— Espero que você esteja transando com os dois. E ao mesmo tempo, toda terça-feira — disse Violet logo depois que mencionei o encontro duplo. Minha irmã sempre me contou tudo, e acreditava em mim mais do que em qualquer outra pessoa. Se eu fosse brigar com o Grupo Westbury para manter a sociedade, então ela era a perfeita animadora da torcida da batalha.
— Shhhh — sussurrei, olhando ao redor para conferir se alguém a tinha escutado.
Aquele bar, um dos meus favoritos, mais se parecia a um desses clubes privados dos anos 50, com a iluminação reduzida, sofás Chesterfield e o costumeiro piano isolado em um canto. Tudo aquilo representava o que sempre imaginei quando pensava em Manhattan, ao invés da realidade de encontros e longas horas no trânsito que não podiam ser consideradas nem um pouco glamorosas.
— Agora, sério... O que você estava pensando quando me chamou para vir a um lugar desses? — perguntou.
Ela estava certa. Este era o tipo de lugar que eu e Harper viríamos com Grace. Violet e eu sempre acabávamos escolhendo comer hambúrgueres no centro da cidade.
— Eu gosto daqui.
— E então — insistiu —, você está transando com os dois? Eu sei que é esperar demais imaginar que você esteja sendo fodida pelos dois ao mesmo tempo. — Deu uma olhadela em um solteiro de terno que estava do outro lado do bar, e que notei já ter dado uma conferida nela um pouco mais cedo. — Acho que quero experimentar um ménage antes de ficar velha, só que com dois caras — esclareceu. — Tive um lance de um cara com duas garotas na faculdade, mas não rolou pra mim.
Cuspi minha bebida, quase me engasgando.
— Violet, por favor. Não me faça morrer de vergonha. Pelo menos esta noite.
— Tá, se você responder minha pergunta, vou parar de dividir meus segredos.
— Não, não estou transando com eles, muito menos com os dois ao mesmo tempo.
— Argh... — resmungou. — Eu devia ter adivinhado. Diga que você fodeu com alguém desde o seu divórcio. Por favor. Diga que seu vibrador não foi a única coisa que lhe deu um orgasmo nos últimos dois anos.
Violet podia até estar brincando, mas o jeito que ela disse me fez sentir até vergonha de nunca ter dado o passo de t*****r pela primeira vez depois do divórcio. Minha irmã era tão... liberal em seus relacionamentos com os homens; ela não conseguia entender por que eu não havia dormido com nenhum dos caras com quem já saí. Nem eu mesma entendia, porém nenhum deles sequer se parecia com o que estava procurando. Eles não tinham sido especiais. Saí com muitos homens desde a separação de Marcus, consegui até voltar para a pista. Eu só ainda não havia dado o passo final.
Cheguei até mesmo a namorar alguns deles. Bem, um cara só. Por cerca de uma semana, até perceber que não havia escapatória a não ser dormir com ele, então terminei tudo.
Violet segurou minha mão.
— Eu sei que falo isso o tempo todo, mas você precisa de uma aventura de uma noite. Você está pensando demais nessa coisa de sexo. É apenas isso: sexo. Como escovar os dentes ou fazer exercícios. É um fato da vida.
— É muito difícil.
Eu entendia e concordava com Violet – sexo não era assim tão complicado. Mas sexo depois de um casamento era aterrorizante. Talvez porque eu, finalmente, estivesse aceitando que meu casamento já era, e também porque o sexo era o precursor de um relacionamento – um limiar que eu deveria ultrapassar. Se me mantivesse do lado de cá, então estaria segura. E quando as coisas terminassem, ninguém poderia dizer que o relacionamento fora um fracasso se ele não tivesse existido em primeiro lugar. Eu não queria passar o resto da vida deixando um rastro de decepções e relacionamentos desfeitos.
— Na verdade, não é. E, honestamente, se estiver muito nervosa, você pode apenas ficar lá deitada enquanto o cara faz todo o trabalho. Não será tão bom, mas se for capaz de fazer isso, com esse seu corpão e rostinho bonito, não vai precisar fazer nada para conseguir que o cara chegue lá.
— Nós realmente estamos tendo essa conversa? — Eu não estava nervosa. E sentia falta de sexo.
Só não queria um relacionamento que já estava fadado ao fracasso.
Violet estendeu o braço e afagou minha mão.
— Vamos continuar essa conversa até que você tenha superado esse seu problema com essa coisa de primeira vez, primeiro amor... Sua vida não é um comercial da Coca-Cola. A vida de ninguém é. Marcus se foi e não vai voltar. De qualquer forma, você sabe que ele está comendo a Cindy Cremantes agora.
