O encontro

2049 Words
Aziza Sair com alguém em Nova York era terrível. Eu estava seguindo todos os conselhos que a internet podia oferecer – não demonstrar estar muito disponível, não t*****r nos primeiros encontros e não apostar todas as fichas em um cara só. No entanto, apenas cambaleava de uma decepção a outro desastre. Achei que o cara da última quintafeira foi bem fofo quando elogiou meus sapatos, até admitir que gostava de se vestir com roupas de mulher aos finais de semana, e queria ver se encontraria meu scarpin de camurça rosa com saltos de doze centímetros em seu número. Talvez até estivesse sendo muito exigente, mas não queria brigar com meu namorado sobre quem usaria o quê quando saíssemos para um jantar. Então teve aquele cara que parecia nunca ter feito um corte de cabelo nem sequer olhou uma vez diretamente para mim durante todo o encontro. E como poderia esquecer a criatura suada em seus quarenta e alguns anos, que disse para a nossa garçonete que ela tinha belas t***s? Deslizei o dedo pela tela do celular para ver uma mensagem de Andrew – até agora sem intercorrências. Nós tivemos apenas um encontro e, apesar da sensação de que ele era maníaco por limpeza, até que parecia relativamente normal. Eu não estava assim tão atraída por ele. E ele também não havia me feito rir. No entanto, não me fez sentir o desejo de enfiar um garfo dentro do seu olho após vinte minutos, logo, concordei com um segundo encontro. “Ansioso para te ver hoje à noite.” Peguei meu calendário e encontrei uma anotação que dizia: “jantar com Peter”. Olhei de volta para o celular. Será que havia confundido os nomes dos contatos? Peter era aquele que usava xadrez e tinha um gato. Concordei com um terceiro jantar porque, em nosso segundo encontro, ele deu uma gorjeta generosa para a garçonete que nos serviu, mesmo quando estava claro que não ganhava muito. No entanto, também não estava nem um pouco atraída por ele. Percorri todo o histórico de mensagens. Não, a mensagem era, definitivamente, de Andrew. Droga. Choquei os encontros. A porta do meu escritório se abriu o suficiente para que minha sócia, Cecily, enfiasse sua cabeça cheia de cachos. — Está desocupada? — perguntou. — Claro. Se você puder me ajudar a resolver um dilema sobre encontros. Tenho dividido meus dilemas com Cecily desde a faculdade. Colegas de quarto no primeiro ano, acabamos criando um vínculo assim que desembalamos nossas cópias de O diário de uma paixão e abandonamos os afazeres do dia para passar algumas horas ao lado de Ryan Gosling. Eu cursava Economia, enquanto ela tinha interesse por Marketing. O que era perfeito para uma dupla de empresárias. — Parece divertido. Ser casada é tão chato, às vezes. — Puxou uma cadeira do lado oposto da minha mesa. Nunca achei que casamento fosse tedioso. Eu amava meu marido, ficava ansiosa para voltar para casa toda noite e passar o tempo com ele. Depois de mais de dois anos do divórcio, ainda sentia falta dele. Sentia falta do meu parceiro no crime. Sentia falta do meu melhor amigo. Dei um sorriso forçado. — Isso é algo que Marcus diria. Aparentemente, estar em Connecticut comigo não foi suficiente para o meu ex-marido. E foi por essa razão que agora eu estava olhando para o Rio Hudson, morando em um apartamento de um quarto no centro de Manhattan, com noventa porcento dos meus pertences armazenados em um depósito. Quando era casada, vivia em uma linda casa de madeira com quatro quartos, em Connecticut, com uma belíssima vista para o lago e um trajeto de quinze minutos até meu escritório. A mudança ainda parecia uma facada na barriga. Em meus vinte e poucos anos, eu deveria estar desfrutando viver em uma cidade que nunca dorme. Talvez eu fosse chata. Quando ele me deixou, disse que odiava a ideia de ter sua vida toda programada, mas eu? Eu estava feliz. Satisfeita. Com Marcus ao meu lado, tudo era exatamente como havia imaginado quando pequena. Não havia nada mais que pudesse