Capítulo 02

2318 Words
Fernando Já faziam duas semanas que estava ali. As seções de quimioterapia deram início, e com isso os vômitos frequentes, sudoreses e dores de cabeça. Fernando havia perdido a conta de quantas vezes precisou esperar o quarto ser limpo. Sempre na parte da manhã depois das seções. Mantinha consigo um caderno onde anotava todas as possíveis mães para o seu filho enquanto tentava amainar os sintomas do tratamento. Até mesmo Ingrid, secretaria do seu amigo e a única que sabia da verdade estava ali. Ele mantinha nome, idade, características, e o que percebia da personalidade. Estava anotando algo sobre a enfermeira Sophia quando a faxineira entrou. Esperou que fosse a mesma, senhora simpática. A surpresa veio para os dois. - Bo... Boa tarde. - Luiza gaguejou. - Boa tarde. - Nando deixou o caderno de lado. - Preciso sair? - Na.. Não. Eu vou ser rápida. - Luiza desviou o olhar. Ele observou a garota cabisbaixa entrar com os produtos de limpeza. Enquanto ela limpava o banheiro ele instintivamente anotava no caderno. Nome: ? Idade: ? Característica: Cabelos encaracolados de cor castanho, olhos castanhos. Cílios grandes. Aparenta ser tímida, sorri facilmente. Fechou o caderno com um sorriso de descrença. Nem sabia se a moça tinha namorado, ou até mesmo se aceitaria uma loucura como aquela em que ele fosse propor. Que ele estava se enfeitiçando pelo jeito dela, era fato. Até mesmo o perfume doce que vinha dela quando passava, o deixava estranhamente afoito. Para distorcer os sentimentos estranhos puxou de cima da mesinha um livro. Dom Casmurro. Seria esse mesmo a ter o propósito de distrai-lo. Abriu o livro justo na parte onde Bentinho descobria o amor por Capitu. - É um ótimo livro. Luiza estava parada na porta do banheiro com um sorriso tímido nos lábios. - Desculpe, devo ter atrapalhado sua leitura. - Ela se abaixou para pegar os produtos. - Não! - Ele a deteve. - Já o li algumas vezes, é que ele é tão.. - Contrário. - ela emendou. - Ele é louco, mesmo vendo todo o amor dela, provando desse sentimento, acha que ela o traiu. - Ela o traiu? - Não. - Luiza bufou. - Que ridículo. Nando riu da forma como ela enrugou o nariz. - Como se chama? - Ele a questionou. - Luiza. - Muito prazer Luiza, me chamo Fernando. Ela sorriu de volta. Ele pretendia dizer algo, mas a enfermeira Margareth entrou, emburrada. Luiza se foi ouvindo todos os tipos de desaforo possíveis. Desaforo esse que ele não deixaria passar. Quando Margareth voltou sorridente, Fernando acabava de ajeitar o livro em cima da mesinha. - Gosta de ler? - Ele a questionou. - Sim. - Então já leu algum desses. - Nando apontou para a pilha de livros. - Ah, não. Não esses. - Margareth deu um sorriso amarelo. - Hum. - Ele resolveu mudar de assunto. - O que acha do trabalho daquela moça? - A Luiza? - Margareth o encarou, foi até a porta e deu uma breve olhada para os lados. - Ah, ela até que trabalha bem, mas é muito atrapalhada, as vezes troca os produtos. - Eu vi que ficou brava com ela. - Nando continuou, despretensioso. - Brava não. Gosto de manter tudo certo. E ela precisa saber o lugar aqui. Está aqui somente para limpar. - Tem razão. - Fernando fez uma anotação mental. - Vou pedir para a Sophia trocar seu acesso, - Margareth sorriu. Fernando esperou pela outra enfermeira, e quando ela veio prometeu para si que anotaria mais algumas características, tentou conversar mais um pouco. - Dia corrido hoje não? - Ele observou o cuidado dela em retirar o acesso e trocar pelo outro. - Bastante. - Sophia sorriu. - Então.... - Ele recomeçou a conversa. Sophia recebeu uma ligação, recusou e voltou aos cuidados. - Atende, pode ser urgente. - Nando disse. - Não. É só meu namorado confirmando nosso compromisso.. Então ela era comprometida. Tão logo saiu, Nando arrancou a folha do caderno, amassou e jogou no lixo. Luiza trabalhou feito louca, lavou todos os banheiros do andar. Margareth parecia irritada especialmente com ela depois de flagra-la no quarto do paciente Fernando. Estava levando as roupas de cama para a lavandeira quando o celular tocou. Era expressamente proibido usar celular enquanto trabalhava. Ela deu uma olhada para trás, encostou na parede enquanto o atendia. - Alô? - Luiza? - Sim. Quem