Maitê retorna ao quarto e fecha a porta, estava tão faminta e exausta que decidiu abstrair o que tinha acontecido. Após jantar a deliciosa carbonara que havia sido servida, caiu na cama e apagou de exaustão. No dia seguinte a jovem desperta lentamente, se senta sobre a cama ainda de olhos fechados, se espreguiçando. Quando abre seus olhos se depara com Rico sentando numa cadeira em frente a sua cama, a encarando. Maitê então toma um grande susto.
- Nossa, Rico, você me assustou! - Exclamou a jovem com a respiração acelerada.
- Já está na hora de acordar. - Falou ele em tom firme.
- O quê? - Questionou ela, bastante confusa.
- Tem uma pessoa que você precisa conhecer, ela já está subindo. Se eu fosse você jogaria uma água no rosto e pentearia esse cabelo para conhecê-la.
- Como assim? Você não pode entrar assim no quarto das pessoas enquanto elas dormem, isso é invasão de privacidade. - Exclamou Maitê surpresa e um tanto quanto furiosa.
Rico manteve-se calado e continuou a encara-la.
- A final quem é essa pessoa? É a tal da madame Lúcia que a empregada mencionou ontem antes de sair correndo do meu quarto?
Maitê tem sua fala interrompida por uma voz que vinha do corredor, chegando cada vez mais perto até revelar de quem se tratava.
- "Essa pessoa" é nada mais nada menos que Vera Lúcia Gaião. Socialite, multi-milionária, uma das maiores empresárias dessa cidade e dona de tudo que você está usufruindo.
Maitê assistiu muda, aquela senhora corpulenta, baixinha e prepotente adentrar o quarto.
- Ficou muda de repente? Rico, ela até que é bonita apesar de estar toda desgrenhada, mas p.u.t.a muda não tem lugar na mansão de Vera Lúcia Gaião, meus clientes também gostam de conversar. - Expressou a dona da casa enquanto varria a garota de cima a baixo com os olhos.
- P.u.t.a? Você me chamou de p.u.t.a? Eu exijo que você me respeite! - Exclamou Maitê para Vera Lúcia com um tom amedrontado antes de olhar para Rico esperando que ele a defendesse de alguma forma, mas o que ela viu foi um leve sorriso malicioso em seu rosto. Foi naquele momento que a jovem percebeu que todo aquele cuidado, gentileza e simpatia que ele havia mostrado não passava de teatro.
- Abaixe a sua bola pra falar comigo, você não está em condições de exigir nada aqui, com uma simples ligação eu coloco você e seu querido tio debaixo de sete palmos. - Ameaçou Vera Lúcia.
Com aquela ameaça, Maitê sentiu um arrepio na espinha, e foi tomada por um medo intenso ao perceber que aquelas pessoas que a princípio seriam seus salvadores, eram na verdade pessoas tão perversas e perigosas, quanto as da qual ela havia fugido.
- O que é isso? O que é esse lugar? O que você quer de mim? - Indagou a menina com os olhos marejados de lágrimas.
- Ah meu amor, isso é bem simples. Isso sou eu salvando a sua vida, te dando refúgio, teto e comida. Tudo de primeira qualidade. Mas óbvio que nada é de graça, como já mencionei sou uma mulher de negócios, e não cheguei aonde estou fazendo caridade. Esse lugar é a minha casa e também um super exclusivo clube privado onde a elite paulistana vem para satisfazer seus mais variados desejos s.e.x.u.a.i.s. E o que eu quero de você, é que trabalhe para mim, faça tudo que eu lhe ordenar e jamais, jamais me decepcione.
- Trabalhar como p.r.o.s.t.i.t.u.t.a? Eu jamais conseguiria fazer isso! - Exclamou a jovem desesperada e aos prantos.
- Bom, você tem duas opções. Ou você trabalha pra mim, segue minhas ordens e eu te mantenho protegida, te hospedo nesse quarto, te provenho comida, roupas e até te dou uma porcentagem em dinheiro. Ou eu posso gentilmente ligar para os seus credores virem te buscar. Tenho certeza que eles vão te tratar muito bem. - Ironizou a c******a.
"Percebi que minha vida estava agora nas mãos dessa mulher desprezível. Como se todas as desgraças que haviam acontecido comigo já não fossem suficientes, eu agora havia me tornado escrava das vontades de Vera Lúcia Gaião."
- Por favor não faça isso. Pra mim talvez o melhor fosse morrer de uma vez, depois de tudo isso que vem acontecendo, mas eu não posso fazer isso com o meu tio, ele sacrificou tudo que ele tinha pra me manter segura, jamais deixaria que ele morresse por decorrência de uma decisão minha.
- Vou considerar isso como um sim. Sendo assim, bem vinda a mansão de Vera Lúcia Gaião, sua nova residência e local de trabalho. - Disse Vera, enquanto se aproximava da jovem, segurava seu queixo e levemente levantava a sua cabeça, obrigando a jovem a olhar nos seus olhos.
Maitê então vira bruscamente o rosto para o lado e direciona o olhar para baixo enquanto fala.
- Se você chama tráfico humano de oportunidade de emprego. - Sussurrou ela.
Vera Lúcia então dá uma alta gargalhada. Segura com força o rosto da garota, apertando firme as suas duas bochechas com uma única mão, ficando cara a cara a poucos centímetros com a jovem.
