- Bom dia Luiza.
- Bom dia. - Luiza respondia a todos com o mesmo desânimo. Caminhou com o carrinho, varrendo, lavando e trocando lençóis. Era sexta-feira e ela limparia justamente o Décimo andar.
Quando passou por ali, viu a secretária rindo, meio boba.
- Bom dia. - Luiza se aproximou.
Estava perto, limpando uma das cadeiras quando Ingrid puxou assunto.
- Branco ou Azul?
- O que disse? - Luiza se aproximou.
- Branco ou azul. - Ingrid repetiu. - Estou na dúvida sobre qual vestido usar. Olha só.
Eram vestidos belíssimos, justos e ambos com duas fendas. Estavam em um site famoso.
- Azul, Vai ficar bonito no seu cabelo. - Ela respondeu.
- Obrigada Lu. - Ingrid voltou a tela para o lugar. - Eu só vou te dizer porque não anda com as meninas. - Ela disse. - É que tenho um encontro marcado para amanhã.
- Que legal. De verdade. - Luiza respondeu.
Acabou de limpar ali, com a permissão de Ingrid rumou para a sala da Diretoria. limpou janelas, mesa, estofados e o banheiro, até mesmo deixou ali um café sendo preparado na cafeteira. Faltava só a prateleira.
Luiza era tão acostumada com a visão r**m que nem se importava com retratos. Mas naquele dia foi diferente. No meio dos vários retratos do Doutor José Carlos com amigos, gente importante e ricos, havia um dele mais jovem. Com certeza era na faculdade, nele, O Doutor abraçava outro homem. Era Fernando, mais jovem.
- Acabou? - Ingrid perguntou da porta.
- Sim. - Ela respondeu. Colocou o retrato no lugar, e voltou.
Mais para tarde voltou ao quinto andar, estava limpando o corredor e notou que a porta do quarto de Fernando estava aberta. As bruxas não estavam por perto, então ela resolveu dar uma passada lá.
Vazio.
Fernando não estava ali. Talvez tivesse morrido. Luiza procurou nas gavetas, não tinha roupas, somente um livro pequeno. Pigmalião.
- O que faz aí?
- Sophia, eu estava passando e vim ver se o Senhor Fernando queria algo...
- Primeiro, se ele quisesse, pediria aos profissionais. - Sophia descruzou os braços. - Depois, não, ele não morreu. O paciente teve alta hospitalar e foi viver a vida dele. Agora, volta a trabalhar, ou eu chamo a enfermeira.
***
Na nova casa Fernando tentava aproveitar. O calor de Marília era tão forte que a água da piscina era levemente morna.
Nadou sozinho, já que não tinha vindo com ninguém para a mais nova cidade, a não ser Janice que lhe ajudava com tudo.
Janice fora sua babá, depois ficou a cargo deles, quando os pais faleceram. Agora é um braço direito para Fernando.
Ela gostava de se intitular como governanta. Ele, odiava isso. Dizia que ela era a tia, já que muitos a conhecia assim.
- Sai daí Nando, vai pegar uma insolação.
Janice parou perto da piscina, segurava a toalha.
- Esta bom aqui Nice.
- Ta nada menino. Sai logo daí.
Janice não se importava com os anos dele de estudo, se ele ficasse doente, sempre tinha algumas folhas ou misturas para ajudar.
Não o deixava andar descalço, mesmo ele tendo trinta e quatro anos.
- Vem, está na hora dos seus remédios.
Fernando a seguiu para dentro, sentou na mesa e esperou pela mão gordinha dela com os comprimidos, o copo de água e o olhar triste.
- Eu estou bem Nice, sério.
- É só que....
- Nada Nice, eu estou bem. Não falaremos nisso.
- Mas menino, e essa história que eu escutei. Sobre arrumar uma barriga.
Nice estava agoniada a horas. Receberam a visita de um pessoal, e enquanto servia café escutou a conversa.
Fernando iria coletar sêmen, se não arrumasse a parceira de forma convencional.
Nice m*l conseguia disfarçar.
- Nice, venhamos e convenhamos, eu estou doente. E mesmo que eu saia com vida, um dos efeitos colaterais é a infertilidade. E você sabe, eu sempre quis ter filhos.
- Bom. Você é dono do seu nariz, deve saber o que está falando.
- Isso mesmo. Agora vou me arrumar. Preciso viver o quanto conseguir.
- Onde vai?
- Não sei. Ainda não conheci a cidade. Acho que vou dar uma voltinha.
*****
Luiza tinha acabado de sair do hospital. Ainda eram oito horas da noite, deu uma olhada na conta e constatou que podia tomar um sorvete em paz.
Procurou um lugar perto de casa e se sentou ali, observando a movimentação das crianças na rua enquanto saboreava o sorvete.
Pegou o livro de dentro da bolsa e folheou, era um clássico de poucas páginas,
Acabou lendo quase a metade do livro, embora as páginas fossem poucas, a história era boa, cheia de detalhes.
Enquanto lia, ela se sentiu observada, bastou olhar para o outro lado da rua para encontrar Nando parado.
Ele atravessou a rua sem olhar para os lados.
- Tem sorte que não passa muitos carros aqui. - Ela brincou.
- Eu nunca olho. - Nando sorriu. - O que faz aqui, sozinha?
Ela estendeu a mão com o sorvete e depois a do livro.
