O som suave da água fervendo na chaleira elétrica era o único ruído que preenchia a cozinha de Sienna Brooks, além do estalo ocasional que seus próprios dedos faziam enquanto ela aguardava. O ambiente, antes associado ao pânico absoluto da noite anterior, agora parecia envolto em uma calmaria artificial. Da bancada limpa, Sienna conseguia ouvir os passos firmes e pausados de Damian Cole ecoando pelo corredor de tacos de madeira de seu apartamento.
Ele estava cumprindo sua promessa. Com uma dedicação minuciosa, Damian andava de cômodo em cômodo, testando as trancas das janelas e verificando os cantos escuros que o sol de outono não conseguia alcançar. Para Sienna, ver a silhueta daquele homem alto e imponente cruzando o limite de sua sala trazia uma sensação de alívio tão profunda que fazia seus ombros finalmente relaxarem. Pela primeira vez em semanas, a opressão de estar sendo vigiada parecia ter dado uma trégua.
— As janelas do quarto de hóspedes e do banheiro estão perfeitamente trancadas — a voz rica e profunda de Damian ecoou quando ele entrou na cozinha, interrompendo os pensamentos dela. Ele havia retirado o casaco pesado, revelando uma camisa preta de botões que se ajustava perfeitamente ao seu porte atlético, com as mangas dobradas até os antebraços. — Mas notei que a trava da janela da sua área de serviço está um pouco frouxa. O parafuso central cedeu com o tempo. Qualquer um com uma ferramenta simples conseguiria forçá-la pelo lado de fora se usasse a escada de incêndio.
Sienna segurou a caneca de cerâmica quente contra o peito, sentindo um calafrio instantâneo percorrer sua espinha.
— A escada de incêndio? Deus... eu nunca parei para pensar nisso — ela admitiu, a voz falhando levemente. — Eu moro aqui há quase um ano e sempre achei que estar no quinto andar era garantia suficiente de segurança.
— Em Nova York, a altura é apenas uma ilusão de distância, Sienna — Damian respondeu com um tom calmo, mas carregado de uma seriedade sombria. Ele deu alguns passos à frente, aproximando-se da bancada de granito onde ela estava apoiada. Seus olhos escuros e magnéticos fixaram-se nela, prendendo sua atenção de forma absoluta. — Criminosos experientes sabem exatamente quais edifícios têm pontos cegos. Mas você não precisa entrar em pânico. Eu apertei o parafuso o máximo que pude por enquanto. Amanhã de manhã, vou trazer uma tranca reforçada da minha própria casa e instalá-la para você.
— Eu não sei nem como te agradecer, Damian — ela disse, os olhos castanhos brilhando com uma mistura de vulnerabilidade e gratidão sincera. — Você está fazendo tudo isso por uma vizinha que m*l conhecia até hoje à tarde. A maioria das pessoas nesta cidade fingiria que não ouviu nada.
— Eu não sou como a maioria das pessoas — ele replicou com um sorriso sutil e enigmático de canto.
A ironia daquela frase flutuou no ar, mas Sienna estava envolvida demais na sensação de acolhimento para perceber o duplo sentido. Damian aceitou a caneca de chá que ela lhe ofereceu, seus dedos roçando levemente nos dela durante a entrega. O toque enviou uma onda de calor reconfortante pelo corpo de Sienna. Ela o observou caminhar até a sala e sentar-se no sofá de tecido cinza, cruzando as pernas longas com uma elegância natural, como se aquele espaço já lhe pertencesse por direito.
Enquanto Damian bebericava o líquido quente com total serenidade, sua mente operava em uma frequência completamente diferente. Ele conhecia cada milímetro daquele apartamento porque passara as últimas duas semanas estudando a planta do edifício e assistindo às gravações das câmeras ocultas que instalara na sala e no quarto dela. A tranca frouxa da área de serviço não era um defeito do tempo; fora o próprio Damian quem a danificara propositalmente dias atrás para criar um ponto de entrada rápido caso precisasse agir em uma emergência. Ele estava apenas jogando as cartas que ele mesmo havia marcado.
— Você mencionou que seu colega de trabalho sumiu hoje — Damian comentou casualmente, quebrando o silêncio enquanto apoiava a caneca na mesa de centro, exatamente ao lado do livro que causara o pânico dela na noite anterior. — Thomas, certo? Você acha que o sumiço dele tem alguma relação com o que você vem sentindo?
Sienna sentou-se na poltrona em frente a ele, abraçando os próprios joelhos. A menção ao nome de Thomas trouxe de volta o aperto em seu peito.