é? - Luiza trago notícias do seu irmão. Pode passar aqui mais tarde. - Amanhã pela manhã. Pode ser? Trabalho durante a tarde. - Claro. Seja breve. Luiza desligou o celular com o coração aos pulos. Durante a volta para casa não tirava essa ligação da cabeça. Parou o carro na garagem e entrou em casa tentando fazer silêncio. - Lu. - Mãe? Dona Marli a esperava todos os dias, com uma xícara de chá morno, sentada na cozinha. - Pensei que estivesse dormindo. - Beijou a mãe e se sentou. - Perdi o sono. Não sei, parece que meu peito está apertado. - Precisa parar um pouco mãe. Já te disse que dou um jeito de manter a casa. Dona Marli levantou da cadeira e abriu uma gaveta, tirou de lá um papel e a entregou. - O que é isso? - Luiza perguntou enquanto pegava o papel. - Vamos perder a casa Lu. - Mas mãe... - Luiza deixou o papel em cima da mesa. - A senhora me disse que estava tudo certo. - Eu menti. Fiquei com vergonha de te contar que o meu dinheiro não deu pra nada esses meses. É que a sua avó está mais dependente, e eu... - Mãe. Pode contar comigo. Eu vou dar um jeito. - Lu, não faz besteira. Não pega dinheiro na mão de quem não presta e nem se vende. Por favor. Luiza beijou a mãe, levou consigo o papel. Deu uma olhada para dentro do quarto onde a avó dormia. Dona Amelita merecia passar os últimos dias com conforto, e ela não tiraria a casa da avó. E nem a veria em um asilo. Mal dormiu aquela noite. Não tinha nem contado sobre a ligação da clínica e já tinha outros problemas para o dia seguinte. Acordou cedo e antes da mãe se levantar rumou para a clínica, já que ficava em um lugar afastado. Quando chegou lá, foi recepcionada e levada até a sala do Doutor Edson. se sentou e esperou, roendo as unhas pela chegada do homem. Ainda de costas escutou a porta sendo fechada. O Doutor Edson entrou, e com o olhar lascivo se sentou frente á ela. O terno caro cinza apertado no peito lhe fez engolir em seco. - Bom dia Luiza. - Ele sorriu, malicioso. - E então... - Ela disse. - O que ele aprontou agora? - Nada. Seu irmão é um jovem exemplar, logo mais completa dezoito anos, e eu queria lhe informar que ficará um pouco mais cara a estadia dele aqui. - Mas eu já paguei um aumento absurdo á meses atrás. - Luiza segurou a bolsa com força. - Como vão as coisas na sua casa Luiza? - Ele mudou de assunto estrategicamente. - Sua avó. - Estão todos bem. - Mentiu. - Porque? Edson se levantou ajeitando o paletó caro, e sob o olhar assustado de Luiza passou a chave na porta. - Faz quanto tempo Lu? Então era isso. Ela respirou fundo, assustada de mais para gritar. - Dois anos? - Ele se abaixou e falou no ouvido de Luiza. - Nossas fotos estão meio velhas, e eu estou sentindo falta sabe... - Mas você se casou não foi? Luiza se levantou e passou por ele. - Sua esposa é linda, e dona disso tudo. Olha só, não é mais o diretor, agora é dono. - Deixa a Camila de lado querida. Tenho saudade daqueles pagamentos que me fazia. - Que não farei mais. - Ela disse de uma vez, virando o rosto para o lado. - Pois então, venha buscar seu irmão esse final de semana. Quero ver como vai se virar com um viciado e uma velha doente em casa. - Você não pode fazer isso Edson, - Luiza começou a chorar. - As coisas vão ficar ainda mais apertadas em casa. Eu trabalho horas a fio, e não posso ver meu irmão. Por favor... - Bom. - Edson destrancou a porta. - A mensalidade desse mês vence na segunda querida, se não pagar de uma forma, será de outra. - Ele se aproximou mais uma vez dela. - Dessa vez prometo que irá gostar. Luiza passou por ele apressada, antes de fechar a porta, Edson lhe disse: - Vou te mandar a localização. Até lá... Luiza entrou no carro com a respiração presa. Dirigiu por alguns minutos e parou o carro no acostamento, socou o volante enquanto gritava de dor. Pensava ter deixado para trás a humilhação de se vender para salvar a vida do irmão. Agora, estava presa nele outra vez. Chegou no hospital e mandou uma mensagem á mãe, avisando que precisou cuidar da papelada do irmão e já estava no trabalho. Enviou a mensagem e rumou para o décimo andar. - Bom dia. - Luiza encostou tímida no balcão. - O Doutor Carlos está disponível? Ingrid a olhou com piedade, deu uma olhada na tela do computador. - Ele está