– Grávida? Como assim grávida? A última vez em que saí com alguém foi o Guto e isso faz o quê? Cinco meses? Meu Deus do céu… não usamos preservativos, é verdade, mas eu tomei a pílula do dia seguinte certinho.
– Vamos fazer um exame de sangue para confirmar, mas o resultado que temos neste aqui – disse apontando para o teste de farmácia – é positivo sim. Sem contar os sintomas que anda apresentando.
– Não me venha com esse plural ai não minha querida. É um sintoma! Não tenho culpa se toda vez que pedimos comida na minha vem um fio de cabelo ou qualquer outro tipo de objeto não identificado, não importa o restaurante em que pedimos. Eu vomito mesmo e aposto que se viesse na sua você também vomitaria.
– A questão é que deu positivo, vamos ao laboratório amanhã bem cedo antes do trabalho. – Falou e ficou em silêncio e voltou a se concentrar em seu trabalho.
A tagarela intrometida em questão é Letícia, minha melhor amiga e colega de trabalho. Trabalhamos a três anos neste mesmo escritório de contabilidade, no setor de recursos humanos.
Já eu, me chamo Alice, tenho vinte e um anos, moro com os meus pais e trabalho no Atlas onde conheci a Lê, que é alguns anos mais velha e tem um filho lindo. Apesar de trabalhar com contabilidade estou no terceiro ano da faculdade de administração. Já fui muito de vida noturna, porém hoje estou bastante sossegada, fica corrido conciliar trabalho e estudo. Fora isso não tem muito mais o que falar sobre mim.
Sabe aquele tipo de pessoa que entra na sua casa sem bater tamanha i********e? Esse é o Guto! Bom conheço Augusto desde o primário, nunca fomos melhores amigos porém sempre andávamos juntos. Quando estávamos no colegial tivemos um namoro, durou pouco, mas foi bastante intenso. Fomos para a mesma faculdade porém não nos falávamos no início do primeiro ano. Por insistência de uma amiga em comum no fim deste mesmo ano voltamos a nos falar.
O tempo foi passando e sempre que a gente se encontrava a gente ficava, nada sério, só "uns pegas” mesmo. O último foi há cerca de cinco meses, saímos de uma festa, ele me deu carona e acabamos nus, descabelados e suados na traseira de sua caminhonete em um lugar qualquer.
– Eu não o vejo desde aquele dia, - disse deixando de lado um pouco a conferência da folha de pagamento – tá bom eu até vejo mais é só um aceno enquanto nos encontramos no corredor da faculdade, não posso simplesmente ligar e dizer: psiu Guto, lembra a última vez que transamos na sua S10? Parabéns você vai ser pai.
– Eu gostaria de ver a cara dele neste momento, deve ficar hilária. Fechando os olhos aqui consigo até mesmo visualizar a cena: aqueles olhos azuis esbugalhados, a boca fina entreaberta e uns três, com sorte quatro, tons de vermelho diferentes naquela carinha de porcelana sexy.
– Para com isso, Lê, nem somos mais amigos ele não vai acreditar em mim, não depois de tanto tempo. Se realmente confirmar amanhã o positivo, não tenho certeza de que ele saberá que é pai.
– Deu com a nuca querida? Claro que tem que falar e o direito do seu filho em ter um pai? Ainda mais que aposto que seus pais vão surtar e querer saber quem é o pai, vai dizer o que a eles? Que não sabe? Se toca garota – disse passando a mão no meu celular e digitando alguma coisa – pega está chamando.
– Alô? Ali? Aconteceu alguma coisa?
– Ah ... oi Guto – consegui falar pausadamente depois de um tempo em silêncio – desculpe o celular estava no bolso e ligou para você sem querer.... ai! – gritei quando Lê me beliscou.
– PELO AMOR DE DEUS ALI O QUE ESTÁ ACONTECENDO? ESTÁ MACHUCADA? … ALGUÉM…
– Não Guto, está tudo bem pode se acalmar, - Lê me fez aquela cara de se você não contar eu conto – ou não. A quanto tempo não é? Bom eu preciso te falar uma coisa, e se você não acreditar não tem problemas, apesar que eu não mentiria para você sobre isso. Se você não acreditar eu não me ofenderia se você optasse pelo exame de DNA e…
– DNA Ali? Tem certeza de que está bem? Não está falando coisa com coisa. Olha me diz onde você está que vou agora para aí.
