Capítulo 15: O Som do Castigo

2039 Words
A pintura monumental de Hades e Perséfone havia sido entregue na manhã de segunda-feira. Dois homens silenciosos e de rostos inexpressivos, vestindo uniformes de uma transportadora privada de luxo, instalaram a tela a óleo na parede principal da sala de estar da cobertura. Eles não olharam para Sienna. Eles não disseram uma única palavra além de "Senhor Cole" quando Damian assinou o recibo de entrega. Assim que o elevador se fechou, levando os estranhos de volta para o mundo real, a pintura passou a dominar o ambiente com sua presença sombria e imponente. Sienna passava horas encarando a tela. A forma como as sombras do submundo pareciam engolir a deusa da primavera refletia com uma exatidão c***l a sua própria vida. Perséfone não estava acorrentada, mas o abraço do deus dos mortos era tão absoluto que as correntes se tornavam desnecessárias. Havia se passado três dias desde a ida à galeria de arte. O inverno havia se instalado definitivamente em Nova York, transformando a cidade lá embaixo em um borrão cinzento de gelo e vento cortante. Dentro da cobertura, no entanto, o ar era sempre quente, filtrado e impregnado com o cheiro do perfume amadeirado de Damian Cole. Era o meio da tarde, e Sienna estava sentada à imensa mesa de jantar de carvalho, trabalhando. O laptop criptografado brilhava com as planilhas da Lumina Cosmetics. O silêncio do apartamento era tão espesso que ela podia ouvir o leve zumbido da geladeira inteligente na cozinha. Damian havia saído para uma reunião presencial urgente em Wall Street, prometendo retornar antes do anoitecer. Sienna suspirou, esfregando as têmporas e afastando o cabelo castanho do rosto. O diamante n***o em seu pescoço pesou contra a pele, um lembrete gelado de sua submissão. Ela minimizou a janela do software de design, pretendendo buscar um copo de água, mas seus dedos hesitaram sobre o touchpad do computador. A imagem do rosto de Thomas piscou no escuro de sua mente. Ela havia tentado enterrar a culpa sob as camadas de luxo, uísque e sexo arrebatador que Damian lhe proporcionava, mas o fantasma de seu colega de trabalho desaparecido ainda sussurrava em seus momentos de solidão. Onde ele estaria? A família dele havia conseguido alguma pista? A polícia havia arquivado o caso? Uma curiosidade mórbida e desesperada apossou-se dela. Ela só queria saber. Uma única manchete. Uma única linha de notícia que lhe dissesse que Thomas estava bem, ou que pelo menos a busca continuava. O coração de Sienna começou a bater mais rápido, ecoando em seus ouvidos. Ela abriu uma nova aba no navegador web. A página inicial era apenas um fundo escuro com o logotipo da empresa de segurança digital de Damian. Com as mãos trêmulas, ela digitou "Thomas Miller desaparecido Nova York notícias" na barra de pesquisa e pressionou a tecla Enter. A tela não carregou. Em vez de uma lista de artigos e portais de notícias, a tela piscou em um tom de cinza chumbo. Um ícone de um cadeado vermelho e estilizado apareceu no centro do monitor, acompanhado de uma mensagem em letras brancas e frias: ACESSO NEGADO. CONTEÚDO BLOQUEADO PELO FIREWALL ADMINISTRATIVO. Tentativa de acesso à rede pública externa interceptada. Sienna piscou, a respiração travando na garganta. Ela tentou digitar o endereço de um portal de notícias famoso diretamente na barra de URL. Enter. A mesma tela cinza. O mesmo cadeado vermelho. Ela tentou acessar as redes sociais. Bloqueado. Ela tentou buscar a previsão do tempo de Nova York. Bloqueado. Um frio paralisante desceu por sua espinha, congelando o sangue em suas veias. O laptop não era apenas seguro; ele era uma prisão digital. Damian não havia apenas a protegido de invasores, ele havia construído uma muralha cibernética que a impedia de olhar para fora. O computador só tinha permissão para enviar e receber arquivos do servidor específico da agência de Arthur, e nada mais. Ela estava cega. Surda. Totalmente isolada do fluxo de informações do planeta