Quando as luzes se apagam
📖 A DIVA
Capítulo 1 — Quando as Luzes se Apagam
A Cidade do México nunca dormia.
Mesmo quando a madrugada cobria os edifícios com um manto escuro, havia sempre alguma coisa acontecendo.
Carros atravessavam as avenidas iluminadas. Música escapava dos restaurantes. Pessoas entravam e saíam de hotéis luxuosos. Fotógrafos esperavam diante de clubes e eventos à procura de algum rosto famoso.
E, naquela noite, todas as câmaras estavam voltadas para uma mulher.
— Isabela! Aqui!
— Isabela, olha para cá!
— Isabela, uma foto!
Os flashes explodiam continuamente.
Isabela Costa-Rodríguez sorriu.
Era um sorriso perfeito.
Treinado.
Elegante.
Exatamente o sorriso que esperavam de uma das modelos mais requisitadas da Cidade do México.
Ela caminhou pelo tapete vermelho com passos seguros, usando um vestido longo de corte sofisticado que acompanhava os seus movimentos sem exageros. O cabelo castanho cacheado estava solto, volumoso e cuidadosamente arrumado.
A iluminação do evento fazia a sua pele morena dourada parecer ainda mais radiante.
Ela parecia pertencer àquele lugar.
E talvez pertencesse.
Durante o dia, Isabela era exatamente aquilo que todos imaginavam.
Uma modelo.
Uma celebridade.
Uma mulher que aparecia em revistas, campanhas publicitárias e grandes eventos.
Mas aquela era apenas uma das suas vidas.
— Sorri mais um pouco — murmurou Freya ao aproximar-se discretamente.
Isabela manteve o sorriso.
— Estou a sorrir.
— Isso é o teu sorriso de quem está a pensar em desaparecer com alguém.
Isabela continuou a olhar para as câmaras.
— Então para de me irritar.
Freya segurou uma pequena pasta contra o corpo e fingiu verificar alguns papéis.
Para qualquer pessoa, parecia apenas a assistente pessoal da modelo.
Mas Freya conhecia Isabela melhor do que ninguém.
Conhecia a mulher por trás das capas.
Conhecia a verdadeira A Diva.
— O evento termina daqui a uma hora — murmurou Freya.
— Ótimo.
— E tens uma sessão amanhã às oito.
— Menos ótimo.
Freya quase sorriu.
— Também tens um almoço com a agência.
— Definitivamente menos ótimo.
— E...
— Freya.
— Sim?
— Não continues.
— Certo.
As duas seguiram pelo salão.
O evento daquela noite reunia empresários, celebridades, políticos, modelos e algumas das famílias mais influentes da cidade.
Era uma noite importante.
E Isabela sabia exatamente porquê.
O principal patrocinador era uma das maiores empresas do país.
Uma empresa pertencente a...
Luan Thiago Falcone.
O nome havia circulado pela imprensa durante semanas.
Italiano.
Empresário.
Milionário.
Investidor.
Dono de hotéis, empresas de moda e diversos empreendimentos espalhados pelo México.
Um homem que havia construído um império aparentemente do nada.
Mas havia outra parte da história.
Uma parte que nunca aparecia nas revistas.
Luan Falcone era também o homem que comandava uma das organizações criminosas mais temidas do país.
E, naquela noite, ele estava presente.
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No segundo andar do edifício, longe da multidão, Luan observava o salão através das enormes janelas de vidro.
Tinha um copo na mão, mas praticamente não havia tocado na bebida.
O fato escuro estava perfeitamente ajustado ao corpo.
A camisa branca permanecia impecável.
O relógio pesado no pulso refletia discretamente a luz.
Ao lado dele estava Marco Varela.
— O conselho aprovou a aquisição do hotel — informou Marco.
— Algum problema?
— Nenhum.
— E os documentos?
— Assinados.
Luan assentiu.
— Os homens do norte?
