As semanas que se seguiram à entrega do colar de diamante n***o transformaram-se em um borrão confortável e anestésico. A primeira neve do inverno nova-iorquino havia começado a cair, cobrindo a cidade lá embaixo com um manto branco e silencioso que apenas aumentava a sensação de isolamento na cobertura de Damian Cole.
Sienna Brooks havia se adaptado à sua gaiola de ouro com uma facilidade que a assustava quando se permitia pensar no assunto. O medo excruciante de ser caçada havia sido substituído por uma rotina de trabalho remoto, jantares impecáveis e noites consumidas pelo calor abrasador do corpo de Damian. O colar de platina nunca deixava seu pescoço. O celular criptografado nunca tocava, a não ser com as raras mensagens de seu chefe. Ela era um pássaro que havia esquecido como voar, convencido de que o céu era o lugar mais perigoso do universo.
Naquela tarde de sexta-feira, Sienna estava parada diante da imensa parede de vidro da sala, segurando uma xícara de chá quente enquanto observava os flocos de neve rodopiarem em um frenesi caótico contra o céu cinzento. Uma pontada fina, quase imperceptível, de melancolia pinicou seu peito. Ela não sentia falta do perigo, não sentia falta das noites m*l dormidas com medo do barulho na janela, mas a imensidão da cidade lá fora disparou um leve gatilho de claustrofobia. Ela não respirava ar puro há quase um mês.
O som suave de passos no mármore a despertou de seu transe. Duas mãos grandes e firmes pousaram em sua cintura, puxando-a gentilmente, mas com firmeza, contra um peitoral sólido.
— Você está quieta hoje — Damian murmurou, a voz aveludada vibrando contra o cabelo dela, depositando um beijo demorado em sua têmpora. O cheiro de sândalo e frio que ele trazia da rua envolveu Sienna como um cobertor pesado. — Há algo errado com os arquivos da agência?
— Não... o trabalho está em dia — ela suspirou, recostando a cabeça no ombro dele, a frieza do vidro à sua frente contrastando com o calor do corpo dele nas suas costas. — É só... a neve. É linda. Eu costumava gostar de caminhar no Central Park quando a primeira neve caía. O ar gélido, o barulho do gelo quebrando sob as botas...
As palavras escaparam antes que ela pudesse filtrá-las. No segundo em que a frase terminou, Sienna sentiu os músculos de Damian ficarem rígidos. Uma tensão sutil, mas inegável, irradiou do corpo dele. Ela prendeu a respiração, temendo ter soado ingrata, temendo ter despertado a fera protetora que ditava as regras de sua sobrevivência.
Mas, quando ele falou, o tom foi surpreendentemente brando.
— O parque é um lugar aberto, imprevisível e cheio de pontos cegos. Não é seguro para você, Sienna. Especialmente agora, quando os rastros ainda podem estar quentes.
— Eu sei, Damian. Eu não estou reclamando. Foi apenas um pensamento bobo — ela se apressou em dizer, virando o rosto para beijar o maxilar rígido dele, em uma tentativa de apaziguar a possessividade que começava a escurecer os olhos do homem.
Damian virou-a completamente, tomando a xícara de chá das mãos dela e colocando-a sobre uma mesa lateral. Ele segurou o rosto de Sienna com ambas as mãos, os polegares traçando as maçãs do rosto dela.
— Eu prometi que protegeria você, não que a enterraria viva — ele proferiu, o olhar fixo e insondável. — Se você quer sair, nós vamos sair. Mas nos meus termos. Exatamente nos meus termos.
O coração de Sienna deu um solavanco de surpresa e um leve pavor.
— Sair? Damian, não... e se alguém me vir? E se ele estiver por aí?
— Ninguém vai encostar um dedo em você. Eu já cuidei de tudo — ele a cortou, a autoridade silenciando as inseguranças dela de forma imediata. Ele soltou o rosto dela e apontou para o corredor que levava à suíte. — Há uma caixa no seu closet. Vista o que está lá dentro. Nós sairemos em uma hora.
Quando Sienna abriu a pesada caixa de papelão n***o adornada com uma fita de cetim, o fôlego fugiu de seus pulmões. Era um vestido longo, de mangas compridas, feito inteiramente de veludo n***o. A peça era pesada, luxuosa e exalava dinheiro. O corte era fechado no colo, destacando perfeitamente o diamante n***o que repousava em sua garganta, mas possuía uma f***a que começava pouco acima do joelho e um decote profundo nas costas. Ele havia comprado a roupa sem sequer tirar suas medidas, e ainda assim, parecia uma segunda pele desenhada apenas para ela.
Exatamente sessenta minutos depois, o SUV blindado de Damian deslizava pelas ruas escorregadias de Manhattan. O interior do veículo estava aquecido, mas as mãos de Sienna não paravam de suar. O simples ato de ver os prédios e as calçadas através do vidro fumê enviava espasmos de ansiedade pelo seu corpo. Damian dirigia em silêncio, a mão direita repousando possessivamente sobre a coxa dela, o polegar desenhando círculos lentos no veludo n***o, ancorando-a à realidade sempre que a respiração dela acelerava.
Eles pararam no SoHo, em frente a um edifício de arquitetura clássica que abrigava uma das galerias de arte mais exclusivas e privadas de Nova York. Não havia fila na porta. Não havia letreiros luminosos.
Quando Damian abriu a porta do carro e ajudou Sienna a descer, a garoa gelada e os flocos de neve tocaram o rosto dela pela primeira vez em semanas. O ar puro era cortante, mas ela m*l teve tempo de apreciá-lo. Damian imediatamente passou um braço pesado e possessivo pela cintura dela, colando-a contra o seu flanco, e a guiou rapidamente para dentro do edifício.