desejar. — Sinto muito. Não quis parecer insensível. Sorri, dizendo: — Está tudo bem. Foi há muito tempo. — Exceto que não parecia dessa forma em dias como o de hoje. Eu não queria me encontrar com ninguém. Preferia ir para casa e me aconchegar na cama, acompanhada de um bom livro, em vez de ir a um restaurante chique e tentar ser cativante e divertida. Sair com alguém era exaustivo. — Então, me diga qual é o problema. Eu conto o meu se você me contar o seu — negociou assim que se sentou à minha frente. — Você também está tendo algum problema com encontros? Seu marido está sabendo disso? — brinquei, sorrindo. — Sou discreta — respondeu e deu uma piscadela. — Vamos lá. Conte-me tudo. — Marquei encontro duplicado, só isso. Fiz planos de jantar com Andrew e Peter esta noite. — De novo? — Inclinou a cabeça para o lado. — Há umas duas semanas, você já não havia feito a mesma coisa? Isso mesmo. E como, exatamente, deixei isso acontecer outra vez? — Bem, acho que isso significa que você quer vê-los. Na verdade, era o oposto. Andrew e Peter eram muito bacanas, mas não conseguia ver um futuro com eles. Nenhum deles era minha alma gêmea. — Não é nada demais, vou apenas cancelar o encontro com um deles. — Ou ambos, aí poderei ter um encontro com meu leitor digital. — Acredito que seu problema não tem nada a ver com encontros... Os cachos sacudiram quando Cecily riu. — Não tenho essa sorte, e o problema não é só meu. Também é seu. — Arregalou os olhos. — Tivemos outra abordagem de Westbury. Westbury era de longe a empresa de investimentos mais animada entre aquelas com as quais estivemos conversando para aceitar uma proposta que nos permitisse pagar nossos empréstimos prestes a vencer. Mas, também, era a menos flexível com nossos termos. — Sinto muito por estarmos nesta situação — disse Cecily. — Não precisa se desculpar. Nós precisamos daquele dinheiro e não tivemos nenhuma outra oferta. — A Perfumes Cecily se tornou muito bem-sucedida rapidamente e, cerca de um ano atrás, precisamos de muito dinheiro, urgente, para que pudéssemos atender a todos os pedidos que estávamos recebendo. Cecily pode ter assinado os papéis do empréstimo, já que eu estava fora da cidade, mas foi tanto minha decisão quanto dela. — Sabíamos que seria uma coisa a curto prazo. Quem imaginaria que faríamos esse sucesso todo? Os empréstimos precisavam ser pagos, mas também precisávamos de todo dinheiro do fluxo de caixa possível para continuar a investir no estoque. Era necessário refinanciar os empréstimos no próximo mês. Se não conseguíssemos, nosso fluxo de caixa desaparecia. — Westbury não mudou sua oferta? — perguntei. — Ainda é tudo ou nada. Eles assumem todo o negócio, nos contratam como funcionárias e deixamos de ser acionistas. Westbury tinha a reputação de ser astuto e bem-sucedido. — Apesar de o dinheiro ser excelente... — comentou, parecendo mais otimista. Muitos investidores ficavam felizes em se tornar sócios minoritários em uma empresa, mas o Grupo Westbury queria tudo. Cecily e eu demos início a este negócio. Escolhemos a dedo cada um dos nossos funcionários. p***a, até escolhi a máquina de café. Não queríamos simplesmente ser afastadas. Mas será que Cecily estava indecisa? Será que se sentia na corda bamba? — O que você quer dizer com “excelente”? Seus olhos tremeluziram acima da superfície da mesa. — O suficiente para pagar todos os acionistas que esperávamos ter no final do terceiro ano. Fechei a boca na mesma hora. Aquilo era muito dinheiro. Minha amiga e eu poderíamos começar tudo de novo. No entanto, eu amava a Perfumes Cecily. Acabou se tornando uma coisa que nunca imaginei que um trabalho poderia despertar – uma paixão. Havia me proporcionado uma distração enquanto sofria a perda do meu casamento. Nunca entendi quando meus amigos falavam de seus trabalhos como um hobby, até que demos início à nossa empresa. Nunca se pareceu com trabalho para mim. Eu amava o que fazia. E a empresa