– Não precisa Guto. Eu estou grávida! Pelo menos foi o que deu no meu teste de farmácia. Amanhã vou a um laboratório com a Lê para ter certeza, eu não queria falar nada antes de ter o exame de sangue mas bom pelo que tudo indica .... olha eu não saí com mais ninguém depois de você e..
– Que horas vai fazer esse exame Alice?
– Vou bem cedo, antes de entrar no trabalho.
– As sete estarei na porta da sua casa, vou com você e não aceito não como resposta. Até lá sugiro que fique calma tudo bem ainda não é certeza
– Te conheço bem o suficiente para saber que não vai desistir da ideia, até amanhã Guto.
– Até.
Desliguei o telefone e o olhar que Lê me lançava estava dividido entre curioso e apreensivo.
– Anda sua vaca quer me m***r de curiosidade?
– Ele quer ir comigo amanhã no laboratório, não tive nem chance de recusar.
– Atencioso da parte dele, bom por que este bebê aqui – disse alisando minha barriga plana – precisa de um pai.
– Esse exame deve estar errado, se eu estivesse grávida eu estaria de cinco meses, eu não tenho nem barriga.
– Mas o seu quadril está mais largo. Vamos voltar ao trabalho, amanhã tiramos prova disso.
E assim fizemos, fui para a casa e m*l consegui dormir. E se eu estivesse grávida o que faria? Como seria minha vida dali em diante?
Depois de horas vegetando embaixo do chuveiro me troquei e fiquei esperando o Guto. Tomei um p**a de um susto quando o mesmo se materializou no meu quarto. Isso acontecia sempre, nem preciso dizer quantas vezes ele me pegou em situações constrangedoras.
Ele veio ao meu encontro e me levantou, sem dizer uma palavra me deu um abraço.
– Bom dia Ali! Vamos?
– Vamos sim Guto, bom dia pra você também.
Saímos do meu quarto e fomos em direção a porta de saída da sala, no caminho esbarramos em minha mãe. Detalhe: meus pais gostam mais de Guto do que de mim, vê se pode uma coisa destas!
– Bom dia meu filho, aqui tão cedo? – disse dando um abraço caloroso nele enquanto eu revirava os olhos.
– Oi, tia bom dia, Ali vai ajudar em um relatório antes de entrar no trabalho e vou dar uma carona para ela.
– Ah tudo bem, bom dia minha filha. Vão com Deus meus amores.
Nos despedimos da minha mãe e entramos no carro.
– Quero ver esse amor todo se essa gravidez se confirmar. – disse irônica, enquanto ele se limitou a apenas olhar para mim por poucos segundos e voltar sua atenção no caminho.
– Bom dia me chamo Alice e marquei de fazer um exame de sangue, um exame de gravidez.
– Certo Alice Marques, só por favor aguarde um minuto que logo a enfermeira irá te chamar. – assenti e me sentei em uma cadeira próxima com Guto se sentando ao meu lado.
Poucos minutos naquele silêncio incômodo e ouço o meu nome ser chamado, me sentei esperando a mulher me espetar. Foi rápido e assim sendo, já estávamos novamente dentro do carro. Guto dirigiu em silêncio e parou com o carro na porta do escritório.
– A noite vou na sua casa para abrirmos o envelope juntos, pode deixar que eu mesmo pego no laboratório.
– Tudo bem Guto, até mais – disse abrindo a porta do carro, mas fui puxada de volta antes de colocar o segundo pé no chão. Guto me puxou para si e deu um beijo em minha testa, de fato ele tinha esse costume, mas desta vez ele tentava me confortar com isso.
Mal consegui trabalhar o dia todo, Lê foi bastante solidária e me deu cobertura. De alguma forma eu sabia que estava grávida, só não sabia o que fazer da minha vida.