- É mesmo, me esqueci dele. - Nando riu. - Pelo menos me diz se gostou da leitura.
- Estou gostando.
Fernando se sentou ali com ela. Ele usava calça jeans e camisa social, era rico como a maioria dos pacientes ali.
- Esperei sua ligação.
- O que disse? - Luiza indagou.
- Deixei meu número com a Enfermeira Sophia, pedi que lhe entregasse.
- Ela não me disse nada.
Estava claro para Fernando que alguns funcionários estavam abusando e passando dos limites. Até mesmo com ele que não conheciam.
- Me conta sobre você. - Ele apoiou os cotovelos na mesa.
- Nada de mais. Moro com minha mãe e avó, trabalho pra burro, durmo pouco.. - Luiza disse de forma leve.
- Não tem um namorado, ou namorada?
- Ah não. Na minha idade os caras querem casar, ou os casados querem namorar.
- Quantos anos tem Luiza? - Fernando perguntou.
- vinte e sete. - Ela disse de forma leve. - Mas e você? Vi uma foto sua com o Doutor José Carlos.
- Somos amigos de uma vida inteira. - Nando tomou o sorvete da mão dela com um sorriso ladino.
Luiza descobriu que Fernando estava ali para um tratamento, ele mesmo não disse qual. Enquanto comia o sorvete dela e ria das histórias atrapalhadas de Luiza.
Ele a achava engraçada, simples. Mesmo ele dizendo que era amigo Do diretor do hospital, Luiza parecia não se importar muito com esse detalhe.
- Nando preciso ir, ou minha mãe manda a polícia atrás de mim, e nem é brincadeira.
- Eu te acompanho. - Nando se levantou.
- Não moro longe.
Luiza agradeceu o atendimento e seguiu com Fernando. De fato a casa não era longe. Caminharam alguns minutos a passos lentos.
Era uma casa simples, com arquitetura dos anos cinquenta talvez. O portão era tão velho que se inclinava para frente.
Ela não mostrou vergonha, conversou animada sobre a cidade, os restaurantes, cachoeiras. Nem tocou o assunto, carro. Ou o que ele fazia da vida. Foi ele mesmo que contou a ela que era da área da saúde. Não contou qual. E nem que ele era o dono do hospital.
Trocaram os números de celular animados.
Enquanto Luiza digitava, bem perto da tela. Fernando até tocou em uma mexa do cabelo castanho da moça, o cheiro de rosas era simplesmente perfeito.
- O que foi? - ela o Flagrou olhando.
- Nada. Estava te esperando escrever.
Luiza mandou um oi por mensagem.
- Boa noite Nando. - Ela disse, de repente tímida.
- Boa noite Luiza.
Fernando se aproximou na mesma hora que Luiza, os rostos se atrapalharam de uma forma que as bocas acabaram, mesmo que por um instante, coladas.
- Me desculpa. - Ela passou para dentro do portão. - Boa noite Nando...
Ele a viu entrar correndo. E voltou até o carro com os dedos nos lábios.
- Caramba. - Fernando respirava acelerado. - p**a merda....
Não podia acreditar que a teve em seus braços e não teve forças para a segurar ali.
- Você é burro Fernando? - Ele se olhou no espelho do carro. - Esqueceu como beija agora?
Pegou o celular e digitou uma mensagem.
"Lu, vamos no cinema amanhã?"
Mas aí se lembrou. Amanhã teria um encontro com Ingrid, e se tudo desse certo, teria a mãe do seu filho.
Apagou a mensagem, digitou somente um "Boa noite" e dirigiu até a casa.
Nice aguardava com os remédios, uma xícara de chá e a cara fechada.
- Boa noite Nicinha. - Ele entrou em casa.
- Quer que eu ligue para o seu amigo? - Ela perguntou, confusa.
- E atrapalhar as aventuras dele? Não. Aliás, não estou doente, percebi que também posso gostar dessa cidade.
- Qual o nome dela? - Nice lhe perguntou.
- Boa noite Nice Berenice.
Enquanto ele subia assoviando escutou os protestos dela.
- Meu nome é Janice, não Berenice!
Com Luiza foi um pouco diferente. Ao entrar em casa, esbaforida, deu de cara com a mãe e a avó sentadas.
- Onde estava Luiza?
- Passei na avenida pra tomar um sorvete. - ela respondeu.
- E quem era ele? - Dona Marli quis saber.
- Era o Nando. Ele me viu e tomou um sorvete comigo.
- Ele é rico? - A avó perguntou.
- Mãe!
- Um pouco vó. - Luiza piscou para ela. - Isso não é da minha conta.
- Cuidado Lu, m*l conhece esse homem e já está saindo com ele.
- Mãe, - Luiza se sentou de frente para ela. - Eu não sou boba, e a senhora sabe que não sairia com alguém sem conhecer um pouco. Conversamos, contei sobre o livro que ele deixou para trás. E pronto. Não precisa se preocupar. Confia em mim Dona Marli.
- Eu confio Lu, só não quero que quebre a cara.
- Pode deixar dona mãe, tenho os pés no chão.
Luiza beijou a mãe e a avó. Iria tomar banho.
- Ele é gostoso. - Dona Amelita disse.
- Mãe! Meu Deus, as vezes acho que a senhora é muito saidinha.
- Já te disse, não tenho idade pra ter filhos. Tião que demore mais um pouco pra ver. Vou cair no mundo com a Luiza. Somos primas...