Terra. A claustrofobia atingiu Sienna como um golpe físico. Ela empurrou a cadeira para trás de forma brusca, levantando-se em um pulo, ofegante. Ela olhou ao redor da sala imensa, para as paredes de vidro, para a pintura de Hades, e a realidade de sua situação desabou sobre seus ombros com a força de um deslizamento de terra. Não havia maçanetas na porta do elevador. Não havia interfone que ela pudesse usar. Não havia internet livre. O som suave e metálico do elevador privativo quebrou o silêncio, fazendo Sienna dar um sobressalto violento. As portas de aço se abriram e Damian pisou no mármore. Ele vestia um sobretudo de lã escura com a gola levantada contra o frio externo, flocos de neve derretendo nos ombros largos. Ele parecia um deus da guerra retornando de uma batalha: imponente, intocável e letal. Mas algo estava errado. Sienna conhecia as microexpressões dele. Ela conhecia a forma como os olhos dele costumavam brilhar com uma possessividade devota sempre que a viam após algumas horas longe. Mas agora, os olhos de Damian eram dois poços de pura escuridão. O rosto estava esculpido em uma máscara de frieza tão absoluta que fez o ar ao redor dele parecer congelar. Ele não disse "boa tarde". Ele caminhou lentamente até a ilha da cozinha, retirou o sobretudo com movimentos medidos, jogou-o sobre uma banqueta e puxou o próprio celular do bolso interno do terno. A tela do aparelho estava acesa. — Eu construí a fortaleza mais impenetrável desta cidade para manter você a salvo — Damian começou, a voz baixa, perigosamente suave e desprovida de qualquer calor. Ele não olhou para ela, mantendo os olhos na tela do celular. — Eu comprei o silêncio do seu chefe, contratei os melhores advogados do país para apagar o seu nome dos registros da polícia e transformei a minha própria casa em um santuário blindado. Sienna começou a tremer. As pernas dela pareceram feitas de gelatina, forçando-a a segurar a borda da mesa de carvalho para não cair. — Damian... — ela sussurrou, a voz falhando em um gemido patético. Damian finalmente ergueu o olhar. A frieza naquelas íris negras era pior do que qualquer fúria explosiva. Era a decepção calculada de um controlador absoluto. — E, no entanto, na primeira vez que eu viro as costas para garantir o futuro da minha empresa, o meu servidor de segurança me envia um alerta crítico — ele continuou, dando um passo lento na direção dela, o som do sapato de couro batendo no mármore ecoando como um tiro. Ele ergueu o celular, mostrando a tela para ela. Ali, em vermelho vivo, estava o registro de sua pesquisa. O nome de Thomas. — Você tentou abrir as portas do santuário, Sienna. Você tentou convidar o caos de volta para dentro. — Eu não ia... eu não estava tentando fazer contato com ninguém! — ela gaguejou, o desespero fazendo sua voz subir de tom, lágrimas de pânico quente inundando seus olhos. — Eu só queria saber! Eu estava com medo, Damian. O Thomas desapareceu por minha causa, e o silêncio estava me enlouquecendo. Eu só queria ler uma manchete! — Para quê? — ele cortou, a voz como um chicote de veludo, atingindo-a com força psicológica pura. — Para descobrir que a polícia não tem pistas? Para encontrar o número de um detetive e ligar para ele? Para deixar um rastro digital que o homem que está caçando você pudesse rastrear? — Não! Nunca! Eu nunca colocaria a nossa segurança em risco, eu juro! Damian parou a um braço de distância dela. A postura dele era um monólito de desapontamento. — Eu protegi você da escuridão, Sienna. Mas parece que você ainda está apaixonada pelo trauma que a machucou — ele murmurou, a voz pingando um veneno emocional perfeito. Ele balançou a cabeça de forma contida. — Eu entreguei a minha vida, a minha privacidade e o meu coração para manter você inteira. Mas você não confia em mim o suficiente para aceitar a paz que eu lhe dei. A distorção da realidade era tão cirúrgica, tão brilhante, que a mente de Sienna cedeu instantaneamente. A raiva que ela havia sentido há poucos