Comunicado

2316 Words
Tentei não demonstrar meu tremor assim que abri a porta do quarto do meu avô. Odiava aquele cheiro em particular que você só sente em hospitais. Não fazia ideia se todos usavam os mesmos produtos de limpeza, ou se a morte e doenças exalavam aquela fragrância. — Que diabos você está fazendo aqui? — gritou meu avô assim que dei o primeiro passo para dentro do quarto. Dei uma risada. — Nossa, que espécie de boas-vindas é essa? Espero que esteja sendo um pouquinho mais charmoso com as enfermeiras. — Pisquei para a garota de vinte e poucos anos que checava o controle de sua pressão arterial. — Todos estão fazendo um alvoroço horrível, Ryder. Já tive inúmeras quedas nesses meus oitenta e dois anos. Não sei por que estão agindo como se estivesse em meu leito de morte. Balancei a cabeça. — Você quebrou o quadril, vovô. Acha que ninguém se importaria com isso? — Estão falando sobre uma cirurgia — comentou Darcy, logo atrás de mim. Girei o corpo e a olhei. — Cirurgia? Por quê? Minha irmã parecia pálida quando a puxei para um abraço. — O quadril. Estão dizendo que ele precisa de uma prótese parcial — murmurou contra minha camisa. Apertei-a em meus braços e a soltei. — Ele vai ficar bem. Vou falar com os médicos. — Parem de criar confusão! — gritou vovô da cama. Não contive o riso. Se pura força de vontade mantivesse alguém vivo, meu avô nunca morreria. — Você está com um bom aspecto. — Dei uns tapinhas em seu ombro. — Como vão os negócios? — perguntou, sempre pronto a viver indiretamente através das minhas experiências em Nova York. Meu avô passou a vida inteira gerenciando os empreendimentos da família, o que incluía Woolton Hall, a imensa e imponente casa nos arredores de Londres, as terras em seu entorno e a aldeia nas proximidades, cujos aldeões eram arrendatários, além da residência em Londres. Nunca perguntei se em algum momento ele chegou a se ressentir da responsabilidade que acompanhava o título, ou se teria feito alguma outra atividade caso lhe fosse dada uma escolha para o futuro. No entanto, ele era um homem de palavra, honrado, digno de ser admirado. A pessoa que eu aspirava ser. — Estão bem — respondi. — Estou tentando comprar uma pequena empresa no mercado de perfumes no momento. — Perfumes? Não parece em nada com a sua coisa. — A minha coisa se resume a tudo que possa render um bom dinheiro. — Eu era bom em detectar empresas em fase de crescimento, e as comprava antes que seus empréstimos fossem cobrados ou a falta de fluxo de caixa as paralisasse. — É um negócio sólido que precisa de investimento para prosperar. — E você vai lhes dar o que precisam? — indagou com o dedo apontado para mim. Dei de ombros apenas. — Sou um cara generoso. Você sabe disso. Darcy revirou os olhos. — Sem dúvida alguma, deve haver um retorno maior a você do que a eles. Assenti. — Ainda assim, eles ganharão alguma coisa. E esse é o objetivo. Eu não ferro com eles. Sou apenas astuto. — Estava empolgado com a companhia que almejava no momento. O negócio não tinha decolado nem dado lucro há algum tempo, mesmo assim eles conseguiram ir em frente. Comércio a varejo não era bem a minha praia, mas esta empresa valia o risco. — Como estão as coisas em casa? — perguntei enquanto puxava uma cadeira para me sentar ao lado da cama. — Os estábulos precisam de um telhado novo — respondeu Darcy. — E, honestamente, quase toda a ala oeste. — Ela não sabe do que fala — retrucou meu avô. Minha irmã assumiu a maior parte da gestão da propriedade nos últimos dois anos. Ela trabalhava lado a lado com meu avô desde que se formou, e ele gradualmente lhe transmitiu tudo o que sabia. — Vovô, Darcy sempre sabe exatamente do que está falando. Ele grunhiu e desviou o olhar para a janela, contemplando o Rio Tâmisa. Sua falta de argumento foi o máximo de admissão da verdade que receberíamos. — Vou fazer uma ligação — informou Darcy. — Você precisa de alguma coisa? Afaguei sua mão. Sabia o que a administração da propriedade havia lhe custado, ainda mais quando descobri que, eventualmente, ela teria que largar tudo aquilo pelo qual batalhara tanto. Nunca entendi por que ela não saiu e encontrou algo por conta própria, para dispender toda aquela energia. Darcy afastou a mão e me lançou um sorriso cansado. — Precisamos conversar — disse meu avô, logo depois da saída de Darcy. Nunca gostei