Capítulo 03

1526 Words
Nem tudo é da forma que esperamos, pensou Luiza enquanto passeava com os lençóis pelo hospital. Já estava na hora de ir embora, mas Amargareth a fez trocar os lençóis de quase todos os leitos, a coluna quase rangia. Ia passando pelo quarto de Nando quando o viu, ele tentava ler o livro, estava muito mais pálido e com os olhos vermelhos, parecia que o livro pesava muito. Num movimento em falso o livro caiu de sua mão. - Eu pego. - Ela largou os lençóis e pescou o livro do chão. - Obrigada. - ele tentou sorrir. - Estava tentando ler, mas acho que minha visão não me acompanha. - Descanse, talvez amanhã estará melhor. Luiza também parecia triste, os olhos estavam marejados de chorar por horas. Ela tinha um semblante cansado. Fernando pensou que um poderia distrair o outro. - Já está indo embora? - Já era pra ter ido. - Ela sorriu. - O que acha que me ajudar. Queria muito saber se o Bentinho deixará mesmo de ser padre. Ela sorriu, sabia de cor que ele deixaria. - Não me conta! - Nando se defendeu. - Minha mãe vai ficar preocupada. - Avisa que vai ficar mais vinte minutos. - Ele argumentou. - É que meu carro está meio r**m, e com o frio ele demora a pegar. - Te chamo um Uber. Vamos... Eu juro que te chamo um Uber. Não havia m*l algum, ele estava em tratamento, e ela poderia ir pra casa de qualquer forma. A mãe vivia dizendo que ela deveria arranjar amigos e sair mais, ou acabaria velha e amargurada. - Espera um pouco. Muito apressada Luiza terminou os afazeres, trocou a roupa, mandou mensagem avisando que chegaria tarde, mas que pegaria um uber. A resposta foi a mesma. "Vem com Deus filha". Quando chegou Fernando a olhou com intensidade, mas logo desviou os olhos. Estendeu a mão com o livro e fechou os olhos. Luiza leu com calma. Podia até mesmo imaginar a agonia de Bentinho ao ouvir da mãe que seria Padre. A cobiça por Capitu, a amizade. Leu até sentir a visão debilitada doer. - O que foi? - Nando perguntou um tanto sonolento. - Eu... É que eu tenho a visão fraca sabe. - Miopia? - Um pouco pior. - Ela disse. - Ceratocone. - Humm - Ele sabia o que era, mas queria ouvi-la.. Adorava a companhia dela. - Pode me contar sobre ela? Sentada ali, na cadeira ela o contou sobre a doença, as implicações e até como descobriu. Quando terminou já era tarde. Fernando ouvia maravilhado enquanto encarava o teto. Se lembrava das viagens que fazia, e das noites que dormia ao ar livre. - Preciso ir. Está um pouco tarde. - Eu.. Eu peço um Uber. Espera. Ele realmente pediu um Uber. Faltando pouco para a chegada ela se aproximou, ia despedir de longe, mas Nando lhe puxou e depositou um beijo na bochecha, quase na boca. - Até amanhã Luiza. - Até amanhã Nando. Tímida ela deixou o hospital e aceitou a carona. Quando chegou em casa as duas estavam dormindo. Foi fácil pegar no sono mesmo com todos os problemas. No dia seguinte Fernando teve alta. Até o segundo ciclo da Quimioterapia demorariam alguns dias, e nesses dias ele precisava se manter saudável. Esperou por Luiza, mas o motorista chegou antes. - Seu motorista chegou. - Sophia apareceu, com um sorriso no rosto. - De esse papel para a Luiza, diga que esperarei a ligação dela. Sophia pegou o papel e quando a porta do elevador se fechou, o jogou no lixo. Margareth que observava tudo de longe pegou o papel da lixeira e o guardou. Luiza logo de manhã lembrou- se que estava de folga. Era uma folga merecida. Aproveitou para arrumar o quarto, ajeitar as coisas e passear com a avó. - Vamos vó. - Luiza se levantou e deu a mão a ela. - Agora não posso. Tião logo passa por aqui e eu quero ficar de namorico. Dona Amelita vivia no passado, e para ela ainda era uma jovem namoradeira. Hoje ela namorava Tião, o homem que se casou na mocidade e viveu quarenta anos. Ela esperou por Tião até esquecer. - Vamos vó. - Luiza a chamou outra vez. - Meu Deus Luiza, arruma um namorado. Parece uma velha coroca. Que horror. Luiza riu, adorava provocar a avó. - Vem pra casa que teremos nosso dia de princesa. - só se pintar minhas unhas de vermelho. - Ela esperou a neta