Marco ficou em silêncio durante alguns segundos.
— Resolveram aceitar os novos termos.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Luan.
— Finalmente aprenderam a ouvir.
Marco conhecia aquele sorriso.
Não significava felicidade.
Significava que Luan havia conseguido exatamente aquilo que queria.
— Há mais uma coisa — disse Marco.
— Fala.
— Algumas pessoas estão a tentar descobrir quem está por trás de determinadas operações que temos realizado.
Luan virou lentamente o rosto.
— E descobriram?
— Ainda não.
— Então não temos um problema.
Marco assentiu.
Era assim que Luan funcionava.
Calmo.
Direto.
Nunca levantava a voz quando não precisava.
Nunca fazia ameaças vazias.
As pessoas simplesmente sabiam o que aconteceria quando ultrapassassem os limites.
— Outra coisa — acrescentou Marco.
— O quê?
— A modelo.
Luan olhou para ele.
— Que modelo?
Marco inclinou discretamente a cabeça na direção do salão.
— Isabela Costa-Rodríguez.
Luan acompanhou o movimento.
E então viu-a.
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Isabela estava cercada por fotógrafos.
Ela sorria.
Conversava.
Cumprimentava pessoas.
Parecia completamente confortável.
Luan ficou alguns segundos em silêncio.
Não foi a beleza dela que chamou a atenção dele.
Foi a maneira como ela observava.
Enquanto todos olhavam para Isabela, Isabela olhava para todos.
As câmaras.
As portas.
Os seguranças.
As pessoas próximas.
As saídas.
Cada detalhe.
Luan estreitou os olhos.
— Interessante.
Marco percebeu.
— Conheces?
— Não.
— Queres que descubra alguma coisa?
Luan continuou observando.
— Já descobri.
Marco esperou.
— Ela não está distraída.
— É uma modelo.
— Não.
Luan entregou o copo a Marco.
— Ela está a analisar o ambiente.
Marco voltou a olhar para Isabela.
— Achas que ela é perigosa?
Luan não respondeu imediatamente.
— Acho que ela quer que todos pensem que não é.
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Isabela sentiu o olhar.
Não sabia de onde vinha.
Continuou sorrindo para uma fotógrafa enquanto discretamente procurava a origem daquela sensação.
Então encontrou.
Um homem estava no segundo andar.
Alto.
Fato escuro.
Cabelo castanho quase preto.
Olhos profundos.
E uma expressão que não combinava com aquele tipo de evento.
Ele não estava admirando-a como os outros homens.
Estava estudando-a.
Isabela sustentou o olhar por alguns segundos.
Depois virou-se.
— Quem é? — perguntou baixinho.
Freya acompanhou o olhar.
Quando viu o homem, a sua expressão mudou ligeiramente.
— Luan Falcone.
Isabela conhecia o nome.
Todos conheciam.
— O empresário?
Freya hesitou.
— Entre outras coisas.
Isabela voltou a olhar para ele.
— Ele está a olhar para mim.
— Percebi.
— Descobre porquê.
Freya arqueou uma sobrancelha.
— Agora?
— Agora.
— Isabela...
— Freya.
Freya suspirou.
— Está bem.
Ela afastou-se discretamente.
Isabela voltou para o g***o de convidados.
Mas a sensação permaneceu.
Aquele homem não olhava para ela como os outros.
E isso incomodava-a.
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Quarenta minutos depois, o evento continuava.
Isabela conversava com um fotógrafo quando uma voz masculina surgiu atrás dela.
— Isabela Costa-Rodríguez.
Ela virou-se.
Era ele.
Luan.
De perto, parecia ainda mais imponente.
Isabela sorriu educadamente.
— Senhor Falcone.
— Luan.
— Luan.
Ele estendeu a mão.
Isabela apertou-a.
O aperto foi breve.
Formal.
Mas nenhum dos dois desviou os olhos.