se tornou a única coisa boa em minha vida, desde o divórcio. Eu precisava de uma mudança, para que não ficasse focada no buraco deixado no meu coração. Quando Marcus foi embora, meu mundo ruiu, mas o impulso de provar que ele havia tomado a decisão errada fez com que algo em mim se acendesse. Era a prova para o meu marido de que eu não era entediante, previsível e cautelosa como ele pensava – com certeza, ele esperava que eu permanecesse em um emprego em algum banco de investimentos, com um salário estável pelo resto da minha carreira. Criar uma empresa, com nenhuma infraestrutura e metodologia, até que estabelecêssemos isso, arriscando não receber mensalmente, era algo que ele nunca pensou que eu fosse capaz. E não era algo que já havia imaginado para mim mesma. Mas quando seu mundo estava do avesso, às vezes, você arriscava qualquer coisa. Podia não ter sido capaz de salvar meu casamento, mas não estava pronta para desistir da Perfumes Cecily. — O que você acha? Quer sair fora? Desistir de tudo o que trabalhamos duro e deixar que outra pessoa se beneficie de todo o nosso sucesso e frutos? — Diga não. Por favor, diga não. Ela se encolheu. — Bem, não quando você expõe tudo dessa forma. Mas não acho que tenhamos escolha. Nenhuma das outras propostas quita nossos empréstimos. Ela cederia com tanta facilidade? Eu, com certeza, não. Meu irmão era um cara riquíssimo e poderia nos ajudar se eu falasse sobre nosso problema. No entanto, sabia que a empresa dele havia acabado de se apoderar de uma concorrente, então ele não teria tanto dinheiro em caixa. Além do mais, eu queria fazer isso por conta própria. Não queria que meu irmão tivesse que me salvar. — Entendo que prefira que a empresa continue sem você, do que falir com você. Eu não achava que chegaríamos àquilo. Sabia que poderíamos resolver as coisas. Já havíamos chegado até aqui. Como a representante da empresa, Cecily lidava com a maioria das reuniões de negócios, enquanto eu me concentrava em manter as coisas funcionando com a gestão corrente. Já havia ficado sabendo de inúmeras histórias horrorosas sobre administradores se distraindo com um novo investimento, e estava determinada a não deixar isso acontecer. Não era eu que lidava com os investidores, mas Cecily andava abatida, então era minha vez de assumir a liderança. — Talvez recebamos outras propostas, podemos até ser capazes de usar isso para subir o lance das ofertas já recebidas. Ela retirou um fiapo da saia. — Talvez. Eu só não quero que afundemos, e seria melhor manter nossos empregos. — Que tal se eu me reunir com todos os possíveis compradores e tentar negociar? — sugeri. — Trabalhei em um banco de investimentos. Pode ser que tenha aprendido uma coisa ou duas no processo. — Tinha de haver um meio de que eu e ela continuássemos na administração da empresa quando os empréstimos fossem refinanciados. — Você acha que pode fazê-los mudar de ideia? — perguntou. Dei de ombros. — Quem sabe? Mas vale a pena tentar, não é mesmo? Ainda temos força de vontade, não é? — Eu precisava saber se ela ainda conservava a dela. — A próxima prestação dos empréstimos vence em um mês, não temos muito tempo. Assenti, tentando ignorar o espasmo em minha pálpebra me dizendo que aquela era uma tarefa quase impossível. — Não podemos desistir, Cecily. Este é nosso bebê. Ela sorriu sem convicção alguma. — Foi preciso muita energia para chegar até aqui, não tenho certeza se ainda tenho fôlego para terminar a corrida. — Bem, é por isso que estou aqui. Vou fazer de tudo para que nós duas cruzemos a linha de chegada. Custe o que custar. Eu salvaria a Perfumes Cecily. E também cancelaria o encontro com Andrew e Peter, ligaria para minha irmã, Violet, e a chamaria para tomar um drinque. Eu queria fazer o que estava a fim desde o início, ao invés de optar por uma noite que deveria ter como uma garota de vinte e poucos anos em Manhattan.
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