concordar. - E meu cabelo também. - O cabelo também. - Luiza fingiu anotar. Mas Amelita repetiu a palavra vermelho até que Luiza acabou entrando em uma loja e comprou a tinta e o tonalisante para agradar a avó. Já era tarde quando Luiza conseguiu comer, a mãe ainda não havia aparecido, o que era até normal, sendo ela uma faxineira. Depois do jantar, Luiza se ocupou com a louça, estava quase terminando quando viu um carro parando, era luxuoso. A porta abriu e dele saiu Edson, de camisa cinza, a calça era preta, do lado dele, dois homens, todos m*l encarados. Ele não chegou a bater palmas, sabia que em algum lugar daquela velha casa, a sua caça da noite estaria o olhando. - O que quer aqui? - Luiza se adiantou até o portão. - Ainda estou em tempo. Vá embora. Edson riu, tirou a mão do bolso para olhar as horas e voltou a encara-la. - Não posso sentir saudade? - Vai embora, minha mãe logo chega. - Luiza voltou a falar. - Belas pernas Lu. - Edson a olhou de cima a baixo. - Um pouco frio para isso não? Luiza engoliu em seco. Sabia que ele gostava de tirá-la do sério. - O que quer aqui? Fala logo. - Seu irmão precisa de roupas, as dele alguém roubou. - Edson deu de ombros. - Vou ver o que tem aqui. Luiza m*l se afastou, passou pela porta e rumou para o quarto pequeno. Walter mantinha tudo organizado. Não foi difícil encontrar roupas, e bolsa. Luiza tentava não pensar na solidão do irmão quando se virou e deu de cara com Edson, olhando fixamente para ela. - p**a merda. Pulou o portão? - Luiza se assustou. - Não. Ele estava destrancado. - Ele sorriu, sínico. - Toma, não tem muito mais, ele vendeu as melhores a troco de droga. Edson pegou a bolsa e a jogou na cama, na verdade ele foi ali querendo outra coisa. Pegou Luiza desprevenida em um beijo lascivo, forte, e agressivo. Sentiu a garota se debater contra ele, mas queria outra coisa, aquelas pernas o deixou louco. Luiza era mais baixa que ele, e não tinha forças para se livrar, usou ao seu favor o que sempre usava quando apanhava dos mais velhos na escola. - Maldita! - Edson se afastou com a mão na boca. - Me mordeu? - Sim. - Luiza aproveitou e passou por ele. - Agora sai daqui, não te dei liberdade para tentar algo comigo. - Me deu sim, e sabe disso. Agora, - Edson sorriu com a boca machucada. - Você sabe que não terá escapatória, não será dentes ou chutes que vai te livrar de mim. Até segunda querida. Ela escutou a conversa alegre dele com Dona Marli, escutou ele dizendo que fora ali pegar mais algumas coisas, e que no caminho se acidentou, mas que a Lu cuidou dele. Dona Marli m*l sabia o que tinha acontecido, entrou cansada como sempre, e foi até Luiza. - Lu. Cheguei. - Mãe. - Luiza segurou o choro. - Chegou tarde. - Desculpa querida, fiquei cuidando dos meninos um pouco a mais. O bom é que vou receber por isso. - Que bom mãe. - Luiza respondeu. Ficou com a mãe enquanto ela jantava, conversou sobre o hospital, até mesmo sobre Nando. - Mas o que ele tem? - Dona Marli quis saber. - Não sei. Ele não me fala sobre isso. - Luiza respondeu. - Deve ser alguma doença crônica. Enquanto falava em Nando, a mãe notou que os olhos dela brilhavam. Não era a primeira vez que Luiza se apaixonava, e não seria a última que quebraria a cara. - Vou dormir mãe. Boa Noite. Luiza se despediu da mãe e se deitou ouvindo a movimentação na casa. Não queria chorar, ainda tinha tempo de pedir ajuda. Bastava esperar. Escutou uma conversa no outro quarto. - O que é isso mãe? - A mãe dela dizia. - A Lu pintou meu cabelo ué! - A avó respondeu. - Vermelho mãe? Você é uma senhora de idade. - Velha é você, eu sou jovem, e nesse final de semana o Tião vem me pegar para passear. - Mãe! - Mãe nada. Me respeita. Credo. Cuida da sua vida. - Amelita disse, bem alto. - E para de me chamar de mãe, não tenho idade pra ter filha velha e m*l-humorada. Até mesmo Luiza riu. As vezes se esquecia que por trás de toda a confusão engraçada da avó, tinha também o lado triste das complicações. A casa silenciou, e nem assim Luiza conseguiu pegar no sono.
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