— Gostou do evento? — perguntou ela.
— Está bem organizado.
— Isso não parece um elogio.
— Não sou conhecido por elogiar eventos.
Ela quase sorriu.
— Então vou considerar isso uma crítica.
— Pode considerar como quiser.
Silêncio.
Luan observou-a por alguns segundos.
Isabela manteve uma expressão tranquila.
— É um prazer conhecê-lo — disse ela.
— O prazer é meu.
Ele afastou-se.
Isabela ficou olhando-o por um instante.
Aquilo tinha sido estranho.
Muito estranho.
Ela conhecia homens poderosos.
Conhecia empresários.
Conhecia pessoas acostumadas a conseguir tudo o que queriam.
Mas Luan Falcone era diferente.
Ele não tentara impressioná-la.
Não tentara seduzi-la.
Não tentara sequer parecer interessado.
Era como se estivesse à procura de outra coisa.
— Não gostei dele — murmurou Freya ao surgir ao lado dela.
— Nem eu.
— Então por que estás a olhar para ele?
Isabela desviou os olhos.
— Não estou.
Freya olhou para ela.
— Estavas.
— Cala-te.
Freya sorriu.
— Com prazer.
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Pouco depois da meia-noite, Isabela deixou o evento.
Entrou no carro e soltou o ar lentamente.
O sorriso desapareceu do rosto.
A mulher das câmaras desapareceu.
A modelo deixou de existir.
Restava apenas Isabela.
— Alguma coisa? — perguntou Freya do banco ao lado.
— Ele sabe.
Freya ficou séria.
— Tens certeza?
— Não.
— Então não sabes.
— Sei reconhecer quando alguém está a observar uma pessoa.
Freya ficou em silêncio.
Isabela olhou pela janela.
As luzes da Cidade do México passavam rapidamente.
— Quero saber tudo sobre ele.
— Já comecei.
— E?
Freya abriu o telemóvel.
— Luan Thiago Falcone. Trinta anos. Italiano. Chegou ao México alguns anos atrás. Construiu empresas extremamente lucrativas em pouco tempo. Tem influência em hotéis, moda, imóveis e transporte.
— E a outra parte?
Freya olhou para ela.
— Oficialmente, não existe.
Isabela arqueou uma sobrancelha.
— E não oficialmente?
Freya baixou a voz.
— Existem rumores.
— Que rumores?
— Que ele controla pessoas suficientes para fazer desaparecer problemas.
Isabela ficou quieta.
Freya observou-a.
— Queres que eu descubra mais?
— Sim.
— Isabela...
— Tudo.
Freya assentiu.
— Está bem.
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Naquela mesma noite, no outro lado da cidade, Luan entrou no seu escritório.
Marco colocou uma pasta sobre a mesa.
— Informações sobre Isabela Costa-Rodríguez.
Luan abriu a pasta.
Fotografias.
Campanhas.
Entrevistas.
Registos públicos.
Tudo perfeitamente normal.
Modelo.
Nascida em Luanda.
Mãe angolana.
Pai mexicano.
Mudou-se para a Cidade do México anos atrás.
Carreira internacional.
Nenhuma ligação aparente ao submundo.
Luan virou uma página.
Depois outra.
Nada.
— É limpa demais — comentou.
Marco cruzou os braços.
— Isso é um problema?
— Talvez.
— Não encontrei nada.
— Exatamente.
Luan fechou a pasta.
— Ninguém é tão perfeito.
Marco olhou para ele.
— Queres que continuemos?
Luan ficou alguns segundos em silêncio.
— Não.
Marco pareceu surpreso.
— Não?
— Eu mesmo vou descobrir.
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Três dias passaram.
Isabela voltou à sua rotina.
Sessões fotográficas.
Entrevistas.
Reuniões.
Eventos.
A vida pública continuava.
Mas algo havia mudado.
Luan Falcone aparecia constantemente nas notícias.