minutos por estar trancada em uma gaiola digital evaporou, substituída por uma torrente avassaladora de culpa. Ela era a ingrata. Ela havia cometido um erro. Ela estava colocando o amor e a proteção de Damian em risco por causa de uma curiosidade estúpida. — Me perdoa — ela soluçou, soltando a mesa e dando um passo na direção dele, estendendo a mão para tocar o peito rígido do homem. — Damian, por favor, me perdoa. Eu não pensei direito, foi um impulso, eu juro por Deus que eu confio em você. Eu sei o que você faz por mim! Mas, antes que os dedos dela pudessem alcançar o tecido da camisa dele, Damian deu um passo para trás. A rejeição física foi como um tapa direto no rosto. Sienna congelou, o braço estendido no ar, o ar sendo expulso de seus pulmões. Ele nunca havia recuado de um toque dela. Nunca. Desde o dia em que o primeiro barulho soou na janela, Damian havia sido a sua âncora tátil, envolvendo-a, segurando-a, possuindo-a em cada oportunidade. Ao vê-lo afastar-se, um abismo de terror se abriu no estômago de Sienna. — Ações têm consequências, Sienna — Damian declarou, o rosto inexpressivo. — Se você prefere viver assombrada pelo mundo lá fora, eu não vou forçar a minha proteção sobre você. Aproveite a sua curiosidade. Ele virou as costas e caminhou em direção ao corredor da ala leste da cobertura, onde ficava o seu escritório particular. O som da pesada porta de carvalho se fechando e o giro agudo e metálico da tranca ecoaram pela sala. Sienna ficou sozinha. O silêncio que se seguiu não era reconfortante. Era ensurdecedor, sufocante e venenoso. As horas começaram a se arrastar. A luz do dia morreu, substituída pelas sombras densas da noite e pelas luzes elétricas de Nova York que brilhavam além dos vidros. Sienna sentou-se no chão frio de mármore, as costas encostadas na ilha da cozinha, os joelhos puxados contra o peito. O ar do apartamento parecia rarefeito. A ausência de Damian, a ausência da voz dele, da ordem dele, do calor dele, estava causando uma crise de abstinência brutal em seu sistema nervoso. Ela estava enjaulada em um espaço imenso, mas sem o carcereiro, a jaula era apenas um túmulo. Às nove da noite, a angústia tornou-se insuportável. A culpa corroía suas entranhas. Ela rastejou do chão, as pernas fracas, e caminhou em passos trêmulos e silenciosos pelo corredor até a porta do escritório dele. Não havia luz saindo por baixo da fresta. Ela ergueu a mão trêmula e bateu levemente na madeira polida. Nenhuma resposta. — Damian... — ela chamou, a voz embargada e patética, encostando a testa contra a porta fria. — Damian, por favor. Fale comigo. Eu estou enlouquecendo aqui fora. Eu não consigo respirar. O silêncio do outro lado era pesado e deliberado. Ele estava lá. Ela sabia que ele estava lá, ouvindo-a se quebrar. — Por favor... eu faço o que você quiser — as lágrimas desciam livres pelo rosto pálido dela, a submissão transbordando de cada poro. O colar de diamante brilhou fracamente na penumbra. — Eu nunca mais vou abrir aquele computador para nada além do trabalho. Eu não me importo com as notícias. Eu não me importo com o mundo. Eu só me importo com você. Não me afaste... não me deixe sozinha. Me perdoa. O som da fechadura destrancando ecoou como o estalar de um chicote no corredor silencioso. A maçaneta girou lentamente. A porta se abriu para dentro. Damian Cole estava parado no limite do escritório, mergulhado na penumbra, alto, perigoso e inegavelmente soberano. Ele olhou para baixo, observando a mulher trêmula, chorosa e completamente destruída que implorava por sua atenção na soleira da porta. A independência de Sienna Brooks não existia mais. O mundo exterior não passava de um pesadelo borrado. A única verdade que importava, o único ar que ela podia respirar, vinha do homem que a mantinha cativa. Damian estendeu a mão grande, a palma aberta em um convite sombrio, e a viu agarrar-se a ela com a força do mais absoluto e doentio desespero.
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