daquelas palavras na boca de ninguém, sempre vinham acompanhadas de notícias ruins. Inclinei-me na cadeira, pronto para encarar seja lá o que ele dissesse. — Estou envelhecendo, Ryder. Jesus, será que Darcy andou conversando com ele a respeito de um possível casamento com Aurora? Nós havíamos concordado em manter o vovô fora disso. Não queria que ele se preocupasse com o fato de estar deixando uma grande bagunça para nós dois assim que morresse. Meu estômago deu um nó e me inclinei um pouco mais para a frente. — Se o senhor está preocupado com a cirurgia no quadril, não há necessidade. Ouviu a Darcy; é um procedimento bem normal logo após uma fratura. Você vai ficar bem. — Preciso lhe dizer algo antes de entrar na sala de operações. — Seus olhos estavam fixos nos meus, da mesma forma que ele costumava fazer quando eu era criança e estava em apuros. Odiava desapontá-lo. O que será que aconteceu? — Tem a ver com meu investimento no Grupo Westbury. — Seu investimento? Meu avô havia me dado uns milhares de libras quando comecei meu negócio e, em troca, ficara com uma pequena cota. No entanto, ele sempre se recusou a receber qualquer lucro da empresa e nunca quis participar ou saber de qualquer andamento no funcionamento dela. Tanto que praticamente havia me esquecido disso. — Nós deveríamos ter resolvido isso há algum tempo. Acho que gostava da ideia de ter sido um investidor em seu sucesso. — Do que o senhor está falando? — Ele parecia abatido, e o homem a quem conhecia e amava não era assim. — O senhor está precisando de algum dinheiro para os reparos que a Darcy mencionou? Ele deu uma risada e uma palmadinha na minha mão que repousava ao lado de sua cama. Nunca duvidei de seu amor, mas meu avô não era muito de abraços ou declarações. Darcy e eu sabíamos disso pela forma como ele estava sempre à nossa volta, garantindo que nunca precisássemos de nada, estivéssemos em problemas, sozinhos ou deixados de lado. Ele era nossa âncora. — Não, filho. Não estou precisando do seu dinheiro. — Ele olhou para nossas mãos antes de acenar com a cabeça. — Temo que, se o seu primo colocar as mãos na minha cota, talvez ele pense diferente. Semicerrei os olhos quando a luz matinal refletiu nas janelas, adentrando o quarto. — Não estou entendendo. O que meus negócios têm a ver com Frederick? Ele respirou profundamente e começou a tossir. Jesus, detestava vê-lo tão debilitado. Servi um copo d’água da jarra de plástico que se encontrava na mesa lateral e o estendi em sua direção, no entanto ele acenou em rejeição. — Estou bem — disse, com a respiração sibilante. — Você precisa se acalmar. — Eu disse que estou bem. — Ele inspirou e sua respiração se normalizou. Sentei-me outra vez, tentando parecer mais tranquilo do que me sentia. — Você se lembra quando investi no Grupo Westbury? Fiquei com aquelas ações para que você não tivesse que pagar juros, certo? — Sim, claro. — Observei sua expressão, querendo que ele chegasse logo ao xis da questão. — Bem, o dinheiro saiu do patrimônio, então as ações estão no nome dos bens da herança. — Lembro-me disso — retruquei. — Cerca de mais de um ano atrás, fui até o Giles para ver se poderíamos fazer algo a respeito dessa maldita coisa de sucessão. Não era justo que você precisasse se casar para herdar tudo. O patrimônio – Woolton – e o título deveriam ser seus por direito. Cheguei até mesmo a consultar o advogado dos assuntos da família e dos bens patrimoniais, a fim de discutir o futuro, mas nunca tive essa conversa com meu avô. Não gosto de ser lembrado de que algum dia ele não estará mais ao redor para me manter na linha. — O senhor sabe que isso não importa para mim. Tenho meu próprio dinheiro e sou mais do que capaz de cuidar de Darcy. — Detestava falar sobre o que aconteceria depois de sua morte. Não gostava sequer de pensar em não ter meu avô vivendo neste mundo. — E é esse o problema. Não tenho certeza de que isto será seu. Será que havia escutado direito? — O que o senhor quer dizer? — Os termos do fideicomisso estabeleceram que não posso modificar ou vender qualquer um dos ativos do fundo após completar oitenta anos. Meu avô pode até ser o Duque de Fairfax e herdeiro do patrimônio Woolton, mas tudo era gerenciado por um fundo fiduciário que comandava exatamente o que poderia ou não ser feito, de forma que se preservassem todos os bens para