que ela tomou a decisão.
Pegou no telefone.
Respirou fundo.
E ligou.
Chamou uma vez.
Duas.
E então…
— Castellari.
A voz dele surgiu do outro lado.
Grave.
Direta.
E estranhamente… próxima.
Larissa sentiu um leve aperto no peito, mas manteve o tom profissional.
— Senhor Castellari, fala Larissa Mendes.
Um breve silêncio.
— Já esperava o seu contacto.
Aquilo… não devia significar nada.
Mas significou.
— Estou a entrar em contacto para discutir a possibilidade de tentarmos uma abordagem não litigiosa — continuou ela. — Antes de avançarmos com o tribunal.
— Um acordo.
— Exatamente.
Outro silêncio.
Mais curto desta vez.
— Faz sentido.
— Para isso, será necessário convocar a sua esposa.
— Ela não vai facilitar.
— Mesmo assim, é um passo importante.
Ele demorou um pouco a responder.
E quando respondeu…
A voz estava ligeiramente diferente.
— Vamos tratar disso.
— Ótimo. Podemos agendar uma reunião no escritório amanhã à tarde.
— Não.
A resposta veio imediata.
Firme.
Larissa franziu ligeiramente a testa.
— Não?
— Amanhã à tarde não tenho disponibilidade.
Um breve silêncio.
— Mas podemos tratar disso hoje à noite.
O coração dela falhou um compasso.
— Hoje? A noite?
— No meu escritório.
Ela hesitou.
Não externamente.
Mas por dentro… sim.
— Senhor Castellari, normalmente esse tipo de reunião é feito em ambiente mais formal…
— O meu escritório é formal.
A resposta veio calma.
Segura.
Sem espaço para dúvida.
— E hoje é o único momento que tenho disponibilidade.
Silêncio.
Larissa apertou levemente o telefone.
Ela podia recusar.
Devia recusar.
Mas…
Aquele caso não era qualquer caso.
Era uma oportunidade.
Uma oportunidade que podia mudar tudo.
— Está bem — disse, por fim. — Envie-me o endereço.
— Já tem.
Ela percebeu.
A pasta.
— Estarei lá.
— Às oito.
E a chamada terminou.
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Larissa ficou parada por alguns segundos, o telefone ainda junto ao ouvido.
O silêncio agora parecia mais pesado.
Mais carregado.
— Isto é só trabalho — disse para si mesma.
Mas o tom… não soou totalmente convincente.
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A noite caiu sobre a cidade com uma suavidade quase enganadora.
Luzes começaram a surgir nas janelas dos prédios, criando um contraste entre o exterior vibrante e o interior silencioso do apartamento de Larissa.
Assim que entrou, deixou a bolsa sobre a mesa com um movimento lento.
Tirou os sapatos.
E caminhou até o banheiro.
O dia precisava sair dela.
A água quente do chuveiro envolveu-lhe o corpo como um alívio imediato.
Os músculos relaxaram.
Mas a mente…
Essa continuava ativa.
Ela fechou os olhos.
E por um instante…
Permitiu-se não pensar.
Mas, inevitavelmente…
Ele voltou.
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Minutos depois, saiu do banho com a pele levemente aquecida, o cabelo ainda húmido caindo pelas costas.
Caminhou até o quarto.
Abriu o guarda-roupa.
E parou.
Observando.
Escolhendo.
Pensando mais do que devia.
— É só uma reunião.
Mas então…
Por que estava a pensar tanto?
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Os dedos percorreram os tecidos até pararem.
Um vestido.
Justo.
Elegante.
Preto
O tipo de peça que não gritava… mas também não passava despercebida.
Ela tirou-o.
Segurou-o por um instante.
E decidiu.
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Vestiu-se lentamente.
O tecido moldava-se ao corpo com precisão, acompanhando cada curva com naturalidade.
Nada exagerado.
Mas também… nada inocente.
Secou o cabelo parcialmente, deixando-o solto, com um caimento leve e natural.
Depois, aproximou-se do espelho.
A maquiagem veio com calma.
Olhos definidos.
Pele impecável.
E então…
O batom.
Vermelho.
Intenso.
Marcante.
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Por fim, pegou no perfume.
Aplicou-o nos pontos certos.
Discreto.
Mas presente.
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E então…
Parou.
Diante do espelho.
Observando-se.
Em silêncio.
Os olhos percorreram o próprio reflexo com atenção.
Avaliação.
Consciência.
Controle.
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Ela sabia o que via.
Sabia o efeito que causava.
Sempre soube.
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Mas naquele momento…
A pergunta não era sobre aparência.
Era outra.
Mais silenciosa.
Mais perigosa.
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Larissa inclinou ligeiramente a cabeça, analisando-se uma última vez.
Respirou fundo.
E permaneceu ali.
Diante do espelho.
Sem se mover.