atendendo uma pessoa agora, se quiser esperar, logo falará com você. - Claro. Posso esperar ali? Ingrid assentiu, e ela se sentou, mirando a rua movimentada. De costas para a secretária chorou, sentia que o mundo iria desabar outra vez se não conseguisse se livrar daquele homem. Estava secando as lágrimas quando a porta abriu, sentiu que alguém passou por ela. Quando olhou, nem Ingrid ou o tal amigo estava lá. - Senhorita Luiza, - Doutor Carlos estendeu a mão. - Venha, entre. Enquanto Luiza entrava, Nando sem perceber sua presença se preparava para conversar com Ingrid. Sentia um misto de desejo, ansiedade em estar com ela. - Senhor Fernando? - Ingrid parou em frente ao homem. - Aconteceu algo? - Sim. Quer dizer... Eu estava pensando.. - Ele colocou as mãos nos bolsos. - Estava pensando se quer sair comigo nesse fim de semana. O que acha? Um jantar fora daqui. - Não está internado? - Ela perguntou, confusa. - Enquanto eu quiser. Júnior me liberou se você aceitar. - Claro. - Ela disse, com os olhos brilhantes. - Onde? - o Júnior vai me passar seu endereço, passo lá as sete horas, pode ser? - Sim. - Ela disse. Fernando sorrindo a beijou, foi um beijo rápido, mas foi direto na boca. A loira m*l podia esperar para ter uma noite com Fernando Olivar Smith. E m*l podia esperar para mudar de vida. Enquanto Fernando dava um passo em direção do sonho de ser pai, Luiza se explicava para o Diretor do hospital, deixando de lado o fato de se vender caso não conseguisse esse dinheiro. - Vamos lá Luiza, - Doutor José Carlos entrelaçou as mãos. - Tem semanas aqui, não é nem registrada ainda, e já quer um empréstimo. Você sabe que seu irmão pode ser internado em outro local. - Mas aí seria essa dívida, e outra nova. - Luiza abaixou a cabeça. - Olha, sempre trabalhei, nunca pedi dinheiro á ninguém, mas dessa vez Doutor, só eu sei o quanto é triste procurar noite após noite pelo meu irmão. José Carlos respirou fundo. Nem era tanto dinheiro assim, e ele só precisava conversar com Nando, enviar para o RH e pronto. Ela teria esse empréstimo. - Que dia ele quer esse dinheiro? - Ele perguntou. - Vence na segunda. - Segunda voltamos a nos falar, ok? - Ok. Um pouco mais aliviada, Luiza saiu da sala, pegou o elevador e saiu no corredor escuro. Ainda tinha tempo, então decidiu ligar para o amigo. - Luiza. Aconteceu alguma coisa? - Não. - Luiza fechou os olhos. - É que estive na clínica de novo. - Ai meu Deus Lu. - Gabriel disse do outro lado da linha. - Ele vai tirar o Walter de lá, se eu não ... Você sabe. - Se vender á ele? É isso? - Isso... Luiza chorou ouvindo o amigo fungar do outro lado. - Não. De novo não. - Gabriel disse. - Qualquer coisa venha para o Rio, podemos dar um jeito na sua vida. - Sinto sua falta Biel. - Eu também. Olha, preciso ir. Promete que vai me ligar quando chegar em casa. - Prometo. O amigo voltou ao trabalho, enquanto Luiza chorava com o celular no peito. Olhando ela, meio encoberto pelo corredor escuro, Fernando tentava entender o que tinha acabado de acontecer. Pensou ter sido puro azar ter descido pela escada e se perdeu nos corredores. Quando escutou uma voz conhecida, ia voltar mas o assunto lhe chamou a atenção. De longe escutou Luiza dizer que estava sendo pressionada por um homem podre. Ela não usava o avental feio da limpeza, os cabelos castanhos encaracolados estavam soltos como uma cascata pela cintura. Ela usava calça jeans e mesmo aquela hora, e com o calor de Marília, usava blusa, cobrindo os braços. Quando ela se movimentou ele se escondeu. Luiza entrou no vestiário e ele aproveitou para voltar por onde tinha vindo. Encontrou o quarto sozinho. A empolgação de sair com Sophia, de alguma forma se fora. Assim que passou pelo corredor encontrou com a Doutora Carolina. - Bom dia Doutor. - Ela lhe sorriu. - Andando sozinho por aí? - Estava tomando um ar. - Mentiu. - O que faremos hoje? Carolina riu, ele sabia o quê fariam hoje, mas preferia fingir que era um leigo. - Hoje terminaremos o primeiro ciclo Doutor. Fernando a acompanhou e esperou pacientemente as enfermeiras o conectar. Queria desesperadamente estar bem para o encontro. Se tivesse sorte, sairia dali com a mãe de seu futuro filho
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