E, de alguma maneira, os caminhos dos dois continuavam cruzando-se.
Um jantar.
Uma campanha.
Um empreendimento.
Uma reunião social.
Até que chegou outra noite.
Isabela estava sozinha num corredor reservado de um hotel quando ouviu passos atrás dela.
Parou.
Não se virou imediatamente.
— Está a seguir-me? — perguntou.
— Não.
A voz.
Ela reconheceu.
Virou-se.
Luan estava ali.
Sem seguranças visíveis.
Sem Marco.
Apenas ele.
— Então coincidência?
— Talvez.
Isabela cruzou os braços.
— Não acredito em coincidências.
— Nem eu.
Ele aproximou-se alguns passos.
Isabela manteve a distância.
— O que quer?
Luan ficou em silêncio.
Dessa vez, não havia sorriso.
Nenhuma brincadeira.
Nenhuma conversa superficial.
A expressão dele era completamente séria.
— Quero falar contigo.
— Sobre?
— Sobre quem és.
O coração dela bateu mais forte.
Mas o rosto permaneceu tranquilo.
— Sou Isabela.
— Não.
Silêncio.
Luan continuou:
— Esse é o nome que o mundo conhece.
Os olhos dela ficaram mais frios.
— Cuidado, Luan.
Ele percebeu.
Finalmente.
A máscara tinha desaparecido.
Por apenas um segundo.
Mas ele tinha visto.
— Aí está — murmurou.
— O quê?
— A mulher que eu estava à procura.
Isabela não respondeu.
Luan aproximou-se mais um pouco.
— Eu sei quem és quando as luzes se apagam, Isabela.
O corredor pareceu ficar silencioso.
Ela não piscou.
Não recuou.
Não demonstrou medo.
Apenas o observou.
— Então sabes que não devias estar aqui.
Luan sorriu.
Um sorriso pequeno.
Perigoso.
Fascinado.
— Talvez.
Isabela ficou imóvel.
— E o que vais fazer com essa informação?
Luan sustentou o olhar dela.
— Nada.
Ela franziu ligeiramente a testa.
— Nada?
— Não vim denunciar-te.
— Então por que estás aqui?
Ele respondeu sem hesitar:
— Para fazer-te uma proposta.
Isabela soltou uma pequena risada, sem humor.
— Eu não trabalho para ninguém.
— Eu sei.
— Então já sabes a resposta.
— Ainda não fiz a proposta.
Ela ficou em silêncio.
Luan deu mais um passo.
— Quero que trabalhes comigo.
Isabela estreitou os olhos.
— Como?
— Como tua própria pessoa.
— Não sou subordinada.
— Eu não quero uma subordinada.
Ele inclinou ligeiramente a cabeça.
— Quero uma igual.
Pela primeira vez naquela noite, Isabela não encontrou uma resposta imediata.
Luan virou-se.
— Pensa.
Deu alguns passos.
Então parou.
Sem olhar para trás, acrescentou:
— Porque tenho a sensação de que, juntos, podemos construir algo que esta cidade nunca viu.
E desapareceu pelo corredor.
Isabela permaneceu imóvel.
Freya surgiu alguns segundos depois.
— O que aconteceu?
Isabela continuou olhando para o corredor vazio.
— Ele sabe.
Freya ficou séria.
— Quanto?
Isabela finalmente virou-se.
Os seus olhos estavam frios.
— Tudo.
Freya respirou fundo.
— E agora?
Isabela olhou para a porta por onde Luan havia desaparecido.
Um pequeno sorriso surgiu no canto dos seus lábios.
Não era o sorriso da modelo.
Era o sorriso de A Diva.
— Agora quero descobrir exatamente quem pensa que ele é.
E, naquela noite, pela primeira vez, dois mundos secretos começaram a aproximar-se.
Sem que nenhum dos dois soubesse ainda...
que aquela aproximação mudaria tudo.