- Meu amor, eu realmente não me importo nem um pouco como você chama. O fato é que agora você é minha p.u.t.i.n.h.a, e vai fazer tudo que eu mandar e só vai abrir a boca na minha presença quando eu solicitar, entendido? - Disse ela em tom debochado.
- Entendido! - Exclamou a Maitê, claramente com medo da c******a.
- Ótimo! - Disse Vera Lúcia, antes soltar seu rosto com um brusco empurrão que a fez cair sentada na cama.
- É bom que você comece a preparação o mais rápido possível, você terá seu primeiro cliente na próxima festa. Já sei exatamente quem vai ser, ele vai ficar louco quando te ver, você é exatamente o tipo que ele mais gosta.
- Quando é a próxima festa? - Perguntou a jovem temerosa quanto a resposta.
- Em nove dias.
- Nove dias? Eu não vou conse...
Vera Lucia interrompe a fala de Maitê.
- Isso! E é bom está preparada pois não vou aceitar que me faça passar vergonha com o cliente. Você irá trata-lo como um rei e fará absolutamente tudo que ele mandar. Caso contrário você já sabe quais serão as consequências. - Falou a mulher mais velha enquanto balançava o celular.
A conversa é interrompida por duas batidas na porta do quarto.
- Pode entrar. - Falou Vera.
A porta se abre e entra a mesma empregada que havia servido o jantar de Maitê na noite passada.
- Com licença madame Lúcia, o seu carro já está pronto, e o chofer já está esperando, como a senhora solicitou.
- Ótimo. Rico, você vem junto, tenho uma reunião no Palácio Tangará com o barão Gregório Rech e quero que venha comigo. E quanto a você garota, Vanda cuidará da sua preparação. Mandarei ela começar ainda hoje, não temos tempo a perder aqui.
- Vanda? Quem é Vanda? - questionou Maitê.
- Vanda é a minha tia, irmã e sócia da minha mãe, ela tem uma porcentagem do clube, e é quem cuida da preparação das garotas. - Respondeu Rico.
- Sócia minoritária! E essa conversa é irrelevante. Vamos Rico. - Exclamou Vera Lúcia.
- Só um minuto mãe, tem uma coisa que ainda preciso falar com ela.
- Não demore, essa reunião é muito importante e o barão não admite atrasos. Esperarei no carro. - Disse Vera Lúcia, antes de virar as costas e sair do quarto.
Maitê encara Rico com um intenso olhar de decepção enquanto inúmeras lágrimas escorrem dos seus olhos.
- Como você pode ser uma pessoa tão dissimulada e c***l comigo? Eu confiei minha vida a você.
- Acredite, já fiz isso inúmeras outras vezes mas com você foi incrivelmente fácil. Você é muito ingênua, na verdade, acho que a palavra certa é otaria. - Disse Rico antes de dar uma gargalhada. - Sem falar no i.d.i.o.t.a do seu tio, estava tão desesperado pra te tirar da cidade, que foi moleza. Quando ele me ligou contando a situação, eu vi uma grande oportunidade caindo de bandeja na minha mesa. Não precisei fazer quase nenhum esforço.
- De onde você conhece o meu tio? - Perguntou ela.
- Conheci o Alberto no clube de golfe aqui em São Paulo. Me aproximei dele, pois estava buscando network no interior do estado, pesquisando sobre, e descobri que a família Ferraz era muito rica e influente na região, principalmente o seu pai. Seu tio seria uma ótima forma de conseguir esse network. Não foi difícil conquistar a amizade dele, pois como você já sabe bem, eu sou um sujeito muito persuasivo. Ficamos amigos e sempre soube que quando precisasse da ajuda do Alberto com a sua influência sobre o interior, ele não hesitaria em me fazer esse favor. Então guardei essa carta para talvez um dia usá-la, é sempre muito útil ter contatos em todo lugar. Mas acabou que quem precisou da minha ajuda foi ele.
- Que bela ajuda você deu. - Rebateu Maitê, com amargura.
- De certa forma, nós dois nos ajudamos, mesmo que ele não saiba da parte em que ele me ajudou, eu te salvei da morte, te coloquei numa mansão, e ainda te dei um trabalho, você deveria me agradecer. - Ironizou Rico.
- Como você pode ser tão sádico e perverso? o que você fez foi me tornar uma escrava! - Exclamou a jovem em voz alta enquanto chorava compulsivamente.
- Seu choro não me comove nem um pouco. Aceite, pois essa é a sua nova realidade, você vai se acostumar, com o tempo provavelmente vai até começar a gostar. Como você não pode entrar em contato com o seu tio, me encarregarei de atualizá-lo sobre seu bem estar aqui em São Paulo, lógico que contarei a minha versão. Contarei como você está super confortável na minha mansão onde não te falta nada, você está totalmente segura e vive como uma princesa. Obviamente omitirei a parte que você virou p.u.t.a. de luxo. Agora lava esse rosto e se recomponha, você está patética. - Disse o ele enquanto a lançava um olhar de desprezo.
Rico então se vira e sai do quarto, enquanto Maitê encosta as costas na parede, e desliza até o chão do quarto, abraçando suas duas pernas, ficando em posição fetal. A garota não conseguia parar de chorar, a emoção que ela sentia era tão forte, que não podia controlar a altura de seu choro. Ela nunca antes em sua vida, esteve tão vulnerável e desamparada.