Ao cruzarem as portas de vidro duplo, o ambiente era de um calor reconfortante e um silêncio sepulcral. A galeria era monumental. Obras de arte de valor inestimável estavam penduradas em paredes de um branco puro, iluminadas de forma dramática. Mas o que chocou Sienna não foi a beleza das pinturas ou as esculturas de mármore abstrato.
Foi o vazio.
O lugar estava completamente deserto. Não havia outros clientes circulando com taças de champanhe. Não havia curadores sussurrando sobre pinceladas. Os únicos outros seres humanos ali eram dois seguranças de terno escuro, posicionados nas extremidades do saguão, que olhavam fixamente para o chão, como se tivessem recebido ordens estritas para sequer direcionar o olhar para o casal.
— Onde está todo mundo? — Sienna sussurrou, a voz ecoando fracamente no salão imenso, o som de seus próprios saltos altos batendo no piso de madeira polida soando ensurdecedor. — Hoje não é a noite de a******a da exposição? Eu li sobre isso na internet...
Damian caminhava ao lado dela, o porte imponente e o rosto esculpido em uma máscara de pura arrogância e controle.
— Era — ele respondeu calmamente, sem olhar para ela, apreciando uma tela a óleo à sua frente. — Mas eu liguei para o curador no começo da tarde. Comprei todas as obras da exposição principal. Como cortesia, eles fecharam a galeria para o público e cancelaram o evento.
Sienna estancou. O choque paralisou suas pernas. Ela olhou para o perfil rígido e perfeito do homem ao seu lado.
— Você... você fechou uma galeria de arte inteira? Você cancelou um evento público em Nova York apenas para que pudéssemos caminhar aqui dentro sozinhos? — ela gaguejou, o peso daquela informação caindo sobre ela como uma bigorna de chumbo. A noção de dinheiro que ela tinha não cobria nem a superfície do que aquilo significava.
Damian finalmente se virou para ela. Ele encurtou o passo, a sombra de seu corpo imenso engolindo a figura de Sienna no meio daquele saguão silencioso. Ele não parecia arrependido de seu absurdo de poder; ele parecia ofendido que ela questionasse.
— Eu disse que você sairia nos meus termos. Eu disse que não haveria pontos cegos ou variáveis imprevisíveis — ele declarou, a voz baixa, mas perigosamente firme. Ele ergueu a mão, os dedos quentes tocando a nuca fria dela, logo acima do fecho do colar de diamantes. — O mundo lá fora é doente, Sienna. Está cheio de ratos esperando no escuro para pegar o que não lhes pertence. Eu não vou deixar você andar por um salão cheio de estranhos onde qualquer um pode esbarrar em você, olhar para você ou tentar machucá-la.
— Damian... isso é... é demais. Você esvaziou a cidade para mim — ela sussurrou, uma mistura de terror e uma adoração doentia brilhando em seus olhos castanhos.
— Eu queimaria esta cidade inteira até o chão se isso significasse manter você segura — ele sibilou de volta, os olhos escuros ardendo com uma obsessão tão pura e avassaladora que Sienna sentiu as pernas fraquejarem.
Ele a pegou pela cintura, guiando-a até o centro da sala principal. Diante deles, pendurada em uma parede isolada, havia uma pintura a óleo gigantesca e sombria. Retratava a figura mitológica de Hades emergindo das sombras do Submundo, envolvendo os braços pálidos e aterrorizados de Perséfone. Na pintura, o deus não parecia um monstro clássico; ele parecia um rei belo, trágico e inegavelmente possessivo, enquanto Perséfone segurava, de forma quase hipnótica, as sementes de romã que selariam o seu destino nas trevas.
Damian parou exatamente atrás de Sienna. O peito dele roçou as costas nuas dela pelo decote do vestido. Ele se inclinou, os lábios roçando o ouvido da garota.
— Sabe por que Perséfone nunca lutou de verdade para sair do Submundo depois que experimentou o controle dele? — ele sussurrou, a voz hipnótica enviando tremores violentos pela espinha dela, enquanto as mãos grandes dele descansavam possessivamente nos quadris cobertos de veludo. — Porque ela percebeu que ser adorada pelo rei do inferno era muito melhor do que ser ignorada pelo resto da terra.
Sienna olhou para a pintura. O rosto de Perséfone na tela parecia refletir a sua própria alma fragmentada. Ela havia pedido para sair, havia pedido um gosto da liberdade lá fora. Mas Damian não havia lhe dado a liberdade. Ele havia comprado a própria rua, esvaziado o próprio prédio e trancado a porta pelo lado de dentro em uma escala astronômica e milionária.
A galeria não era um alívio do isolamento. Era uma demonstração grotesca de poder, uma mensagem clara de que o mundo externo não existia mais. Onde quer que ela fosse, Damian moldaria a realidade para que ela se tornasse apenas mais uma extensão de sua gaiola de vidro.
— A pintura é sua — Damian murmurou, beijando a curva sensível do pescoço dela. — Nós a levaremos para a cobertura hoje. Uma lembrança do seu primeiro dia lá fora.
Sienna não protestou. Ela fechou os olhos, o som do silêncio ensurdecedor da galeria vazia zumbindo em seus ouvidos. A ilusão havia sido quebrada e, ao mesmo tempo, solidificada. Ela havia comido as sementes de romã. Ela havia vestido o veludo e o diamante. O inverno lá fora poderia congelar Nova York inteira, mas no abismo particular de Damian Cole, ela queimaria para sempre.