gerações futuras. — Tudo bem. Não estou entendendo nada. — Olhei para a porta, esperando que Darcy voltasse a qualquer instante. Talvez ela entendesse o que nosso avô estava querendo me dizer. — Isso significa que não posso devolver as ações pra você. Assim como você não pode comprálas — explicou. Dei de ombros. — E daí? Seu investimento não afetou como administro minha empresa de forma alguma. Fique com as ações. — Mas elas não são minhas, pertencem ao fideicomisso. O que significa que, quando eu morrer — estremeci assim que o ouvi dizer aquilo —, irão para Frederick. Ainda não estava compreendendo. Observei sua expressão, tentando descobrir exatamente o significado do que ele me dizia. — Então ele será um acionista. E daí? — Você chegou a dar uma olhada nos documentos que criamos naquela época? — perguntou, remexendo-se na cama. Eu não conseguia me lembrar dos detalhes do que fizemos. Estava muito empolgado para tirar minha empresa do papel, de forma que não me importei. Havia encontrado uma pequena firma de biotecnologia em Cambridge, na qual queria investir – uma oportunidade que não duraria muito tempo. E aquela havia sido uma das melhores decisões que tomei. Aquilo ali me gerou uma fortuna e abriu as portas para novas possibilidades. Foi daquele investimento que todo o meu sucesso teve início, quando finalmente senti que havia conquistado meu lugar no mundo. Por mais que amasse meu avô, quando criança, ainda vivia com a realidade de que não fui o suficiente para os meus pais. O Grupo Westbury fez com que eu me sentisse como se tivesse um alicerce. Aquilo era meu. E não iria a lugar nenhum. — Não me lembro dos detalhes, porém tudo deu certo. Qual é o problema? — Com o intuito de lhe dar o dinheiro do fideicomisso, as ações precisavam contar com certos poderes. De forma que, se eu não gostasse da maneira como você estava conduzindo os negócios, pudesse assumir o controle da companhia. — Mas isso nunca foi um problema. — Não havia nenhuma outra pessoa em quem eu mais confiasse do que meu avô para administrar a empresa comigo. — Mas quando as ações forem transferidas para Frederick... O som da cadeira arranhando o piso ecoou pelo quarto assim que me coloquei de pé abruptamente. Enfiei as mãos nos bolsos da calça, tentando manter a calma. — O senhor está dizendo que Frederick será capaz de assumir o comando da minha empresa? — Meu avô era a pessoa que eu mais confiava no mundo, e Frederick era a que eu menos confiava. — Ele poderá tirar tudo aquilo pelo qual trabalhei durante todos esses anos? — Sinto muito, meu garoto. Nunca tive a intenção de que as coisas seguissem esse rumo. Andei de um lado a outro ao lado de sua cama. — Então podemos mudar a documentação, certo? Não podemos aprovar uma emenda que muda os direitos nas ações? — Parei aos pés da cama e segurei com firmeza a barra de metal, esperando sua resposta. — Eu ainda sou o sócio majoritário da empresa. Ele acenou com a cabeça. — Queria que tudo fosse assim tão simples. No momento em que completei oitenta anos, nenhuma mudança nos investimentos poderia ser feita. Sinto tanto por isso... Não fazia ideia de que meu investimento em sua empresa, em seu futuro, pudesse afetá-lo dessa forma. Os nódulos dos meus dedos ficaram brancos com a força do meu agarre no suporte metálico. — Isto não é culpa sua. — Eu devia ter mandado Giles fazer uma revisão completa de nossas posses muito antes, mas... — Mas o derrame aconteceu e tudo com o que passamos a nos preocupar foi a sua saúde. — Não pense em nada disso. — Não queria que meu avô se preocupasse. Eu podia fazer isso por nós dois. O Grupo Westbury foi tudo pelo qual trabalhei a vida inteira, representava o fato de que nunca precisaria depender de ninguém; era a minha independência. — Gostaria de pensar que Frederick fará a coisa certa, mas... Suspirei. Ambos sabíamos que aquilo nunca aconteceria. Se meu primo tivesse a chance de me arruinar, ele agarraria com as duas mãos. Esteve esperando a vida toda para me provar que era o maioral, então nunca perderia aquela oportunidade. Eu precisava corrigir aquilo. — Nós encontraremos um jeito. Falarei com Giles sobre o assunto. Poderia até não ser o próximo Duque de Sussex, mas faria de tudo para impedir que Frederick destruísse o que batalhei tanto para construir.
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