Eu tinha ouvido aquele rumor na última vez que fui visitar meu irmão em Connecticut. Cindy continuava trabalhando na farmácia em Westchester, como havia feito desde a escola. Não conseguia entender por que ela era tão mais excitante do que eu.
— Não penso que minha vida é um comercial da Coca-Cola.
— Preciso discordar. Eu sei que Marcus foi o único cara com quem você já dormiu, mas apesar dessa decoração toda aqui, nós não estamos nos anos 50. — Ela girou o dedo no ar. — Você não é uma dona de casa. Você não precisa fingir que não gosta de sexo. Não é assim que a vida funciona no mundo moderno.
— Eu gosto muito de sexo. Não sou frígida.
Violet suspirou.
— Marcus não a deixou porque você era r**m de cama. Não precisa ficar com medo disso.
— Sim, eu sei.
Marcus não era r**m de cama, e eu adorava t*****r com ele. Mas estava aberta a algo... novo, melhor. Eu não queria ter ido para um clube de suingue, nem nada disso, mas ele bem que poderia ter me fodido no chão da cozinha ou falado coisas obscenas no meu ouvido para variar. Uma vez, quando éramos recém-casados, entrei no chuveiro quando ele estava tomando banho e me ajoelhei, prestes a lhe fazer um boquete; ele disse todo sem jeito que não tinha tempo para aquilo porque estava atrasado para o trabalho.
— Só acho que não estou pronta para me relacionar com alguém.
— Sexo não se trata de relacionamento. Você está esperando para ver se um desses caras com quem está saindo é o Sr. Perfeito, para que possa t*****r com ele? — indagou, franzindo as sobrancelhas como se aquela fosse a coisa mais absurda que já ouviu.
Encolhi os ombros com indiferença.
— É mais como se eu estivesse evitando ter um relacionamento ao não t*****r.
Ela assentiu.
— Tudo bem. Entendi, mas você está esquecendo uma coisa... f********o com alguém não significa ter um relacionamento com a pessoa. Nem sempre. O que você está precisando é t*****r com um desconhecido.
Eu nunca peguei um cara na balada antes – nem mesmo flertei com alguém que não fosse meu marido. Marcus e eu começamos a namorar no ensino médio.
— Então, como funciona essa coisa de “aventura de uma noite”? Caso, teoricamente, eu tenha coragem de fazer algo desse tipo.
Violet engoliu seu gole de vodca antes de dar um sorriso enorme.
— Escolha um cara. — Apontou para um homem sentado ao bar, agitando sua bebida enquanto encarava o fundo do copo como se estivesse pensativo. — Ele é gostoso. Não usa aliança. Vá lá.
Vá lá? Não era como se fosse um passeio ou uma corrida no parque.
— Deixe de bobeira. Não posso simplesmente escolher um cara assim.
Pelo que podia ver, o cara do bar era bem atraente – uma mandíbula definida, um belo terno aparentemente feito sob medida. Ainda assim, ele podia ser do tipo que morava com a mãe ou tinha o fetiche de mijar nas mulheres... ou homens. Eu estava preparada para ir mais além, mas havia limites.
— Você vive me dizendo que quer ser mais ousada. E acho que não precisa se preocupar com o resultado, só está deixando o i*****l do Marcus entrar na sua cabeça. Mas, teoricamente, se você quer ter um caso de uma noite, ele seria perfeito.
Ergueu o queixo em direção ao cara gostoso do bar.
— Apenas encontre alguém para t*****r, alguém que você nunca mais vai ver outra vez. E quando você encontrar uma pessoa de quem realmente goste, pode ter um relacionamento e sexo.
— Gostei do Andrew. E do Peter, se quer saber.
— Talvez sim, mas não o bastante. Talvez seja só a pressão. Com um desconhecido, não há expectativas, fora o fato de que os dois vão t*****r.
Poderia até ser isso. Talvez eu só não tivesse que pensar sobre o assunto – pensar em nada.
— Você está fazendo aquela coisa — disse Violet, franzindo o cenho.
— Que coisa?
— Aquela coisa de você ficar batendo o seu dedo indicador. É irritante.
— Você é irritante.
Ela apenas deu de ombros como se não estivesse nem aí. Violet era sempre tão segura e confiante a respeito de si mesma e de tudo ao seu redor. Era quase como se ela usasse óculos superpoderosos de alguma ficção científica – ela via as coisas de uma maneira diferente, com mais clareza do que eu. Geralmente ela estava certa.