— Eu não quero ser injusta ou parecer ainda mais louca, mas... a coincidência é assustadora. O Tom sempre foi o meu porto seguro no escritório. Ontem ele percebeu que eu estava m*l e tentou me confortar. Ele... ele tocou no meu ombro para se despedir. E poucas horas depois, quando cheguei em casa, encontrei as flores e o livro fora do lugar. Hoje ele simplesmente não apareceu e mandou uma mensagem estranha dizendo que precisava se afastar por motivos médicos. Eu liguei para o celular dele cinco vezes, mas dá direto na caixa postal.
Damian ouvia o relato mantendo uma expressão de profunda absorção e preocupação fingida. Internamente, a lembrança do rosto ensanguentado de Thomas implorando por misericórdia no galpão industrial naquela mesma manhã lhe trazia uma satisfação indescritível. O peão insignificante havia sido removido do tabuleiro com sucesso. Thomas estava agora em um trem interestadual, apavorado demais para sequer olhar para trás ou responder a qualquer mensagem.
— Às vezes, as pessoas que achamos que estão nos protegendo são as primeiras a recuar quando o perigo se aproxima — Damian disse, destilando seu veneno psicológico com uma suavidade cirúrgica. Ele queria que ela acreditasse que Thomas a havia abandonado. — Talvez ele tenha percebido algo ou simplesmente não quisesse se envolver nos seus problemas. No final das contas, Sienna, nesta cidade você só pode contar com quem realmente escolhe ficar ao seu lado quando as coisas ficam feias.
Sienna abaixou a cabeça, sentindo o peso da solidão apertar sua garganta. Damian estava certo. Thomas havia sumido sem dar explicações reais. A polícia havia lhe dado as costas. O mundo parecia estar se fechando ao redor dela, deixando-a isolada em seu próprio medo. Ela olhou para cima, encontrando o olhar firme e inabalável de Damian Cole. Ele era a única constante sólida em meio ao caos.
— Acho que você tem razão — ela sussurrou, limpando uma lágrima solitária que teimava em escorrer por sua bochecha. — É só que... dá medo pensar que estou sozinha nisso tudo.
Damian levantou-se do sofá com movimentos lentos e calmos, caminhando até a poltrona onde ela estava. Ele se inclinou ligeiramente, diminuindo a distância entre eles, e estendeu a mão para tocar delicadamente no queixo dela, forçando-a a olhar diretamente em seus olhos escuros e intensos. A proximidade era avassaladora.
— Eu já disse isso para você na rua e vou repetir quantas vezes forem necessárias, Sienna — ele proferiu, a voz caindo para um tom possessivo e sussurrado que fez o corpo dela arrepiar-se por inteiro. — Você não está sozinha. Eu estou aqui agora. Eu vou cuidar de você, e garanto que ninguém, absolutamente ninguém, vai ousar cruzar a sua porta para te machucar enquanto eu estiver por perto.
Sienna prendeu a respiração, completamente hipnotizada pela intensidade daquele homem. Ela assentiu levemente contra os dedos dele, entregando o resto de suas defesas sem resistência. A armadilha psicológica de Damian Cole havia se fechado com perfeição absoluta. Ele não era mais apenas o vizinho prestativo; ele havia se tornado o seu protetor necessário, o salvador que ela mesma convidara para dentro de sua fortaleza. O jogo de controle estava ganho, e Sienna Brooks nem desconfiava que o preço de sua segurança seria a sua própria liberdade.
Damian afastou os dedos lentamente do queixo dela, quebrando o contato físico de forma calculada para deixá-la ansiando por mais daquela segurança. Ele caminhou com passos firmes até o aparador da entrada, pegou uma pequena caneta preta de sua jaqueta e deslizou um pedaço de papel texturizado sobre a madeira. Com uma caligrafia impecável e angular, ele anotou uma sequência de dígitos.
— Este é o meu número pessoal — ele disse, virando-se para ela enquanto segurava a maçaneta da porta principal. — Não hesite em me ligar, Sienna. Qualquer barulho, qualquer dúvida. Meu telefone fica ligado vinte e quatro horas por dia. Principalmente para você.
Sienna apenas assentiu, as palavras presas em sua garganta enquanto o observava abrir a porta. Damian lhe deu um último olhar profundo e enigmático antes de cruzar o batente e sumir pelo corredor silencioso do quinto andar. O som da fechadura batendo ecoou como um veredito no apartamento agora vazio. Sienna caminhou devagar até a entrada e recolheu o papel, pressionando-o contra o peito. O ambiente parecia subitamente mais frio sem ele, mas, pela primeira vez em semanas, a paranoia deu lugar a uma expectativa perigosa. Ela estava trancada em casa, mas seus pensamentos agora pertenciam inteiramente ao homem do outro lado da rua.