— Em teoria, porque de jeito nenhum vou fazer isso, se eu quisesse pegar o cara do bar... o que deveria fazer?
— Teoricamente? — perguntou ela.
Assenti, enfiando na boca os dois canudinhos pretos do meu coquetel.
— Você não teria que fazer muita coisa. Apenas encontre um motivo para ir até o bar.
— Por que precisaria ir ao bar? Eles têm serviço de mesa.
Violet suspirou audivelmente.
— Eu disse encontrar um motivo. Não importa qual seja. Apenas vá até o balcão e peça uma bebida diferente. — Fez uma pausa, a boca levemente aberta como se estivesse pensando na palavra.
— Um French 75.
— Isso é um coquetel? — Parecia mais como uma cor de tinta ou uma raça de cachorro.
— Um French 75 é o coquetel. Como é possível você morar em Nova York e não saber dessas coisas? — perguntou. — Não está no menu, o que a faz parecer descolada e sofisticada. E é um tema de conversa.
— Então, vou até o bar e peço uma bebida. E aí? Peço para ele me f***r?
— Shhh! Este é um lugar chique — zombou Violet, rindo. — Apenas vá lá e fique perto dele. Mostre-se acessível. Dê umas olhadas de r**o de olho para ele. Com este vestido, você só precisa fazer isso.
Conferi a roupa que estava usando. Era o meu vestido vermelho. Usei para trabalhar, não era assim tão sexy.
— Talvez depois que eu terminar minha bebida.
Violet revirou os olhos.
— Talvez o c*****o. Você nunca vai fazer isso.
Sempre me disseram o que eu nunca faria. O que eu não era. Marcus; os consultores de RH ao julgarem que eu nunca conseguiria trabalhar como diretora financeira depois de ter trabalhado em um banco; meu irmão, ao afirmar que eu nunca mudaria de cidade.
Bem, que se f**a.
Eu fiz todas essas coisas. Poderia muito bem andar até o bar e pedir uma maldita bebida.
— Dois French 75 saindo agorinha mesmo. — Deslizei para fora da cabine e não olhei para trás para conferir se havia chocado Violet. Não queria perder a coragem. Não era como se tivesse que conversar com o cara do bar... Seria até melhor se eu não fizesse mesmo isso. Eu poderia provar à Violet que dar em cima de alguém na balada não era assim tão fácil quanto ela pensava.
Meus saltos vermelhos de verniz clicaram no piso de madeira, fora de sincronia com os batimentos do meu coração. O cara que Violet havia indicado estava sentado no canto do balcão, então, em vez de me aproximar dele, segui para o outro canto, de forma que pudesse checar se ele não tinha apenas um perfil bonito.
Apoiei as palmas das mãos no balcão brilhante de mogno, deliberadamente não olhando para a direita. O barman não estava atrás do bar.
— Acho que ele deu uma saída por um instante — disse o bonitão, com um sotaque que não consegui identificar. Não, seu perfil não era a única coisa bonita. Assim que o olhei, era como se meus olhos tivessem grudado nele. Ele sorriu de lado. — Oi.
Suspirei e retribuí o sorriso, fechando as mãos em punhos e cravando as unhas contra as palmas.
— Oi. — Os olhos dele, castanho-escuros, me observaram como se eu fosse a única pessoa no lugar.
— Ryder — apresentou-se.
— Ah, Aziza. — Assenti, ainda sorrindo. — Esse é o nome. Quer dizer, meu nome é Aziza.
Recomponha-se, Aziza. Ele é apenas um homem.
Só que ele não era apenas isso. Com certeza ele não se parecia com nenhum homem que eu já tenha conhecido. Parecia-se mais a uma estrela de cinema. Mesmo sentado, poderia dizer que ele era alto – mais alto até do que Marcus, que tinha 1,80 m. A pele era bronzeada e o cabelo sedoso tinha um tom castanho-escuro. Uma mão enorme segurava o copo, enquanto a outra coçava suavemente a mandíbula.
— Aziza?Como um nome africano? — Ergueu as sobrancelhas.
— Não, como King.
Os cantos de sua boca se curvaram em um meio sorriso.
— Aziza King. Eu gosto disso.
Eu gosto disso. Repeti na minha cabeça, tentando imitar seu tom de voz. Então percebi. Ele era britânico.
Os lábios cheios em um beicinho.
Seu sorriso leve.
O sotaque.
Uau.